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02
outubro

“A amamentação precisa de sair do universo da medicina para voltar a entrar no universo da mulher”

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Publicado em Reportagem

O acto de amamentar, mais do que de natureza fisiológica, tem uma grande componente emocional. A visão de uma mãe a dar de mamar ao seu filho apela aos sentimentos, e a prova disso é o facto da amamentação ser fonte de inspiração para vários artistas, como é o caso do génio da pintura Pablo Picasso, que usou a sua arte para retractar este momento em que, segundo se diz, se reforça aquele que porventura será o mais forte elo das relações humanas: a ligação entre mãe e filho. 

Para assinalar a Semana Mundial do Aleitamento Materno, que se celebra esta semana, o pediatra espanhol José Paricio esteve no Faial no passado domingo, para falar de amamentação a um grupo de mães e pais faialenses. No encontro, que decorreu na Junta de Freguesia da Conceição, o médico chamou a atenção para as vantagens da amamentação, frisando a necessidade desta ser reaprendida como uma cultura que faz parte do universo feminino.

José Paricio é actualmente o chefe de pediatria do Hospital Marina Alta, em Alicante, Espanha. Este é, desde 1999, acreditado pela UNICEF como “hospital amigo das crianças”. Entusiasta do aleitamento materno, este pediatra não tem dúvidas de que os bebés amamentados pelas mães são mais saudáveis. “Além disso, amamentar é muito bonito”. “Os homens têm inveja ao ver como as mães e os bebés se relacionam durante a amamentação”, diz, em tom de brincadeira. “É algo que nós, pais, nunca poderemos fazer”, acrescenta.

O médico lembra que, “até há cerca de pouco mais de cem anos, as crianças apenas podiam sobreviver se fossem amamentadas com leite de mulher”. Paricio recorda a existência das amas-de-leite, que amamentavam os bebés cujas mães não podiam ou não queriam dar de mamar”. Inicialmente, explica, não se percebia por que razão os bebés não sobreviviam se não fossem alimentados com leite humano. Mais tarde, no entanto, descobriu-se que “existe uma diferença na quantidade de sais e proteínas dos leites”. “No reino animal, os mamíferos, como os gatos, crescem muito depressa. Por isso necessitam que o leite da sua mãe tenha muitas proteínas. O mesmo acontece com o leite de vaca. Por isso, quando se dava leite de vaca aos bebés estes não o podiam digerir e os seus rins falhavam. O leite de vaca tem 3 vezes mais proteínas e sal do que o leite de mulher”, explica. 

Paricio explica que “cada mamífero fabrica o leite de que necessita”, pelo que o leite humano tem todas as proteínas, açucares, gorduras, vitaminas e água na dose certa para o bebé. Além disso, tem coisas que o leite adaptado não tem, como anticorpos e glóbulos brancos. Por isso, protege o bebé de doenças e infecções como otites, alergias, bronquiolites ou meningites. 

Com o desenvolvimento da química, foram-se fazendo experiências, como a dissolução do leite de vaca com água. Foram então surgindo leites semelhantes ao leite de mulher, e os bebés começaram, pela primeira vez, a ser amamentados com outra coisa que não o leite da mãe.

O surgimento de uma indústria farmacêutica de leite em pó fez com que os interesses económicos despoletassem uma campanha de valorização desse produto, em detrimento do leite materno. Esta situação, aliada a outros factores, fez com que se tivesse perdido, durante algum tempo, a cultura da amamentação. Paricio explica que o conceito de aleitamento materno não pode ser entendido apenas como um instinto: “o bebé sabe mamar por instinto, porque nasce preparado para tal. A mãe, apesar de ter alguns reflexos relacionados com o instinto, tem de saber como se sentar, como colocar o bebé, e outras coisas. Isso é a cultura da amamentação, que antes passava de mulher para mulher. Mas as mães da geração de 60, 70 ou 80 não deram peito por isso não podem ajudar as suas filhas”, diz. 

O esmorecimento da cultura da amamentação entre as mulheres fez com que a responsabilidade da sua revitalização recaísse sobre médicos e enfermeiros. No entanto e de acordo com o pediatra, estes também nem sempre estiveram preparados para esclarecer as jovens mães, tendo até veiculado, ainda que de forma não intencional, algumas informações erradas, “como a necessidade de dar peito a cada 3 horas”. Hoje, sabe-se que o ideal é, por norma, dar de mamar quando o bebé quiser.

Paricio congratula-se pelo facto de, nos últimos anos, ter aparecido “um grupo de mães dispostas a recuperar a cultura do aleitamento materno”, que têm contado com o apoio dos médicos e enfermeiros entusiastas da amamentação. No entanto, o pediatra entende que “o aleitamento materno só estará verdadeiramente a salvo quando sair do universo da medicina para passar a fazer novamente parte do universo da mulher”. 

Conferência “Compreendendo o Passado – Planeando o Futuro”

No âmbito da Semana Mundial do Aleitamento Materno, a Secção Regional dos Açores da Ordem dos Enfermeiros organiza no dia 4 de Outubro, no auditório da Biblioteca Pública da Horta, a conferência “Compreendendo o Passado – Planeando o Futuro”, onde serão abordados vários temas relacionados com a amamentação. Esta iniciativa é aberta a todas as pessoas interessadas no tema. 

Leia a reportagem completa na edição impressa do Tribuna das Ilhas de 04.10.2012 ou subscreva a assinatura digital do seu semanário
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