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12
julho

Potencialidades submersas

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Publicado em Reportagem

No início desta semana a Biblioteca Pública e Arquivo Regional João José da Graça, da Horta, recebeu a segunda edição do fórum “Conhecer o Mar dos Açores”, numa organização conjunta do Governo Regional e da Universidade dos Açores (UA), que juntou cientistas e decisores políticos numa reflexão sobre as potencialidades do oceano que circunda as ilhas.

Em análise estiveram temas como a biodiversidade e os habitats marinhos, as pescas, o ordenamento e gestão do espaço marítimo, a oceanografia, a meteorologia, as alterações climáticas, a biotecnologia, a cultura científica e a sensibilização, a exploração de minerais, a observação turística de cetáceos ou o mergulho com tubarões. 

Das potencialidades em análise, destaque para as questões da biotecnologia, onde a busca de conhecimento tem trazido resultados entusiasmantes e com potencial de gerar um manancial não apenas de saber científico mas também de rentabilização económica.

A investigadora Marta Machado, do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, deu a conhecer as potencialidades de alguns organismos dos ambientes hidrotermais açorianos para a criação de novos fármacos antiparasitários, com capacidades, por exemplo, para combater a malária. No entanto, não é necessário descer às fontes hidrotermais para encontrar o potencial biotecnológico do mar dos Açores. De acordo com Maria do Carmo Barreto, da UA, existem macro-algas na costa açoriana, mesmo à mão de semear, com potencial farmacológico. A UA tem vindo a procurar esse potencial desde 2006, e já encontrou compostos com potencial de serem utilizados no tratamento do cancro, como pesticidas biológicos ou antioxidantes especialmente poderosos. Recentemente, a UA identificou dois compostos completamente novos para a ciência mundial. Para a investigadora é importante salvaguardar todo este potencial, e chamou a atenção para a importância de preservar as zonas costeiras das Região, evitando a sua humanização em demasia, para evitar a delapidação destas populações de algas.

 Outro dos temas em análise quando se falou da biotecnologia foi o avanço nas ferramentas genéticas e de cultivo larval de cracas, com o investigador Mirko De Girolamo a falar do trabalho que tem desenvolvido no Departamento de Oceanografia e Pescas (DOP) da UA.

Potencial biotecnológico de enzimas bacterianas de origem marinha é enorme

Quem o garante é Raul Bettencourt, investigador do DOP, que trabalhou na primeira caracterização mundial do genoma do mexilhão das fontes hidrotermais e na criação da primeira base de dados mundial sobre a genética desta espécie. O estudo de alguns organismos que habitam as fontes hidrotermais na proximidade dos Açores tem permitido a descoberta de enzimas com potencial de serem utilizadas “na indústria farmacêutica, na biomedicina, no processamento do papel, no desenvolvimento de novos detergentes, nas defesas imunitárias”, entre outras coisas. 

Estas “super enzimas”, chamemos-lhes assim, existem devido à adaptação dos organismos que as produzem a ambientes extremos, “onde a vida é possível graças a uma química completamente diferente”. “ Nós já conseguimos isolar e caracterizar algumas dessas enzimas, e é possível depois aplicá-las em processos onde a obtenção de determinados produtos, como o etanol, por exemplo, é mais rápida e menos dispendiosa”, explica Raul.

Nesta fase, os investigadores do DOP estão a retirar a informação genética destes organismos, contando para isso com a colaboração do Parque Biotecnológico Biocant. Este é o primeiro parque de biotecnologia em Portugal, criado através de um arrojado investimento por parte da Câmara Municipal de Cantanhede e do Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra. A investigação açoriana neste campo conta também com a colaboração de grupos estrangeiros. “A Noruega, por exemplo, está muito interessada nos Açores e em constituir parcerias comerciais connosco”, refere. 

Os trabalhos desenvolvidos têm, de acordo com Raul, demonstrado que há potencial económico na exploração destes recursos: “estamos a um passo de produzir estes produtos de forma sintética”, explica. Esse passo, entende, é importante para provar aos investidores que estamos a trabalhar com produtos comercializáveis, cujo potencial permite pensar “em criação de empresas, de planos de negócio e atracção de investimentos”. “A simples informação genética, apesar de nos informar de que existe o potencial, não é suficiente para atrair investimento. Temos de mostrar aos investidores que isto funciona, partindo para a produção”, refere. 

Enquanto o conhecimento científico não se transforma em rendimento económico, há que garantir que o trabalho dos investigadores prossegue. A actual conjuntura económica tem sido especialmente nociva para o meio académico, com a UA a ser alvo de cortes de financiamento que preocupam este investigador: “vários projectos da UA ficaram paralisados pelo facto do financiamento a eles destinado ter sido utilizado para outros fins. Muita da investigação que é necessário desenvolver parou. Eu próprio deixarei de ter um contrato de investigação a partir do próximo ano. Infelizmente, neste cenário há a possibilidade do trabalho desenvolvido ficar a meio”, explica.

Leia a reportagem completa na edição impressa do Tribuna das Ilhas de 13.07.2012 ou subscreva a assinatura digital do seu semanário

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