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31
maio

A fé no Divino Espírito Santo

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Publicado em Reportagem

Uma das características mais diferenciadoras do povo açoriano é a intensidade da sua fé no Divino Espírito Santo. A devoção ao Santíssimo faz parte da história do arquipélago e é de tal forma importante que a segunda-feira da Espírito Santo foi escolhida para celebrar o Dia da Região. O Faial não é excepção e, um pouco por toda a ilha, o início desta semana foi palco das manifestações de fé no Espírito Santo. Os cortejos com a coroa, a salva e o ceptro, bem como os estandartes; as coroações na Igreja e o almoço de sopas do Espírito Santo e carne, regados com vinho e onde não faltam a massa sovada e o arroz doce, marcaram estes dias, em que se ouviram os silvos dos foguetes e as canções dos foliões. Depois de amanhã, Domingo da Trindade, a história repete-se. 

Tribuna das Ilhas acompanhou, em Pedro Miguel, o domingo do Espírito Santo, marcado pela festa do 25.º aniversário do actual grupo de foliões da freguesia, e esteve à conversa com os protagonistas, pessoas de fé que não hesitam em pôr de pé a “função” ou o “serviço” – como se designa o almoço de sopas que reúne muitas pessoas – mesmo que isso signifique uma grande despesa financeira e dias de muita canseira e poucas horas de sono.

 Na véspera do

No início da tarde de sábado a Casa do Espírito Santo, em Pedro Miguel, fervilha de actividade. Desde sexta-feira que assim é, dia em que o ar se encheu do aroma da massa sovada acabada de cozer. Na véspera de domingo do Espírito Santo o dia começou cedo. Enquanto as crianças jogam à bola e andam de bicicleta, os mais velhos estão atarefados na preparação da “função”. Toda a gente ajuda, mas não falta trabalho. No dia seguinte, mais de cem pessoas estão convidadas para almoçar. 

A carne assada é feita na véspera

Depois de partida e arranjada a carne, as mulheres mais jovens põem a mesa na sala de refeições. Numa das cozinhas, as mais experientes cortam o pão para as sopas, que serão feitas no dia seguinte. Na outra cozinha, o cheiro da hortelã é a primeira coisa que se sente quando se entra. Num grande alguidar, a erva aromática que não pode faltar nas sopas está a ser separada para ser usada no dia seguinte. As cozinheiras vigiam o forno, preparado para receber a carne pronta para assar, distribuída por tachos que cobrem por inteiro a grande mesa de madeira. 

A entrada das coroas na Igreja é acompanhada pelo cântico dos foliões

Maria dos Anjos, ou Maria de São Miguel, como é conhecida na freguesia, alcunha reveladora da sua proveniência, é o “general” das operações. Nessa tarefa, é auxiliada por Alzira, a sua comadre. Amigas de longa data, partilham uma cumplicidade que faz com que muitas pessoas as confundam por irmãs. 

A coroação é o momento mais esperado da missa

Maria veio para o Faial há 22 anos. A sua devoção pelo Espírito Santo não esmoreceu ao chegar a esta ilha que hoje é a sua, antes pelo contrário. Ficou fortalecida, e passou-a à família. A filha, Vera, é a “imperatriz”, que é como quem diz, a mulher do “imperador”, Paulo, encarregue do “serviço” do domingo do Espírito Santo. Como nos conta o “imperador”, a sua entrada para a Irmandade do Divino Espírito Santo de Pedro Miguel foi para fazer a vontade à esposa, há cinco anos. Este é o segundo “serviço” da família.

Apesar do trabalho imenso e da despesa que significa manter esta tradição, Paulo garante que vale a pena. Além disso, reforça, quando se fala e Espírito Santo não faltam pessoas para ajudar. A vaca que deu a carne para “a função”, por exemplo, foi oferecida. Além disso, a grande parte dos convidados faz questão de contribuir com alguma coisa para ajudar. Nos últimos tempos, ovos, farinha, manteiga, entre outras coisas, foram chegando para ajudar a preparar esta grande refeição comunitária.

Os foliões cantam ao Imperador e à Imperatriz antes de ser servida a refeição

 

Rezar, comer e folgar

Enquanto espera que chegue a hora de pôr a carne a assar, Maria dos Anjos aproveita para descansar, pois assim que a carne estiver no forno terá de passar para a preparação do arroz doce. Sentamo-nos ao seu lado e logo nos aparece um delicioso suspiro para acompanhar a conversa, dos que foram cozidos no dia da massa sovada e serão “arrematados” durante as sopas.

“E então Dona Maria, isto é que tem sido uma canseira, não?!”, perguntamos, para puxar o assunto. A resposta é pronta: “dá muito trabalho menina, mas temos as ajudas, que são muito importantes. E Nosso Senhor também ajuda”, garante.

Depois de ter vindo para o Faial, “à conta de Deus”, como diz, há mais de duas décadas, Maria dos Anjos confessa que hoje se sente mais em casa aqui do que em São Miguel. No entanto, teve de aprender a cozinhar “à moda do Faial” para fazer as sopas do Espírito Santo. Estas não têm segredos para a cozinheira, que, confessa, gosta de ser generosa no picante do molho da carne assada. 

O dia seguinte vai começar cedo. Às três da manhã já Maria anda fora da cama: “gosto de tudo pontual! Não quero que as pessoas esperem pela comida. A comida é que espera pelas pessoas!”, diz. 

Para os responsáveis pelo

Como a filha mora noutra freguesia, é da casa de Maria que sairá o cortejo para a igreja, na manhã de domingo. “Tenho a minha casa cheia de Espírito Santo. Tem de ver os meus altares!”, diz, com orgulho.

E no domingo lá fomos, ver a saída do cortejo e comprovar a beleza dos altares, carinhosamente ornamentados. Este ano São Pedro pregou uma partida ao imperador. A chuva não pára de cair, para desgosto de Rita, a filha mais nova do casal, com 7 anos, desgostosa por ter de esconder com o casaco o bonito vestido de princesa escolhido para este dia especial, em que terá direito a coroa, já que a ela também coube este ano a honra da coroação. O tradicional cortejo em que são feitos quadros com varas dentro dos quais seguem os portadores das coroas e dos estandartes não vai a pé para a igreja. As crianças são distribuídas pelos vários carros e levadas até à igreja, onde o pároco recebe as coroas à porta. A missa é solene, cantada pela Capela, e a igreja está cheia. Rita pode finalmente tirar o casaco. 

O momento mais aguardado acontece no final da missa. Paulo, o filho e a filha vão coroar, e a eles junta-se o sogro do Imperador. É que, há algum tempo, este esteve doente, e o genro fez-se valer da fé no Divino, pedindo pela sua melhoria e prometendo a coroação. As promessas ao Espírito Santo são, de resto, muito frequentes entre os açorianos.

Nas Sopas do Espírito Santo não pode faltar o vinho

No fim da missa chove a potes, e passar o cortejo para a Casa do Espírito Santo não é tarefa fácil. Lá, os foliões cantam ao Imperador e à Imperatriz, e começam os preparativos para servir as sopas. Não há lugares marcados, mas todos estão convidados a partilhar as mesas grandes e fartas, como uma grande família. A expressão “almoço comunitário” nunca fez tanto sentido. 

25 anos a “foliar”

O “serviço” do Domingo de Espírito Santo em Pedro Miguel tem, este ano, um sabor especial. Serve também para comemorar os 25 anos do actual grupo de foliões da freguesia. A ideia de celebrar a data partiu de Alzira, tia do Imperador, já que ambos integram o grupo. Assim, na missa de coroação também os actuais elementos dos foliões coroaram, para que o Divino lhes dê a graça de continuarem a cantar e a tocar em sua honra.

Na hora de servir a refeição a azáfama na cozinha é imensa

A origem da festa

De acordo com o livro Um Gesto em Nome do Espírito Santo, do Clube de Filatelia O Ilhéu, coordenado por Carlos Lobão, as festas do Espírito Santo foram implantadas em Portugal pela Rainha Santa Isabel e trazidas para os Açores pelos primeiros povoadores oriundos do continente português. Enquanto que no continente a sua força esmoreceu, nos Açores – por força do isolamento das ilhas – a festa do Espírito Santo foi-se consolidando, de tal forma que hoje estende-se a todas as ilhas, apesar de se manifestar de formas diferentes em cada uma delas, e foi levada para outras paragens pelos emigrantes açorianos. Longe de casa, foi na fé que estes encontraram resposta para a necessidade de manter viva a sua ligação aos Açores. Nos Estados Unidos, por exemplo, o Espírito Santo é festejado com grande devoção, sendo um dos vários exemplos a sua celebração em Fall River, Massachusetts.

É frequentemente através do Espírito Santo que o povo açoriano invoca Deus nas horas de aflição: “relativamente aos aspectos naturais, nomeadamente o vulcanismo, vemos os símbolos do Espírito Santo levados, em procissão, até junto das lavas candentes, para que o Divino acalmasse as iras da natureza”, lembra Carlos Lobão no já referido livro. No Faial temos um exemplo bem visível desta característica: quando, em 1672, se deu a primeira erupção vulcânica após o povoamento da ilha – a erupção do vulcão do Cabeço do Fogo -, o povo ficou tão agradecido ao Divino Espírito Santo por ter sobrevivido à catástrofe que prometeu oferecer todos os anos, no dia de Pentecostes, esmolas aos pobres. Após todos estes anos esse voto continua a ser cumprido anualmente pela Câmara Municipal da Horta.

Leia a reportagem completa na edição impressa do Tribuna das Ilhas de 01.06.2012 ou subscreva a assinatura digital do seu semanário

 
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