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10
janeiro

O dia em que o Faial parou para ver jogar o Rei

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Publicado em Reportagem

A 4 de fevereiro de 1974, segunda-feira, o Faial parou para ver jogar à bola. A razão, apresentada desta maneira, não parece justificação plausível. No entanto, o caso muda de figura quando se conhecem os protagonistas. É que a 4 de fevereiro de 1974 entrava no relvado do Estádio da Alagoa o então campeão nacional, Sport Lisboa e Benfica, com todas as suas estrelas, que faziam as delícias dos amantes do futebol no mundo inteiro. Entre elas, uma em especial arrancava aplausos dos mais de 4 mil espetadores que encheram a Alagoa: o “Rei” Eusébio, que cerca de um ano antes de deixar o Benfica integrou o 11 das águias no jogo contra uma seleção de atletas faialenses. O campeão nacional, como se esperava, goleou a equipa da casa, com 13 golos, um dos quais do Pantera Negra. No entanto, a seleção teve direito ao tento de honra, que saiu do pé esquerdo de Manuel Bulcão. Tribuna das Ilhas esteve à conversa com o antigo avançado e recordou a passagem do Rei pelo Faial.

A morte de Eusébio da Silva Ferreira, aos 71 anos, no passado dia 5, significa a partida de uma lenda do futebol mundial. A partida, não o desaparecimento, porque os grandes homens só morrem quando deixam de ser lembrados. E Eusébio será lembrado para sempre por todos os que o viram jogar e em todos os sítios por onde passou. Entre os inúmeros campos em que jogou, conta-se o da Alagoa, que recebeu o Benfica em 1974.

A chegada das águias agitou a imprensa faialense da altura. A 1 de fevereiro o Correio da Horta anunciava que “o melhor do mundo” vinha jogar à Horta, destacando a presença na ilha das estrelas, como Bento, Toni, Nené, Diamantino, Artur Jorge e, em destaque, Eusébio, acompanhados do treinador Fernando Cabrita e do presidente do clube, Duarte Borges Coutinho.

De acordo com a imprensa, a passagem do Benfica pelo Faial terá tido como grande impulsionador o então governador do Distrito, Sanches Branco, que tinha amigos entre os dirigentes encarnados. A viagem até ao Faial foi, como noticiam os jornais, oferecida pela SATA.

No dia do jogo, o Correio da Horta dá destaque ao acontecimento referindo-se ao Benfica como uma “poderosa máquina de fabricar futebol da melhor qualidade” e salientando a presença do “Rei” Eusébio como motivo de orgulho.

A descrição da mítica tarde de segunda-feira faz-se nos diários faialenses ao longo das edições seguintes. O Benfica chegou ao Aeroporto da Horta pelas 14h00 e a ilha parou. O comércio fechou e, como noticia o Correio da Horta, começaram a chegar pessoas de Pico e São Jorge na véspera. “Durante a manhã o Terra Alta fez uma viagem extraordinária às Velas e as lanchas do Pico não pararam”, refere o jornal, acrescentando que “a descida do campo à cidade se transformou em autêntica romaria”.

O Correio da Horta de 7 de fevereiro destaca a presença de Eusébio: “veio e tirou fotografias, assinou autógrafos e deu entrevistas! Jogou e jogou quase meia parte e tentou a sua fulminante arrancada”, refere. O Rei integrou o 11 inicial do Benfica, constituído também por Bento, Artur, Humberto, Barros, Adolfo, Toni, Victor Martins, Simões, Nené e Diamantino. Jogaram também pelos encarnados Artur Jorge, José Pedro, Moinhos, Malta da Silva e Victor Baptista. A seleção faialense, escolhida por Antero Gonçalves e Alberto Soares, incluía jogadores do Atlético, do Fayal Sport e do Sporting da Horta. Constituíram o 11 inicial Tino, Alexandre Simas, Ismael, Lino, Francisco José, Santiago, Manuel Silveira, Macedo, Albertinho, Carlos Manuel e José Silveira. Foram ainda selecionados Paulo, Manuel António, João Luís, Manuel Luís, Magina e Menezes, e todos eles entraram em campo nessa tarde.

Aos 8 minutos, coube a Eusébio inaugurar o marcador e aos 19 o Pantera Negra proporcionou ao guarda-redes da seleção faialense, Tino, uma “extraordinária defesa”, como relata Armando Amaral na sua crónica do jogo. Aos 38 minutos, o Rei sai “sob prolongadas palmas” para dar lugar a Artur Jorge.

No final da primeira parte o Benfica ganhava por 0-6. Para além de Eusébio marcaram Diamantino (2), Victor Martins, Humberto e Simões. À beira do intervalo os faialenses deram um ar da sua graça com Lino a responder a um canto de Macedo com um remate forte que rasou a trave. Na segunda parte o Benfica havia de marcar mais sete vezes, por Artur, Artur Jorge (3), Adolfo (penalty), José Pedro e Victor Baptista.

No entanto, os faialenses não foram para casa de mãos a abanar. Aos 44 minutos da segunda parte, coube a Bulcão, avançado do Fayal Sport, marcar o golo de honra da seleção.

Manuel Bulcão recorda o mítico jogo no Estádio da Alagoa, onde marcou contra o Benfica

 

O golo de uma vida

Na sua carreira desportiva Manuel Bulcão passou pelo Fayal Sport, pelo Santa Clara e pelo Flamengos. No entanto, nunca irá esquecer o golo que marcou nessa tarde de segunda-feira, tinha então 25 anos. Com orgulho, mostra as fotografias desse dia, numa das quais aparece abraçado a Artur Jorge, e a ementa do jantar servido nessa noite no Hotel Fayal, onde reuniu autógrafos dos jogadores do Benfica.

Sportinguista de coração, garante que o golo ao Benfica não lhe soube melhor por ter um coração verde. O que o fez festejar como nunca aquele remate certeiro de pé esquerdo foi, garante, a explosão de aplausos na Alagoa.

Bulcão não jogou de início e pediu ao treinador para ver a primeira parte na bancada, junto do pai e da namorada. Quando se foi equipar, cruzou-se com Eusébio no balneário. Entrou na segunda parte mas foi preciso esperar quase até ao apito final para o remate mais memorável da sua vida: “houve um passe da direita e fiz-me à bola como se fosse rematar com o pé direito. Mas fiz a simulação a ver se a bola passava e ficava a jeito do esquerdo. Tive essa sorte. Rematei com a maior convicção que alguma vez tive”, lembra.

A Seleção Faialense incluía atletas do Sporting da Horta, do Fayal Sport e do Atlético

Leia a reportagem completa na edição impressa do Tribuna das Ilhas de 10 de janeiro de 2014, ou subscreva a assinatura digital do seu semanário

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