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26
janeiro

Semana de Prevenção dos Comportamentos de Risco - Fernando Mendes e Pedro Medeiros apelam à atenção dos pais

Escrito por  Flávia Taibo
Publicado em Geral

No âmbito da semana de Prevenção dos Comportamentos de Risco, promovida pela Escola Secundária Manuel de Arriaga, o Tribuna das Ilhas esteve à conversa com o Presidente do Conselho Executivo da escola, Pedro Medeiros, e com o psicólogo Fernando Mendes da IREFREA que veio dar formação na área ao pessoal docente e não docente da ESMA

A Escola Secundária Manuel de Arriaga (ESMA), promoveu de 15 a 19 de janeiro, uma semana dedicada à Prevenção dos Comportamentos de Risco para a qual convidou o psicólogo Fernando Mendes, da IREFREA Portugal, para dar formação ao corpo docente e não docente da escola e debater com os alunos, pais e encarregados de educação este tema.
Neste sentido, o Tribuna das Ilhas esteve à conversa com Fernando Mendes e com o Presidente do Conselho Executivo, Pedro Medeiros, que explicaram sucintamente aquilo que foi falado durante a semana.
Pedro Medeiros explicou que “nós aqui na escola acreditamos que o trabalho de prevenção e em particular no que se refere aos comportamentos de risco deve ser constante” e que “devemos estar atentos e dar o nosso contributo para a sociedade”. Por esta razão o objetivo desta semana foi “dotar as pessoas da nossa instituição e da nossa comunidade de conhecimento e de informação para podermos ser todos agentes de prevenção em relação aos comportamentos de risco”, disse.
“Vivemos numa sociedade muito aberta em que as fronteiras se esbateram, em que a circulação de bens e pessoas é muito fácil e nós temos como escola um papel de formação que também deve ser ao nível de prevenção dos comportamentos de risco”, reforçou o docente.
“O Dr. Fernando Mendes está connosco a contribuir para que os nossos alunos, o pessoal não docente, os professores, os pais e técnicos das instituições possam ter mais conhecimentos e competências no sentido de continuarem a trabalhar de uma forma eficaz com os nossos jovens para a prevenção dos comportamentos de risco” acrescentou o Presidente do Conselho Executivo.
Para o representante da ESMA esta semana só é possível por já haver várias pessoas a trabalhar há algum tempo nesta área na escola e também fora dela “em parceria com entidades externas à escola, em particular, com a Câmara Municipal da Horta que também está empenhada neste objetivo comum”.
Quando questionado sobre quais são os fatores de risco dos adolescentes face aos comportamentos aditivos, Fernando Mendes enumerou alguns tal como o facto de “haver substâncias disponíveis e acessíveis a preços muito baratos, haver pessoas que se aproveitam das pessoas mais novas para fazer comércio com isto”. “Falta de controlo parental, falta de se estabelecer alguns limites”, a capacidade que as famílias e/ou instituições têm para estarem atentos e ouvirem os jovens e o facto de “a adolescência ser realmente aquele momento em que a pessoa quer experimentar, quer fazer coisas diferentes” são outras das razões apontadas pelo médico para “este tipo de coisas”, disse.
O psicólogo salientou que a crença de que os comportamentos aditivos acontecem maioritariamente nas famílias socialmente vulneráveis não passa de um “mito” porque pela sua experiência na área e por estudos publicados pode-se afirmar que estes comportamentos estão presentes em todas as camadas da sociedade. “Infelizmente isto não escolhe ninguém em particular e toca a todos”, frisou.
Sobre este assunto, Mendes aconselha todos os pais e encarregados de educação a estarem atentos e a fazerem tudo o que lhes for possível para “prevenir os comportamentos de risco que possam aparecer” pois “têm sempre essa prerrogativa de serem os primeiros a deitar mão” se algo acontecer.
Na opinião do especialista, muitas vezes “é uma questão de organização da família e das regras”. “Eu acho que as famílias têm de ter regras, regras para a hora de almoço, para a hora de jantar, para as saídas, para os dinheiros que se dá, para estar em casa, acho que isso é fundamental”, esclareceu.
Adicionalmente, tentar perceber que “alguns dos comportamentos dos filhos não são aqueles mais saudáveis, porque a pessoa passa mais tempo ao computador ou porque eventualmente está a pedir dinheiro a mais para outra coisa qualquer”, reforçou o especialista.
O psicólogo afirmou que é fundamental que se ao desconfiar que o filho consome alguma substância ou se vir algum sinal de alerta os pais devem intervir logo e pedir ajuda a especialistas ou a quem de direito.
Neste sentido o responsável da ESMA revelou que a escola sente “da parte das famílias necessidade de referências não só na parte dos consumos, mas também na parte da educação em geral de incutir as regras”.
Para o Presidente do Conselho Executivo “é muito bom quando os pais com essa humildade se reposicionam como parceiros da escola porque é isso que nós como escola tentamos fazer: trabalhar em parceria com as famílias” e que com essa “abertura de parte a parte” é possível haver um diálogo construtivo para se chegar a uma solução conjunta.
Continuando com a o tema das regras, Mendes reforçou a importância de estabelecer-se regras e punições para o caso do seu incumprimento. “Os pais quando estabelecem as regras têm logo de princípio estabelecer aquilo que acontece se as regras não forem cumpridas. Isto é quase de alguma maneira um negócio. Vamos cumprir regras: tu vais fazer isto e se não acontecer tem de haver sanções e se os pais estabelecem uma sanção têm de a assumir”, sustentou.
Isto porque se o jovem não for castigado aquando do incumprimento das regras quando havia uma sanção definida, “da próxima vez a coisa vai um bocadinho mais além”, explicou o psicólogo.
No entanto, o clínico realçou ainda que os pais “têm de ter consciência das regras que estão a estabelecer e que limites é que estão a impor, se é possível ou não que isso aconteça”. As regras não devem “ser demasiado rígidas, mas serem rígidas para que a pessoa sinta que se acontecer eu tenho consequências”, completou.
Sobre a idade aceitável para os adolescentes começarem a frequentar espaços noturnos, nomeadamente bares, concertos, discotecas ou festivais de música, o especialista relembrou que “parte da nossa legislação já estabelece um pouco isso”.
No entanto, não vê “nenhum inconveniente as pessoas saírem, poderem estar fora, poderem estar com amigos, poderem ir até a um café ou um bar”, o problema é quando “as pessoas saem e se metem em exageros”, o que acontece muito frequentemente, lamentou o terapeuta.
Para o psicólogo é preciso chamar a atenção nessas situações: quando o jovem sai, “mas depois está a consumir e a consumir fora dos limites”. É nestas situações que o próprio se interroga sobre “onde é que estão os limites estabelecidos aqui, porque é que os pais não intervêm”, porque é que a lei não está a ser cumprida.
Estas situações estão relacionadas com os limites e as regras das famílias, na confiança que os pais têm nos filhos e se sabem ou não daquilo que eles podem fazer revelou.
Contudo, o especialista afirmou que cabe aos “pais perceber se com 13 anos os filhos têm maturidade e crescimento suficiente para saírem e para perceberem que nessa sua saída têm limites” e têm de cumpri-los.
Neste contexto, “se um jovem sabe comportar-se, sai, os pais têm confiança e sabem que está integrado num grupo com pessoas amigas e que vão para ouvir música, apreciar e divertir-se não vejo inconveniente nenhum”, mas que quando os jovens vão para “festivais não pela música, mas sim pelo o resto aí as coisas tornam-se um bocadinho mais complicadas”, rematou.
No que à situação dos consumos nos Açores e no Faial diz respeito, Pedro Medeiros disse que “nós não estamos numa situação que não será melhor nem pior, temos a nossa própria realidade, vivemos numa ilha, mas não estamos isolados”, acrescentando que “atualmente com a internet e os meios de transporte que temos é fácil a circulação de bens e de pessoas”.
“Eu penso que o problema dos consumos em particular, não é um problema da escola, não é um problema desta comunidade nem da ilha, é um problema do mundo neste momento. E nós estamos integrados neste mundo, fazemos parte de um país, de uma comunidade europeia, de um mundo que tem de lidar com os comportamentos de risco e dos consumos que prejudicam a vida e o futuro dos nossos jovens e das nossas pessoas”, declarou o presidente do conselho executivo.
“Portanto, sendo este um problema da sociedade de hoje, qualquer que ela seja, sendo que esse problema é muitíssimo mais grave noutros meios é importante fazermos um trabalho continuado de prevenção sem alarmismos”, sublinhou o professor, acrescentado que “mesmo que existisse apenas um aluno que consumisse por ano, para nós já era um motivo de preocupação” e “se um dia nós tivermos a certeza de que há zero alunos a consumir, nós não deixaremos de fazer prevenção”.
Completando aquilo que o professor Pedro disse, Fernando Mendes frisou que o Faial em termos de intervenções nesta área tem sido bastante inovador, sendo “a única ilha dos Açores que fez a implementação” de cursos de prevenção dos comportamentos de risco a várias famílias com especialistas. Foi também o primeiro Município dos Açores a ter um plano municipal das dependências e foi ainda o Faial a primeira ilha a ter “uma equipa de rua jovem” que fez pela primeira vez “uma saída organizada de um projeto que teve uma intervenção definida” supervisionada pela ESMA, pelo IREFREA, pela Câmara Municipal, pelo Centro de Saúde e outros parceiros.
De momento, está a ser realizada “uma formação de jovens mediadores na escola”, nunca antes vista, em que “estes jovens que estão a dar a cara por uma filosofia e por uma posição em relação ao estar na vida, à questão do consumo e à questão da violência”, pelo que na opinião do psicólogo será interessante ver o que é que eles irão alcançar e que o seu trabalho deveria ser mais valorizado e apoiado.
Neste sentido, Pedro Medeiros afirmou que os professores e o pessoal não docente da escola devem “assumir cada vez mais essa responsabilidade de influenciar positivamente os nossos jovens, sermos conselheiros positivos” e apoiar “as famílias nesse trabalho com humildade conhecendo a realidade tal como ela é”.
Já a concluir, cada um dos intervenientes foi convidado a partilhar a sua opinião sobre a liberalização da canábis, ao que Mendes respondeu ser “a favor de que haja uma liberalização para o estudo da canábis para fins medicinais”, explicando que apesar de se falar tanto sobre o tema e sobre os aspetos positivos da planta, “ninguém apresenta provas”.
No seu entender, nem todos os constituintes da canábis são positivos e “o fumo não tem os efeitos que as pessoas dizem que têm”, o THC é que “tem de facto potencialidades que têm de ser exploradas e neste aspeto a minha opinião é que deve ser explorado ao máximo como qualquer outra substância para que se possa fazer e ter remédios”.
Também Pedro Medeiros concordou com a opinião do psicólogo e defendeu que a canábis “para fins medicinais terá toda a legitimidade da sua utilização desde que devidamente enquadrada assim como outras plantas”.
“É uma planta como tantas outras que nós temos no quadro da biodiversidade botânica do nosso planeta. Como em tudo deve ser bem utilizada e aí a educação e a formação são essenciais para que possamos utilizar aquilo que está à nossa disposição com critério e pensando no nosso bem-estar e interesse da comunidade e reforçando os valores da nossa comunidade que queremos que seja uma comunidade forte e saudável”, concluiu o Presidente do Conselho Executivo. 

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