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17
abril

Conferência “Afectos, Família e Prevenção de Riscos” - Fernando Mendes deixa mensagem de prevenção

Escrito por  Susana Garcia/Fotos:Susana Garcia
Publicado em Reportagem

 

“Afectos, Família e Prevenção de Riscos”, foi o tema da 4.ª Conferência Anual, promovida pela Escola Secundária Manuel de Arriaga (ESMA), no âmbito do Projecto de Educação Afectivo Sexual, que trouxe ao Faial Fernando Mendes, do Instituto Europeu para o Estudo dos Factores de Risco em Crianças e Adolescentes (IREFREA), para falar aos alunos dos mitos existentes em torno do álcool e do consumo de drogas, nomeadamente cannabis, e deixar uma mensagem de prevenção no que ao consumo deste tipo de substâncias diz respeito.

Tendo como público-alvo os alunos do 12.º ano, a conferência subordinada ao tema “Afectos, Família e Prevenção de Riscos”, decorreu na passada segunda-feira, na ESMA.

Tratou-se de uma iniciativa no âmbito do Projecto de Educação Afectivo Sexual, que surgiu há seis anos, da necessidade de ir ao encontro das transformações da sociedade, e cujo principal objectivo é a integração da educação afectiva-sexual no dia-a-dia da escola, como uma actividade natural de descoberta da realidade adolescente. A necessidade de uma discussão aberta sobre este tema em todos os sectores do meio escolar deu o mote à construção de um programa onde a principal preocupação é a maior abrangência das pessoas da comunidade.

Este projecto é coordenado pelos professores Paulo Gonçalves, Sílvia Dutra e Maria do Céu Brito e, como explicou aos jornalistas Paulo Gonçalves, passa pelo desenvolvimento de actividades que têm por “objectivo essencial” alertar os jovens para esta área da educação.

O professor não é apologista das aulas de educação sexual, como a lei impõe, considerando que “é mais importante falar sobre os assuntos e é isso que temos tentado fazer”. “Há uns anos houve algumas actividades na escola neste âmbito”, explica, acrescentado que, após um período de interregno, estes docentes foram desafiados a “dinamizar o projecto”.

O coordenador refere que nos últimos anos foram desenvolvidas várias actividades nesta área: “por exemplo, durante três anos fizemos um inquérito à população escolar para perceber a realidade dos jovens”. Na sua opinião, “por vezes fala-se muito mas não se têm dados concretos mas agora já temos dados objectivos sobre esta matéria”. Têm também sido promovidos “debates temáticos por anos de escolaridade, ou seja, durante os últimos seis anos os alunos que entraram no 7.º ano chegaram ao 12.º debatendo seis temas”. Esses temas foram, de acordo com a evolução escolar, “Afectividade”, “Adolescência - Morfologia e Fisiologia do Organismo”, “Planeamento Familiar”, “Aborto”, “SIDA”, e “A família - Álcool/Drogas”.

Gonçalves salienta também que estas acções têm sido levadas do auditório para a sala de aula, cumprido assim o seu propósito inicial. “No auditório havia menos privacidade e conseguimos evoluir para o que pretendíamos fazer que era a transferência para um ambiente mais restrito, onde eles pudessem falar dos seus problemas”, diz.

O professor destaca também o papel destas conferências anuais. Trata-se de um evento “normalmente centrado nos alunos do 12.º ano e dirigido também à comunidade escolar, pais, professores, funcionários”, explica.

No que diz respeito à receptividade dos jovens, o professor considera que estas acções têm sido úteis na medida em que os alunos participam e colocam dúvidas.

Desta vez, o palestrante convidado foi Fernando Mendes, que há 30 anos desenvolve actividades de investigação na área dos comportamentos de risco nos jovens. Neste momento, pertence apo IRAFREA, organização não governamental criada em 1998, em que participam vários investigadores europeus, desenvolvendo actividades de investigação em projectos de cooperação internacional, através da promoção de uma prevenção primária integrada, na área de factores de risco e protecção de crianças e adolescentes, no uso/abuso das substâncias lícitas e ilícitas.

Aumento do consumo de substâncias é preocupante

Quem o afirmou foi Fernando Mendes, alertando para o facto do abuso de substâncias como o álcool, o tabaco e a droga ser hoje um padrão de consumo frequente nos adolescentes e jovens adultos. Muitas vezes, refere, as famílias não estão sensíveis ao problema, desvalorizando os consumos dos filhos, incentivando, ainda que de forma involuntária, um padrão de consumo de risco com danos claros para o próprio e para o sistema familiar.

Foi no sentido de alertar os jovens, a comunidade escolar e os pais, que Fernando Mendes foi convidado a falar nesta conferência. O orador esteve à conversa, primeiro com os alunos, durante a manhã de ontem, e depois, à noite, com os pais, professores e comunidade escolar em geral.

Ao Tribuna das Ilhas o convidado referiu que pretende deixar “uma mensagem de prevenção”. O orador considera fundamental que as pessoas estejam bem informadas sobre o consumo de substâncias e as suas consequências para que “quando chegar a altura de consumirem, poderem optar pela melhor opção, a de não consumirem”, refere. “É bom que os jovens estejam esclarecidos sobre os consumos, as substâncias e alguns mitos a elas associados”, disse.

A realidade do consumo de substâncias preocupa este investigador, que considera que nos últimos anos o consumo de cannabis e álcool disparou, sobretudo a nível nacional. “Costumo afirmar, em jeito de brincadeira, que gostava que se fizesse tanta força contra a cannabis como se faz em relação ao tabaco e ao álcool, porque não tiro as três do mesmo saco”, diz, reforçando a necessidade de um combate integrado às três.

Instado a pronunciar-se sobre a liberalização das drogas leves, o palestrante mostra-se totalmente contra, salientando que “temos vindo a assistir a um aumento do consumo da cannabis, que disparou entre os jovens, assim como dispararam também os problemas associados ao consumo de drogas nos jovens, problemas esses do foro psiquiátrico, por isso acho necessário apostar na prevenção”.

No que diz respeito à conferência dirigida aos pais e comunidade escolar, o convidado chamou a atenção para a necessidade de prestar atenção aos filhos. Fernando Mendes é da opinião de que, nas questões relacionadas com os consumos de substâncias, por vezes “os pais são os últimos a saber, não querem saber ou fingem não saber”.

No seu entender, existem muitas coisas que os pais podem fazer para ajudar os filhos, “às vezes não sabem é como fazer ou qual a melhor forma de o fazer”.

“As pessoas andam sobrecarregadas. A vida é dura e neste momento ainda mais. Mas às vezes o principal é a atenção, para detectar comportamentos de riscos nos seus filhos”, refere Fernando Mendes.

Segundo o orador, por vezes “os pais, por falta de informação ou porque não estão à vontade, têm receio de abordar estes assuntos com os filhos”. “Se as pessoas tiverem algum conhecimento sobre as substâncias, sobre como funcionam as drogas e que tipo de sintomas provocam, penso que são capazes de detectar esses comportamentos nos filhos”, até porque, para Fernando Mendes, “existem sinais evidentes que só quem não quiser ver é que não vê”.

O palestrante entende que, por vezes, os pais confundem as alterações de comportamento provocadas pelo consumo com os problemas da adolescência ou com os períodos da vida. “Uma coisa são os períodos da vida, que tem realmente altos e baixos, mas outra coisa são os sintomas do consumo de substâncias”, por isso, considera, é preciso que os pais estejam atentos. 

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