As salas de ensaio do Conservatório da Horta, habitualmente fechadas e mudas à noite, têm as janelas iluminadas, apesar do sol se ter posto há muito. Da rua escuta-se música, e, assim que se abre a porta, chega um calor reconfortante que contrasta com o frio do exterior. Lá dentro, ao som do hip-hop, dois grupos seguem atentamente as orientações dos formadores, e tentam repetir os seus movimentos de dança, enquanto outros observam, à espera da sua vez. Não há lugar para distracções porque a oportunidade é única: os formadores são Lageat Alin e Max Oliveira, dois dos melhores b-boys portugueses, com cartas dadas lá fora. Lageat é campeão europeu de b-boying e integra o Top 16 mundial e Max foi considerado o melhor coreógrafo de hip-hop nacional em 2009. Elementos dos Momentum Crew, que o país em peso conheceu no concurso Portugal tem Talento, vieram ao Faial dar um workshop de b-boying para 70 pessoas. Tribuna das Ilhas assistiu às aulas e conversou com eles.
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O b-boying, também conhecido por breakdance, é um estilo de dança de rua que integra a cultura hip-hop, e surgiu em Nova Iorque, na década de 70, de onde viajou para todo o mundo. Como explica Lageat, o b-boying é o resultado do multiculturalismo e da diversidade que caracteriza o ambiente nova-iorquino: “o b-boying é uma arte que começou à base de festa: o porto-riquenho entrava e fazia um passo de salsa; o brasileiro mostrava capoeira…”, explica.
Quando os Momentum Crew surgiram, em 2003, existiam poucos grupos de b-boying em Portugal. Max, pioneiro do grupo, conheceu Mix num encontro de b-boying no Porto, onde marcou presença o b-boy Kujo, super-estrela mundial que incentivou os dois rapazes a formarem uma crew: “foi ele que nos explicou o conceito de momentum, palavra latina que significa impulso ou movimento que começa e nunca acaba. E isso aplica-se à dança. Como o português deriva do latim, fazia todo o sentido”, explica Max.
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Três anos depois, Lageat juntou-se “à família”, num encontro em Paris. Actualmente, o Momentum Crew são nove. A Max, Mix e Lageat juntam-se Pedro, Magik, Ivo, Deeogo, Bruce e Mad-Dog. Como conta Max, os Momentum formaram-se, não através de castings ou audições, mas como se formam todas as famílias: graças a um sentimento de “amor inexplicável” que os une a todos à volta desta arte.
Uma crew portuguesa… Com certeza!
A diversidade cultural que caracteriza o b-boying está bem presente nesta crew. Max é “tripeiro absoluto”, como se define, e Lageat nasceu na Martinica. As características nortenhas de um misturam-se com as influências caribenhas do outro e, em conjunto com as idiossincrasias dos restantes membros, dão aos Momentum o seu estilo único e inconfundível. Esse estilo é, acima de tudo, português: “temos uma forma muito portuguesa de expressar bboying. Não procuramos ser como os americanos ou como quaisquer outros. Somos nós, uma crew da cidade Invicta que representa sobretudo o verde, o vermelho e o amarelo”, diz Max.
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Na semi-final do Portugal tem Talento, concurso da SIC em que a crew participou, os Momentum surpreenderam o país ao mostrar que era possível fazer b-boying ao som de um poema de José Régio. Na final do concurso, contaram a história da nação na sua actuação. Esta prestação valeu-lhes o reconhecimento nacional; uma espécie de brinde da nação a um dos principais objectivos dos Momentum Crew: valorizar Portugal através da sua arte. Por isso, têm procurado conjugar o b-boying com elementos da cultura lusa: “temos dançado com poesia portuguesa, com fado, com instrumentais portugueses, como a guitarra portuguesa… Usamos b-boying como podíamos usar outra arte qualquer. O b-boying é o nosso microfone; o nosso instrumento de expressão”.
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O Faial tem Talento
Esta passagem pelo Faial representa a primeira presença dos Momentum Crew nos Açores. Para Lageat e Max, foi amor à primeira vista: “estamos apaixonados pelos Açores. Eu não conhecia o arquipélago. Já conheço o mundo quase todo, graças à minha profissão, e os Açores não estavam no meu mapa. Estão agora. Muitas vezes viajamos para sítios tão badalados a nível de media, chegamos lá e não é nada de especial… Aqui há algo muito especial nas pessoas: uma simpatia verdadeira, nada comercial… E sítios inacreditáveis!”, refere Max.
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A presença no Faial surgiu da ligação entre Lageat e António Godinho, portuense a viver no Faial: “o António foi ao Porto, encontrámo-nos e surgiu a ideia. Começámos a falar e vimos que ia ser possível fazer alguma coisa”, conta Lageat.
A adesão do público aos workshops dos Momentum Crew foi surpreendente: 70 participantes, na sua maioria crianças e jovens que já integram os vários grupos de dança na ilha. Max e Lageat ficaram surpreendidos com a qualidade dos formandos, e gostariam de voltar para continuar a formação. Além disso, “nos Açores há uma grande abertura para a arte mas há também falta de oportunidade para as pessoas terem acesso a bons espectáculos e coisas novas”, considera Max, por isso confessa que gostaria de criar um projecto conjunto, com o apoio das autoridades locais, para trazer à Região um bom espectáculo de dança.
Leia a reportagem completa na edição impressa do Tribuna das Ilhas de 09.03.2012, ou subscreva a assinatura digital do seu semanário