Na passada semana, uma comitiva de 23 elementos da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários do Faial (AHBVF) esteve em Bruxelas a convite do eurodeputado Luís Paulo Alves. Uma passagem pelo Parlamento Europeu, onde ficaram a saber mais sobre o funcionamento das instituições europeias e sobre as políticas da União Europeia que mais influenciam os Açores, bem como uma visita ao quartel dos bombeiros de Bruxelas, marcaram esta viagem. Para o anfitrião, esta foi a melhor forma possível de assinalar o Ano Europeu do Voluntariado, que se celebra em 2011.
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A noite fria de Bruxelas, o avançado da hora e o cansaço da viagem desde a Horta convidam os bombeiros faialenses a descansar no quarto após a chegada à Bélgica, a convite do eurodeputado açoriano Luís Paulo Alves. No entanto, já madrugada, os soldados da paz, fardados, aguardam à porta do hotel. Ninguém vai dormir sem antes receber o anfitrião, que também faz questão de dar as boas vindas aos seus convidados. Em Bruxelas há cerca de dois anos, o faialense ainda não conhece bem a cidade - à excepção do Parlamento Europeu, onde passa os seus dias -, e demora um pouco mais a encontrar o hotel. Ao chegar, não esconde a surpresa e a comoção ao encontrar os seus conterrâneos fardados à sua espera. As palavras custam a sair, enquanto cumprimenta os bombeiros um por um.
No dia seguinte, durante um encontro com os bombeiros faialenses no Parlamento Europeu, Luís Paulo Alves confessa aos seus convidados que se emocionou com a recepção. “E uma enorme alegria, honra e orgulho para mim recebê-los aqui”, refere. Alguns deles são conhecidos do eurodeputado, que em criança cresceu junto do quartel dos bombeiros. Neste Ano Europeu do Voluntariado, prestes a terminar, o faialense quis prestar homenagem aos homens que, ao toque da sirene, largavam tudo e corriam até ao quartel para ajudar quem quer que precisasse do seu auxílio. Num discurso emocionado, Luís Paulo Alves recordou alguns fogos memoráveis no Faial nos tempos da sua infância, e alguns soldados da paz com quem convivia, e que via frequentemente em correrias desalmadas pelas ruas da cidade: “sempre vos vi correr o mais depressa possível para ajudar os outros”, refere.
Aos jornalistas, o eurodeputado confessa que a imagem mais forte de voluntariado é, para si, a dos bombeiros, por isso quis trazer até Bruxelas os soldados da paz faialenses. Tratou-se de uma forma de celebrar o Ano Europeu do Voluntariado e, simultaneamente, homenagear os homens que dão tanto de si a troco de nada. “Os bombeiros merecem neste Ano Europeu do Voluntariado uma distinção pelo trabalho que fazem, colocando a segurança das pessoas e dos seus bens em primeiro lugar face à sua própria segurança, e nos dias que correm, onde o individualismo é tão grande, haver um conjunto de pessoas que faz isso, e que o fez ao longo de cem anos, como é o caso dos bombeiros do Faial, é fantástico”. “Não vi melhor forma de fazer essa homenagem a todos os bombeiros da Europa do que através da AHBVF”, referiu.
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No final do encontro com Luís Paulo Alves, a AHBVF agradeceu o convite, e aproveitou para retribuí-lo, convidado o eurodeputado a integrar a Comissão de Honra do Centenário daquela associação, que se celebra a 16 de Maio do próximo ano, convite a que o faialense acedeu de imediato.
Bombeiros faialenses visitam quartel em Bruxelas
Para os faialenses, a visita aos bombeiros de Bruxelas, na manhã de quinta-feira, foi o ponto alto da viagem. Com um efectivo de cerca de 1000 bombeiros, apoiados por 200 funcionários civis, a corporação belga é profissional e assiste uma população de cerca de 1,4 milhões de pessoas, numa área bastante reduzida – 176 quilómetros quadrados -, mas com uma densidade populacional muito elevada. Trata-se de uma realidade bem diferente da que vive diariamente a AHBVF.
Os bombeiros faialenses visitaram o maior serviço de luta contra incêndios da Bélgica, e puderam ver de perto infra-estruturas e equipamentos considerados dos mais avançados da Europa Ocidental. Na qualidade de cidade sede do Parlamento Europeu, Bruxelas dá especial relevo às questões da segurança, e por essa razão os bombeiros da cidade contam com equipamento bastante avançado, de fabrico alemão, como explicaram os guias da visita, dois bombeiros da corporação chefiada pelo coronel Charles Schneider.
Os bombeiros sapadores de Bruxelas contam com um serviço de incêndios com 200 veículos, com a particularidade destes serem adaptados, conservados e reparados por mecânicos do próprio quartel. Contam também com equipas cinotécnicas, equipas de mergulhadores, entre outras.
Apesar das grandes diferenças entre os bombeiros faialenses e os belgas, foi possível também encontrar algumas afinidades. Os soldados da paz do Faial encontraram alguns equipamentos semelhantes àqueles que utilizam na Horta, apesar de muito mais avançados, e ficaram a saber que, à semelhança do que acontece na ilha, também no grande quartel belga a maior parte dos serviços está relacionada com o transporte em ambulância.
Os bombeiros faialenses tiveram ainda a oportunidade de assistir a um dos exercícios que incluem o treino dos novos bombeiros no quartel belga e viram também um vídeo sobre a rotina dos soldados da paz de Bruxelas.
O agradecimento aos bombeiros belgas pela recepção esteve a cargo de Hélio Pamplona. O presidente da AHBVF deu a conhecer os bombeiros faialenses, lembrando, entre outras coisas, o trabalho por estes desenvolvido na articulação das quatro ilhas servidas pelo Hospital da Horta, e também o facto desta associação contar com elementos que já participaram em missões internacionais.
Após a visita guiada e a visualização do filme, os bombeiros faialenses puderam saber mais sobre a abordagem europeia às questões da protecção civil, graças a uma palestra proferida pelo Intendente Paulo de Almeida Pereira, representante de Portugal junto da União Europeia para a cooperação policial, protecção civil e aspectos civis na gestão de crises.
De acordo com Luís Paulo Alves, que acompanhou a visita ao quartel, a intervenção das instâncias europeias nas questões da protecção civil é cada vez mais importante, e por isso o eurodeputado quis que os bombeiros deixassem Bruxelas mais informados sobre o funcionamento da cooperação na União Europeia no que a estas questões diz respeito.
Paulo Pereira falou das competências do Parlamento, da Comissão e do Conselho Europeu no âmbito da protecção civil, e explicou como funcionam os mecanismos da União Europeia para resposta a catástrofes. De acordo com o Intendente, os mecanismos europeus mais visíveis nessa área são um centro de acompanhamento e um centro de monitorização. Estes são accionados quando um estado-membro enfrenta uma catástrofe natural e pede ajuda. Aí, os países com disponibilidade de fornecer os recursos de que o país afectado necessita oferecem a sua colaboração. Esta colaboração extravasa as fronteiras da Europa. Portugal, por exemplo, já colaborou no rescaldo de catástrofes como o tsunami asiático ou o sismo no Haiti.
Actualmente, discutem-se algumas formas de melhorar os mecanismos europeus de actuação no âmbito da protecção civil, não apenas em caso de catástrofes mas também de ajuda humanitária. Os apoios psico-sociais tanto às vítimas como aos agentes que intervêm, o reforço da segurança nuclear e a abordagem à forma de comunicar com o público durante situações de catástrofe são algumas arestas que, segundo Paulo Pereira, estão neste momento a ser limadas.
Outra das grandes preocupações da União Europeia é a criação de uma resposta mais abrangente em caso de catástrofe, não apenas humanitária mas também ao nível dos recursos militares e da garantia da segurança das populações. As instâncias europeias tentam também que tudo esteja coordenado de forma a que o apoio às populações possa ser accionado o mais rapidamente possível. No caso do sismo do Haiti, em 2010, passadas apenas 14 horas do sucedido, chegaram ao local equipas belgas e luxemburguesas para auxiliar os sinistrados. O Intendente chamou a atenção dos soldados da paz faialenses para o trabalho feito pela União Europeia em prol desta resposta rápida, trabalho esse que “no terreno não é perceptível”. Esta resposta, salienta, só é no entanto possível com “o valor e a dedicação” das pessoas que, como os bombeiros do Faial, trabalham para garantir o apoio às populações.
Por sua vez, Luís Paulo Alves lembrou que os Açores, pelas suas características físicas, necessitam de forma especial de uma protecção civil eficaz. As ilhas, localizadas na Crista Média Atlântica, são uma região sísmica, e caracterizam-se pela enorme distância que as separa do continente europeu, que lhes confere um isolamento que pode dificultar a chegada de apoio em caso de catástrofe.
Ponte entre os Açores e o centro da Europa
Para Luís Paulo Alves, o intercâmbio entre a Região e Bruxelas, coração do Parlamento Europeu, é muito importante, especialmente pelo facto dos Açores serem uma região ultraperiférica em relação à Europa. Nesse sentido, entende que os eurodeputados açorianos têm um papel primordial na ligação da Região ao velho continente: “o meu papel é aproximar os cidadãos da Europa”, explica, lembrando que por diversas vezes tem levado comitivas da Região a Bruxelas.
“Os europeus que vivem nos Açores estão mais distantes os que vivem em Bruxelas, Paris ou Londres”, e, nesse aspecto, a ponte entre as duas realidades deve ser feita “com maior intensidade”. “Isso obriga-nos a andar muitas vezes para cá e para lá, não só trazendo cá pessoas mas também levando pessoas da Comissão Europeia e de outras regiões da Europa aos Açores, para que conheçam as nossas realidades e para que na Região se possam debater alguns dos assuntos que são aqui debatidos”, explica.
Leia a reportagem completa na edição impressa do Tribuna das Ilhas de 18.11.2011 ou subscreva a assinatura digital do seu semanário