A baía da Horta, de águas calmas e límpidas, protegidas pela Espalamaca e pelo Monte da Guia, e ornamentada pelo casario que se posiciona de frente para o mar como que a saudar os que chegam, convida, apenas pelo aspecto, qualquer velejador a entrar. A este aspecto apetecível junte-se a sua posição estratégica a meio do Atlântico Norte e o facto de ser um porto protegido. Estão assim reunidas as razões que fazem desta pequena cidade um dos nomes mais conhecidos dos velejadores em todo o mundo. A pequena Horta é gigante no mundo náutico. Essa expressão comprova-se quando a ilha é escalada por regatas oceânicas, como é o caso da Les Sables/Les Açores/Les Sables, que liga o Faial à França de dois em dois anos desde 2006. Disputada por embarcações de 6,5 metros (os chamados “mini’s”), é a “rampa de lançamento” para muitos velejadores que fazem carreira internacional. A edição de 2012 largou da cidade de Sables d’Olonne no dia 29 e hoje, dia 7, espera-se que ao final da tarde a primeira embarcação chegue à Horta.
A primeira edição da Les Sables/Les Açores/Les Sables remonta a 2006. Desde então, a regata repetiu-se sempre, de dois em dois anos celebrando agora a sua 4.ª edição.
Armando Castro, responsável pela Marina da Horta, recorda que, após o fim de uma regata que ligava os Açores à cidade francesa de Vannes, em 1994, surgiu a vontade de criar outro evento náutico que ligasse o Faial à França. A cidade de Sables d’Olonne, situada na costa sudoeste da França, em pleno golfo da Biscaia, surgiu como um parceiro de excelência por ser “mítica em termos de vela internacional”. É de Sables, recorde-se, que parte a Vendée Globe, famosa regata de circum-navegação em solitário sem escalas ou assistência.
Criaram-se então as sinergias necessárias entre os responsáveis franceses a açorianos. A Les Sables/Horta/Les Sables é organizada pelo Clube Naval da Horta (CNH), Governo Regional dos Açores, autarquia faialense e Portos dos Açores, entre outras entidades que colaboram. Na França, a organização cabe ao clube Sports Nautiques Sablais, ao Institut Sports Océan e à Câmara de Sables d’Olonne. A estes juntam-se alguns patrocinadores privados.
Entre Sables d’Olonne e a Horta estão 1270 milhas náuticas, que os participantes nesta regata oceânica percorrem em duas etapas, primeiro com destino ao Faial e depois no regresso à França. A duração de cada etapa depende muito do vento, podendo demorar 5 dias ou duas semanas. Os velejadores saíram da França no dia 29 e devem chegar ao Faial durante a Semana do Mar, estando a partida da Horta para a segunda etapa agendada para o dia 14 de Agosto.
Esta regata disputa-se em solitário, com barcos da classe de 6,5 metros, os chamados mini’s, que ganharam a alcunha de “máquinas de lavar”, pois, pelas suas reduzidas dimensões, quando navegam no meio do oceano as ondas passam-lhes frequentemente por cima.
O percurso não é, pois, tarefa fácil. Por isso, esta regata serve muitas vezes de teste à “fibra” dos velejadores que começam nesta classe a sua carreira desportiva.
Como explica Armando Castro, “quase todos os velejadores que andam no topo da vela internacional passaram pela classe dos 6,5 metros”. “A carreira de um velejador de alta competição em vela oceânica começa na vela ligeira. Depois passam aos 6,5 metros, em que permanecem uma ou duas épocas. Então escolhem entre a classe dos Fígaros, altamente competitiva, onde tempos, por exemplo, o Francisco Lobato, que já passou pela Horta nesta regata, e a classe dos 40 pés. Após essa etapa tentam chegar ao topo, à classe de embarcações de 60 pés. Actualmente está a aparecer uma nova classe com alguma força, que são os multicascos de 50 pés”, esclarece.
Nesta edição da Les Sables/Les Açores/Les Sables participam 39 embarcações cujos skippers tiveram de mostrar estar aptos para o desafio. De acordo com Denis Hugues, director de prova, é requerido aos participantes que façam mil milhas náuticas em solitário e 800 em cenário de regata antes de participarem nesta prova. Hugues lembra também que, nesta classe, “os velejadores não têm meios de comunicação a bordo”, o que implica que fiquem “alheados do mundo” durante o percurso.

Promoção de Ouro
Para os vários envolvidos, não há dúvidas de que a grande vantagem da realização deste evento é o seu poder promocional. Armando Castro explica que esta se trata de uma regata “extremamente mediática”, que proporciona uma “promoção excepcional não apenas ao porto da Horta mas à cidade e mesmo a todo o arquipélago”.
Também Fernando Menezes, presidente do CNH, destaca a projecção que a regata dá à Horta, principalmente por terras francesas: “em Sables d’Olonne vive-se isto muito intensamente. Vamos pelas ruas e encontramos grandes cartazes com fotografias da Horta, do canal Faial/Pico… É belíssimo, e uma muito boa divulgação da nossa terra”, refere.
Para o presidente da autarquia faialense, a Les Sables/Les Açores/Les Sables é, acima de tudo, um “evento é estratégico, em primeiro lugar porque tem grande projecção internacional e coloca-nos no centro dos eventos que se fazem em Portugal no mundo da vela”.
Segundo João Castro, a realização desta regata com regularidade “marcou a viragem no nosso posicionamento na área náutica”, exponenciando ao máximo a promoção da Horta no mundo da vela. “Hoje em dia, se formos aos portos do Mediterrâneo e falarmos em Horta, toda a gente sabe onde é que fica. No mundo da náutica ‘Horta’ é uma palavra conhecida mundialmente. Isso tem um valor promocional extraordinário, difícil de contabilizar”, refere.
No entanto, explica o edil, esta regata cumpre não apenas a vocação náutica da cidade, mas também a sua vocação cosmopolita, pela criação que permite estabelecer com a cidade francesa. “Nós somos uma cidade cosmopolita, mas essa designação não acontece por acaso. Aconteceu pelo nosso percurso histórico mas hoje permanece porque mantemos contactos com outras cidades do mundo. Esses contactos têm de ser alimentados e promovidos. A cidade de Sables é um parceiro privilegiado, com quem já temos uma relação de amizade e uma geminação informal no contexto náutico”, diz.
A boa relação entre a Horta e Les Sables é destacada pelo presidente do Sports Nautiques Sablais, Bernard Devy, ao Tribuna das Ilhas. Para Devy, “o que começou como uma ‘amizade na vela’ conduziu as duas cidades e conhecerem-se a apreciarem-se mutuamente”. “Se Les Sables é um famoso porto de partida para marinheiros, a Horta é única porque é um ponto de paragem no meio do Oceano Atlântico. Um porto onde podemos escolher parar por prazer, e demorarmo-nos mais uns dias, ou onde os barcos podem ser forçados a procurar abrigo e ajuda. A Horta tem uma reputação mundial por ajudar e receber pessoas e é por isso que a cidade e as suas pessoas são tão únicas”, refere.
João Castro destaca também a importância de olhar para a náutica como factor de galvanização económica pelo facto desta poder ajudar a contrariar o calcanhar de Aquiles do turismo faialense: a sazonalidade. O autarca lembra que as embarcações começam a chegar em Março, com os grandes navios a motor, seguindo-se depois outros segmentos do mundo náutico nos meses seguintes.
A promoção da Horta náutica não será difícil, já que se faz praticamente sozinha. Dennis Hugues classifica a cidade faialense como “uma das passagens obrigatórias de qualquer marinheiro que atravesse o Atlântico” e destaca a hospitalidade dos ilhéus como “muito calorosa”.
Para este entendido na matéria, a crescente projecção da Horta quando se fala de vela tem, no entanto, responsáveis: “a Horta é cada vez mais conhecida na Europa e isso deve-se ao dinamismo do seu presidente da Câmara e das autoridades portuárias, bem como ao Armando Castro”, diz.
Espírito Náutico compensa falta de espaço
As condições geográficas privilegiadas da Horta deram-lhe o potencial para ser uma referência do mundo náutico, no entanto a sua população encarregou-se do resto. A hospitalidade com que os faialenses recebem quem chega por mar é especial, tal como é especial a sua relação com o oceano.
São estas características que tornam possível receber nesta altura, com uma marina sobrelotada, 39 barcos extra. Armando Castro reconhece que “só com muito esforço” dos profissionais que trabalham na marina é possível acomodar estes visitantes. A este esforço, acrescenta, junta-se a boa vontade dos utentes locais, que disponibilizam os seus lugares na marina.
Este espírito náutico nota-se também no CNH. A agremiação náutica faialense, que nesta altura anda atarefada com a Semana do Mar, consegue sempre mobilizar todos os esforços necessários para dar apoio a uma regata com esta dimensão. De acordo com Fernando Menezes, “a chegada de uma regata como esta implica uma logística muito grande. Temos de ter homens no mar, dia e noite, e há todo um programa que é preciso cumprir”, explica. Por isso, os muitos voluntários que se congregam à volta desta regata, alguns levando as suas próprias embarcações para o mar para apoiar o evento, são parte fundamental no seu sucesso.
De entre os vários envolvidos no CNH, são os jovens praticantes de vela ligeira quem vê com mais entusiasmo a chegada dos velejadores que se estão a lançar em carreiras internacionais. Conscientes de que poderão estar perante os futuros “Messis” ou “Ronaldos” do seu desporto favorito, os jovens velejadores do CNH não faltam à chamada quando chega a regata. “Os nossos miúdos vivem isto com muito entusiasmo. Também vão para o mar, acompanham, têm essa curiosidade de observar os barcos… É muito bom para eles, e devemos estimular isso, fazer com que os miúdos nos acompanhem para despoletar neles o gosto por andar à vela, que é muitíssimo salutar”, explica o presidente do CNH.
Envolver a população
Para Armando Castro, é importante que toda a população faialense tome consciência da importância que a náutica deve ter para a ilha. “É importante passar a mensagem à nossa população de que isto é um evento extraordinário, dos maiores do país no âmbito da vela internacional. Leva o nome da Horta e dos Açores bem longe. E é esse o nosso principal objectivo”, refere.
Armando assegura também que eventos como este movimentam muitas pessoas na economia local, não apenas os velejadores que cá chegam mas também as suas famílias, que frequentemente voam para o Faial para acompanhar os aventureiros enquanto cá permanecem. Hotéis, unidades de turismo rural, restaurantes e empresas de aluguer de viaturas ganham com isto, mas não só, se tivermos em conta que todos os iates que param no Faial no meio de uma travessia oceânica têm de aqui abastecer-se para o resto da viagem.
Sobre estes velejadores em concreto, Armando lembra a dureza da viagem que enfrentam, referindo que, em França, “são acolhidos com um carinho extraordinário”. Por isso, pede às pessoas que se envolvam o mais possível com este evento: “venham à marina, ter um contacto com eles, congratulá-los pela sua chegada… Isso é importante para eles e é uma mensagem que vão levar de regresso a todos os seus amigos e pessoas envolvidas neste tipo de eventos, o que é extremamente importante para a ilha. A nossa cidade é virada para o mar por isso temos de despertar na nossa população o gosto por estas modalidades”, refere.
Esta reportagem integra a revista Especial Semana do Mar do Tribuna das Ilhas, de distribuição gratuita