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14
agosto

Graça Silveira, primeira candidata do CDS-PP pelo Faial às legislativas regionais: “O Faial precisa de uma representação que defenda a sua dama”

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Publicado em Entrevistas

Com 43 anos, Graça Silveira, docente no Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores, é a aposta do CDS-PP/Açores para subir a votação num dos círculos eleitorais mais difíceis para os populares da Região. A professora encabeça a lista do CDS-PP pelo Faial e, depois de uma votação que não chegou aos 300 votos em 2008, espera fazer o seu partido chegar aos dois dígitos na ilha Azul.

Assumidamente orgulhosa do seu percurso académico, a candidata diz não ser, nem pretender ser, uma profissional da política. Militante do CDS-PP desde 2007, Graça Silveira quer mudar o estigma que existe em relação à ideologia de direita.

Residente na Terceira, onde trabalha, não acredita que esse facto vá jogar contra si nestas eleições.

Defensora da criação de um projecto de desenvolvimento integrado para toda a Região, rejeita as “medidas avulsas” que, na sua óptica, têm marcado o governo das ilhas. Graça entende que é preciso encontrar o potencial de cada ilha para que juntas possam fazer um arquipélago mais desenvolvido. No Faial, esse potencial é, entende, a situação geoestratégica. 

Tribuna das Ilhas esteve à conversa com a candidata popular, que falou do desafio que é liderar a lista do CDS-PP no Faial, e explicou a sua visão de futuro para a Região.

O que a levou a aceitar o desafio de Artur Lima para ser a primeira candidata do CDS-PP pelo Faial?

Eu nunca fui uma pessoa da política. Sempre fui uma académica, cientista… Há cinco anos, quando o Artur Lima decidiu candidatar-se à presidência do CDS-PP, fez-me o convite para integrar o projecto dele. Já antes tinha participado por duas vezes com o CDS-PP como independente e, como nunca fui pessoa de ficar em cima do muro, aceitei. Filiei-me no partido e comecei a fazer parte deste projecto. 

Entretanto, como vivia na Terceira, comecei por participar de uma forma modesta. O Artur relaciona-se muito bem com a Academia; com as pessoas com formação superior. Há políticos que se sentem incomodados quando têm de falar com doutorados ou professores. O Artur não. Se precisava de saber algo sobre agricultura; se tinha uma questão que não percebia no âmbito da discussão de determinado dossier, telefonava-me, reuníamos… Essa participação foi começando a ser mais assídua e nas últimas eleições do CDS fui eleita para presidir o Conselho Económico e Social, que é o órgão do partido que prepara os diferentes dossiers. Quando chegaram as legislativas, o Artur desafiou-me. Sabemos que o círculo eleitoral do Faial é um dos mais difíceis para o CDS. 

Enquanto cidadã, incomoda-me o facto das pessoas estarem adormecidas, quase que anestesiadas, em relação à vida pública. Já quase não têm vontade de se colocarem contra; de serem um contra poder… E os cidadãos sempre tiveram essa função; a de se revoltar, de pedir explicações. 

Há uma expressão muito antiga que diz que reis fracos fazem fracas as suas fortes gentes, e penso que é o que se está a passar agora. Isto acaba por ser um ciclo vicioso. As pessoas estão desanimadas e demitem-se da vida pública e ao fazê-lo estão a deixar espaço para que a mediocridade se instale. Foi nesta perspectiva que achei que tinha que intervir na política se queria fazer a diferença.

Teme que o facto de não residir no Faial possa jogar contra si nestas eleições?

Não. O meu pai sempre me disse que a nossa casa não é onde nós residimos. É onde nós vivemos. E eu continuo sempre a vir ao Faial. As pessoas vêem-me menos porque, desde que fui mãe, quando venho para cá aproveito para que a minha filha possa passar o máximo de tempo possível com os avós. Mas a maior parte dos faialenses conhece-me.

Sinto que tenho uma vantagem, que é o facto de ser de uma nova geração e, além disso, mantenho-me jovem porque estou sempre a conviver com “malta” entre os 18 e os 25 anos na faculdade. Isso é importante para nos mantermos jovens, mesmo em termos das novas tecnologias, das novas tendências… Mas sou suficientemente “velha” , digamos assim, para conhecer o Faial e entender as suas dinâmicas. Tenho um passado e um presente do Faial, e isso é uma mais-valia para mim.

Como vê o Faial neste momento? Às vezes o facto de estarmos mais distantes de alguma coisa permite-nos observá-la com outro discernimento… Sente isso em relação ao Faial?

O primeiro distanciamento que me fez mudar a minha perspectiva de como via os Açores e Portugal foram os cinco anos em que vivi na Holanda. O facto de ter vivido num país do norte da Europa, onde as coisas acontecem como acho que devem acontecer, mudou-me. Numa fase inicial temos saudades e achamos que a outra cultura é péssima, mas depois começamos a perceber as coisas boas que essa cultura tem. Essa foi a primeira vez que fui capaz de fazer uma análise crítica em relação à minha pátria mãe. E nessa altura cheguei à conclusão de que os Açores eram muito mais especiais que Portugal. Eu tinha vivido até aos 18 anos a rezar todos os dias para ir para Lisboa, mas, pela primeira vez, percebi que os Açores, num contexto mundial, são muitíssimo mais interessantes que Portugal. Comecei a sentir-me açoriana antes de me sentir portuguesa.

Dentro dos Açores, o facto de viver na Terceira fez-me perceber que há diferenças. Os faialenses são muito mais urbanos, mais cosmopolitas, flexíveis e virados para outras culturas. Têm também uma capacidade crítica interessante. Sinto que ultimamente há uma tendência para anular os faialenses, nessa sua tendência de criticar, como se as suas críticas fossem fúteis, que não são. 

Acho também que os faialenses têm de perceber que, para além de todas estas características que fazem de nós um povo tão especial, existem necessidades básicas. O Faial tem muito pouco investimento privado, e tem também pouco investimento em sectores base, investimento esse que, durante muito tempo, foi compensado pela vizinhança do Pico, ilha com grande produção. 

Neste momento temos de investir no sector primário com uma perspectiva diferente. Acho que a agricultura deve ser inovada e não repetida. Para isso, temos de prestar atenção às mais-valias que temos: temos uma pastagem fantástica, as características da nossa carne e do nosso leite são peculiares, já que são ricos, por exemplo, em anti-oxidantes… Precisamos da malta que se formou em zootecnias, em agronomias e agro-indústrias. Precisamos que eles façam um investimento, não no sector público porque este tem pouco para oferecer nestas áreas, mas no seu próprio negócio. É importante que as pessoas saiam do paradigma de que um negócio é uma coisa para nos tornarmos ricos. Não é. Um negócio é um modo de vida. 

Que propostas fará o CDS-PP no seu programa eleitoral que façam com que os faialenses possam votar no partido?

Por não ser uma profissional da política tenho tendência a fugir da promessa fácil. O compromisso do CDS-PP sempre foi fazer, mais do que prometer. Apesar de sermos um partido de minoria não somos o clássico partido de oposição. Não estivemos no Parlamento a votar contra porque a oposição tem de ser contra ou a enumerar exaustivamente o que está mal. Sempre nos preocupámos em procurar soluções para problemas reais, em apresentar propostas bem fundamentadas e lutar para aprová-las. Algumas delas são bastante inovadoras. Um das nossas primeiras propostas foi o COMPAMID, o cheque medicamento que não existia em Portugal. E o CDS fê-lo aprovar, como tem feito aprovar muitas coisas.

O CDS já provou que é um partido votado a governar. Apresentamos propostas para mudar as coisas e resolver situações. Temos actualmente 8% dos deputados do Parlamento Regional e apresentamos mais de 20% das propostas, todas exequíveis.

Uma das principais preocupações do Faial é o problema dos transportes, que é gravíssimo. Neste momento o comércio no Triângulo está altamente estrangulado devido a uma má política de transportes. O CDS bate-se há anos pelo que acredita ser a solução mais eficiente, que é o avião mini cargueiro, que permitiria transportar produtos dentro das ilhas e das ilhas para o continente. Finalmente, conseguimos que fosse aprovado um projecto de estudo de viabilidade económica. 

Não vou dizer que vou fazer a obra X, Y ou Z, porque isso é inconsequente. Eu não acredito nas medidas avulsas. Acredito que uma boa governação passa por uma boa visão dos Açores. Em que é que o Faial é bom? Em que é que temos de investir? Tem de haver um plano, uma estratégia para implementar essa visão de desenvolvimento.

As medidas avulsas caracterizam o tipo de governação que temos tido, que é quase contabilístico. Gastar um bocadinho de dinheiro ali, outro bocadinho de dinheiro acolá, sem uma visão, não é uma atitude promotora de desenvolvimento. 

É fundamental pensar os Açores como um todo e ver como é que cada ilha pode contribuir para esse desenvolvimento. Nesta lógica, penso que ao Faial cabe rentabilizar a sua posição geoestratégica. Seja isso numa plataforma do mar, numa plataforma das comunicações… É uma mais-valia que o Faial tem e não pode deixar de aproveitar. Um projecto de desenvolvimento dos Açores tem de fazer do Faial a ilha central em termos geoestratégicos. 

O CDS-PP já acusou, em várias ocasiões, o actual Governo Regional de ter votado o Faial ao abandono. O que é vos faz afirmar isto?

O facto de, nas alturas da campanha, as pessoas caírem na falácia de fazer promessas e houve imensas promessas em relação ao Faial que nunca foram cumpridas. O Governo está mal, ao prometer e não cumprir, mas os faialenses têm de ser proactivos; têm de mostrar que não estão satisfeitos e eleger pessoas para os representar que sejam aguerridas e que mostrem que isto não está certo e que é preciso investir no Faial. 

Meios projectos não servem para coisa nenhuma, servem apenas para apresentar obra feita em momentos eleitorais. As pessoas têm de ter essa consciência, participar na vida pública, saber como as coisas se passam e pôr os pés à parede para defender a sua dama. O Faial precisa de uma representação que defenda a sua dama.

Há uma série de obras estruturantes para o Faial das quais se falam há muito tempo mas que continuam a ser adiadas. Gostaria de saber a sua opinião sobre algumas delas, como por exemplo a ampliação da pista do Aeroporto…

O CDS acha que, mais do que obra de betão, as políticas de transporte são fundamentais. Ainda há pouco tempo, sobre essa questão, fiz questão de perguntar quais eram, efectivamente, as condicionantes da pista da Horta actualmente. Pelo que percebi, são poucos os aviões que não podem aterrar aqui. O problema é sempre a questão da carga; o rácio passageiros/carga comercial. O mais importante é sair desse paradigma de ter aviões que funcionem em sistemas mistos, com os passageiros a pagarem o preço de ser necessário deslocar cargas comerciais nos aviões. O mini cargueiro é a solução de que necessitamos.

Não digo que não seria bom ampliar a pista do Aeroporto, mas os dinheiros públicos devem ser geridos como gerimos a nossa casa. Eu posso achar que precisava de um jacuzzi e de ampliar a minha casa de banho para o dobro. Mas se estou com dificuldades económicas não o vou fazer. 

No momento em que aeroporto da Horta precisar de obras mais profundas, aí sim penso que deveria pensar-se na ampliação. Mas ampliar o aeroporto numa altura em que há muitas prioridades e pouco dinheiro, em que é preciso gerar emprego no Faial e investir nos sectores básicos para não ficarmos dependentes de importações, acho que a ampliação da pista do aeroporto da Horta não é uma prioridade. E é isso que digo, mesmo que não traga votos.

 

Leia esta entrevista completa na Edição do Tribuna das Ilhas de 17 de Agosto de 2012





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