O conceito de “cidadão” remonta à Atenas do século V antes de Cristo, na Grécia Antiga, servindo então para designar todos os indivíduos que, sendo livres, homens maiores de 18 anos e filhos de pai e mãe atenienses, tinham a possibilidade de participar activamente na vida da cidade, estando sujeitos a vários direitos e deveres inerentes a esse estatuto. A cidadania é, assim, uma das principais heranças da Grécia Antiga. Este modo de organização da sociedade, apelando à participação de (quase) todos na vida pública, fez com que este período permitisse também o surgimento da democracia grega, pedra de toque das democracias modernas. Os dois conceitos estão, desde então, interligados. Cada vez mais, uma cidadania activa contribui para uma democracia saudável. A cidadania foi evoluindo e o conceito de “cidadão” foi-se alargando, libertando-se de alguns dos grilhões da Grécia Antiga.
No século XXI, a cidadania ganhou novas ferramentas. A banalização da Internet fez com que surgissem novos espaços públicos online onde os cidadãos podem discutir as questões da vida pública. Hoje, com o apogeu das redes sociais, essa possibilidade foi elevada ao expoente máximo.
No Faial, as questões relacionadas com a vida pública também se debatem nas redes sociais. Recentemente surgiu no Facebook um grupo designada “Horta Cidadania”, criado precisamente com o objectivo de ser um espaço de discussão sobre as questões que afectam a vida comum dos cidadãos faialenses. As adesões ao grupo multiplicaram-se rapidamente e este tornou-se um fórum de debate e troca de ideias que tem dado que falar.
Tribuna das Ilhas foi conversar com o responsável por esta ideia, e saber quais os objectivos deste grupo.

De acordo com Braz Teixeira, responsável pelo “Horta Cidadania”, este grupo surgiu para tirar partido das potencialidades da Internet no que diz respeito há participação na vida pública. “A Internet é, hoje em dia, um meio privilegiado de acesso à cultura. O cidadão que tem acesso à cultura mais facilmente consegue interagir sobre os problemas da sociedade e ser mais activo”, entende. Nesse sentido, utilizar este recurso para criar um fórum onde todos os cidadãos podem dar o seu contributo para as questões que afectam a sociedade faialense afigurou-se com uma boa ideia.
A adesão ao grupo foi imediata. Braz Teixeira criou-o no dia 20 de Março. Dez dias depois contava já com mais de mil membros. Ao longo dos últimos dias têm sido vários os temas trazidos a este fórum. Um inquérito sobre as obras de que o Faial mais necessita, informações sobre os navios de cruzeiro que escalarão o porto da Horta nos próximos temos, sugestões para a Semana do Mar e ainda uma discussão sobre as alterações na rotunda junto ao novo molhe do porto da Horta, a norte da baía, são alguns dos temas que têm animado o grupo.
Como todos os exercícios de cidadania, a participação neste grupo deve fazer-se com alguma regulação. “O cidadão tem de ter consciência moral e ética, responsabilidade cívica e estar ciente das suas obrigações e direitos”, refere Braz Teixeira. Publicações ou comentários com manifestações de carácter partidário ou de tendências político-ideológicas, religiosas ou clubísticas não têm lugar no grupo. O mesmo vale para a publicidade. Além disso, publicações ou comentários que firam a integridade de outras pessoas são apagados, podendo o membro responsável por essa conduta menos própria ser excluído do grupo. “Achei importante colocar alguns princípios para que não se banalize a actividade do grupo”, refere o seu administrador.
Ferramenta para quem manda
Ao contrário da democracia da Grécia Antiga, que era exercida directamente por todos os cidadãos, a democracia dos dias de hoje é representativa. Isto significa que os cidadãos eleitores escolhem outros cidadãos, com cujas ideias e princípios se identificam, para os representarem na vida pública.
Braz Teixeira explica que que o “Horta Cidadania” pode ser também uma boa ferramenta para aqueles que representam os faialenses nos órgãos de governação, tanto a nível local como regional. A estes, deixa um conselho sobre a actividade deste grupo: “não a devem encarar como mais uma fonte de críticas mas uma fonte de auxílio. Quando forem definir as suas propostas, aquilo que pretendem fazer para bem da sociedade, têm ali uma fonte onde podem ver o que é que as pessoas querem e precisam”.
Para os eleitores, este grupo pode ser também uma “ferramenta de comunicação com quem nos governa”. “Os que nos governam não conseguem ver tudo. Todos juntos conseguimos ver coisas que de outra forma passariam despercebidas”, diz o administrador do grupo.
Rosa Dart, vereadora social-democrata na Câmara Municipal da Horta, é participante activa no “Horta Cidadania”. Ao Tribuna das Ilhas, destaca o que considera ser a importância das redes sociais enquanto “forma de expressão da cidadania”. “A existência de um grupo destes, sem amarras para se pensar o Faial, é fundamental”, considera. Rosa reconhece também a utilidade deste grupo para as suas funções públicas: “permite-me estar atenta a problemas que posso não ter notado mas para os quais sou alertada por via do grupo, podendo depois utilizar as minhas funções públicas para levá-los a quem de direito”, considera.
Também Filipe Menezes, vereador socialista na autarquia faialense, entende que “as redes sociais têm muito impacto nos dias de hoje, e terão ainda mais no futuro”. Menezes reconhece que esta ferramenta pode ser um importante espaço de debate e troca de ideias e opiniões, no entanto frisa que “não é a forma mais correcta de exercer cidadania”. Para o vereador, e apesar do contributo que as redes sociais dão para a relação entre município e munícipes, a melhor forma de contacto com o Executivo camarário continua a ser o directo.
Leia a reportagem completa na edição impressa do Tribuna das Ilhas de 05.04.2012 ou subscreva a assinatura digital do seu semanário