Decorreram quarta e quinta-feira na cidade da Horta, umas jornadas sobre organização de equipas de cuidados paliativos.
Estas jornadas surgem no âmbito do Curso de Pós-Graduação em Cuidados Paliativos, ministrado pela Escola Superior de Enfermagem de Angra do Heroísmo – Universidade dos Açores, e no qual participa uma turma da Horta composta por 12 elementos, sendo 11 deles enfermeiros e 1 psicóloga.
O objectivo destas jornadas prende-se com a possibilidade de conhecer e compreender as estruturas e modelos de organização de serviços em cuidados paliativos e perceber a dinâmica de organização e funcionamento interdisciplinar, como um dos alicerces à prestação de cuidados paliativos.
As Jornadas decorreram na Biblioteca Pública e Arquivo Regional João José da Graça e no Departamento de Oceanografia e Pescas – Universidade dos Açores, onde decorreram para além das Jornadas, quatro Workshops, subordinados ao mesmo tema.
Durante a sessão de abertura, Sandra Pereira, coordenadora do curso, disse existirem, na Região, quase uma centena de profissionais de saúde formados na área dos cuidados paliativos e de já estarem formadas as equipas de Cuidados Paliativos, conforme decisão emanada da Secretaria da tutela, que, no entanto, não estão a actuar no terreno.
De acordo com a responsável, na Região é conhecida a escassez de unidades de cuidados paliativos, embora nos últimos anos se tenha assistido a um investimento progressivo na criação deste tipo de equipas. Não obstante, no que respeita à modalidade de internamento, não existe qualquer unidade em funcionamento nesta região.
À margem dos trabalhos, Sandra Pereira disse aos jornalistas que a “a nossa preocupação tem sido incentivar os profissionais de saúde que frequentam estas formações e incutir-lhes uma certa responsabilidade para que intervenham junto das chefias e administrações para que se avance, de facto, com a criação de equipas de cuidados paliativos.”
“Temos conhecimento de que existem várias equipas nomeadas, mas de facto ainda não se vê aquele que é o trabalho que seria desejável que essas equipas estivessem a fazer” - refere a profissional que explica ainda que “esse trabalho passaria por um acompanhamento dos doentes com necessidades de cuidados paliativos de forma diferenciada e com espaço próprio, no fundo, é fazerem aquilo que se espera que uma equipa de cuidados paliativos faça, ou seja, acompanhar doentes com doenças crónicas, incuráveis, em fases irreversíveis, com o objectivo principal de ajudar essas pessoas a viver o melhor possível o seu fim de vida”.
Conforme explicou durante a sua palestra, os cuidados paliativos destinam-se a doentes que, cumulativamente, não têm perspectiva de tratamento curativo, com doença que progride rapidamente e cuja expectativa de vida é limitada, o seu sofrimento é intenso e têm problemas e necessidades de difícil resolução que exigem apoio específico, organizado e interdisciplinar.
Não se destinam, por isso, a doentes em situação clínica aguda, em recuperação ou em convalescença ou, ainda, com incapacidades de longa duração, mesmo que se encontrem em situação de condição irreversível. Não são determinados pelo diagnóstico das doenças, mas pela situação e pelas necessidades do doente.
No entanto, doenças como o cancro, a sida e doenças neurológicas graves e rapidamente progressivas implicam frequentemente a necessidade de cuidados paliativos que se dirigem prioritariamente à fase final da vida, mas não se destinam, apenas, aos doentes agónicos. Muitos doentes necessitam de ser acompanhados durante semanas, meses ou, excepcionalmente, antes da morte.
As unidades de cuidados paliativos podem prestar cuidados em regime de internamento ou domiciliário e abrangem um leque variado de situações, idades e doenças. Os cuidados paliativos proporcionam aos doentes que vão morrer a possibilidade de receberem cuidados num ambiente apropriado, que promova a protecção da dignidade do doente incurável na fase final da vida.
Sandra Pereira diz ainda que “seria desejável que, pelos menos nos hospitais da região existissem unidades de internamento de cuidados paliativos porque não faz sentido que as ilhas mais pequenas tenham unidades de internamento, faz sentido sim que tenham equipas de suporte domiciliário e equipas que consigam servir de ligação e fazer consultadoria a outras equipas que já estão no terreno a acompanhar doentes mas que não têm formação diferenciada em cuidados paliativos. Importa ainda criar equipas móveis para as localidades/ilhas mais pequenas”.
“É perfeitamente viável que, na comunidade, se consigam criar equipas de cuidados paliativos ou então duas unidades de internamento e, num dos hospitais uma unidade de suporte intra-hospitalar” - referiu Sandra Pereira que rematou dizendo que “é preciso olhar para os cuidados paliativos nos Açores com uma visão estratégica e é preciso ter em linha de conta que os cuidados paliativos não podem ser um trabalho extra. As equipas estão criadas no papel mas é preciso que no terreno se criem as condições para que os profissionais possam exercer”.
António Martins Goulart, director clinico do Hospital da Horta disse também que “está em desenvolvimento um processo de constituição de uma equipa de cuidados paliativos, apesar de que temos trabalhado mais no espirito do doente oncológico e isso tem que ser alargado a outras vertentes das doenças crónicas.”
Martins Goulart adianta ainda que “esta terá que ser sempre uma parceria entre o Hospital e as unidades de cuidados primários de saúde, como seja o Centro de Saúde. Este é um projecto que está a dar os primeiros passos para a sua concretização, ainda está muito vocacionado para dentro do hospital”.