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28
novembro

DOP - um sinónimo de conhecimento científico

Escrito por  Alexandra Figueiredo
Publicado em Entrevistas

No âmbito do Dia Nacional da Cultura Científica, celebrado no passado dia 24 de novembro, o Tribuna das Ilhas visitou o Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade do Açores (DOP) e entrevistou o diretor,

Hélder Silva, no sentido de conhecer melhor o trabalho desenvolvido por este departamento e as dificuldades com que se tem debatido. 

O Dia Nacional da Cultura Científica foi criado em 1996 em Portugal. Foi escolhido o dia 24 de novembro para a sua celebração pois foi neste dia em 1906, que nasceu Rómulo de Carvalho, o professor de Física e Química responsável pela promoção do ensino de ciência e da cultura científica em solo nacional. 

Que impacto teve a perda de bolsas para investigadores no DOP?

Esta é uma situação de facto muito crítica. O país e a Região ao longo dos últimos 15 anos fizeram um investimento grande e expressivo ao nível da formação de cientistas e isso teve resultados. Tínhamos uma percentagem de doutorandos abaixo da média da União Europeia, e hoje em dia, estamos  um pouco acima da média.

No entanto, manteve-se uma situação de precariedade laboral para muitas  pessoas. O emprego gerado através das bolsas, sendo que existem dois tipos de bolsas fulcrais: as bolsas de doutoramento, aquelas que geram um capital humano capaz de prosseguir linhas de investigação e dar respostas a casas como a nossa, que os forma e os recruta depois,  ao nível profissional. E as bolsas de pós-doutoramento, aquelas que permitem oferecer emprego e garantir as linhas de investigação em curso dessas pessoas durante os anos seguintes. 

Acontece  que as bolsas foram substancialmente diminuídas e em resultado disso temos por exemplo, cinco pessoas que estavam aqui contratadas como investigadores há cerca de 15 anos e das quais, apenas duas, conseguiram ver o seu contrato renovado. 

Aquilo que se sente é que há dificuldades, por parte do estado e também da Região, em garantir  níveis de apoio à investigação, porque são estes os instrumentos que nos têm permitido alavancar, o conhecimento científico a que nos habituamos durante esta ultima década e meia.

A perca de bolsas de estudo têm condicionado bastante a investigação científica. Sentimos isto devagarinho, temos pessoas a terminar o seu doutoramento, e aquilo que acontece é que concluem esse doutoramento, na expetativa de conseguirem um emprego na área. Se por um lado não entram novos doutorandos porque não há bolsas abertas, eu sei que o Governo Regional está atento a esta situação e tenho uma informação oficiosa de que isto será corrigido ao longo dos próximos meses, por outro lado os pós-doutoramentos também ficaram congelados. O resultado é que as pessoas que acabam os doutoramentos e nós temos dificuldades em assegurar-lhes o trabalho. Obviamente que a nossa preocupação não é garantir o trabalho dessas pessoas. Sejamos claros, para nós é importante que essas pessoas trabalhem no mundo da investigação, mas é sobretudo importante garantir a persecução daquilo que são linhas de investigação que estão em curso, que são prioritárias,  importantes e que nós não queremos quebrar. Temos parcialmente resolvido isto através de alguns contratos temporários, através dos próprios projetos de investigação, alguns dos quais, financiados pela Região e por fundos comunitários.

Qual considera ser o papel do DOP na investigação?

Falo obviamente em interesse próprio, mas o DOP, na Região, tem desenvolvido um trabalho de investigação pioneiro numa área prioritária, e tem sabido, não obstante do número relativamente reduzido de pessoas que temos ligadas diretamente à universidade, fazer as coisas como deve ser. Aqui, temos o DOP propriamente dito, com oito investigadores doutorados e temos  o centro de investigação IMAR (Instituto do Mar) que tem mais de 20 pessoas doutoradas  a trabalhar e a desenvolver trabalho de investigação, e portanto, esta é uma realidade dupla.

O nosso papel foi muito positivo do ponto de vista de conseguirmos, com um número reduzido de pessoas, e acoplando toda esta outra comunidade através do IMAR, projetarmo-nos ao nível científico, na Região, para dentro da Região e para dentro do país, porque somos um departamento que tem uma projeção nacional e nalgumas situações especiais e até ao nível internacional. Temo-nos afirmado  na área do mar profundo. Um mar muito desconhecido que exige um esforço de investimento, de investigação muito acentuado. Nós temos conseguido porque esse mar está aqui ao lado, e porque temos  conseguido gerar sinergias com institutos internacionais que têm conhecimentos nesta área e que têm vontade de fazer investigação.

 

Quais as principais descobertas feitas pelo DOP?

Durante o ano de 2013, descobrimos que o Calonectris diomedea borealis,  mais conhecido pelo nome comum de Cagarro, um importante predador estruturante do ecossistema de mar aberto que depois de libertado num ponto aleatório do oceano consegue utilizar o olfacto para se orientar. 

Comprovámos que as baleias azuis e outras baleias de barbas do atlântico norte, se alimentam durante as migrações e que os Açores são um local importante nesses trajetos. Já tínhamos essa ideia em relação a alguns super-predadores como os tubarões, mas neste momento está comprovado que os Açores são uma área chave no trajeto migratório de algumas destas espécies para a sua alimentação, e nalguns casos também ao nível da reprodução. 

Um estudo desenvolvido no ano passado demonstrou que as capturas industriais de baleias foram responsáveis por uma percentagem considerável de extrações totais da pesca nos Açores, e portanto, devem ser incluídas na modelação do ecossistema a longo prazo, refiro-me o às capturas históricas que foram feitas ao longo décadas do século passado. 

Outro trabalho de investigação foi o desenvolvido na marcação e acompanhamento de peixes por métodos acústicos e por satélite que deu início a uma nova fase e permitiu o desenvolvimento de estudos também com tubarões pelágicos. Foi assim possível pela primeira vez demonstrar que as jamantas efetuam mergulhos profundos e confirmou-se que os Açores constituem uma área importante a nível mundial de reprodução dos tubarões azuis, espécie que se reproduz aqui nos Açores.

Está em desenvolvimento o projeto MORPH,do qual fazemos parte, e que concluiu a 1.ª etapa no ano passado para a criação de sistema robótico submarino baseado na integração de vários nós robóticos que comunicam entre si e que permitem fazer um mapeamento do fundo do mar na horizontal. Projeto este que está a ser desenvolvido por um consórcio internacional que envolve entre muitos outros parceiros e envolve-nos a nós.

Não posso deixar de fazer referência a outro projeto que tem vindo a ser acompanhado ao longo dos anos pela comunicação social que é o projeto Condor que tem permitido verificar que o encerramento deste banco de pesca resultou na recuperação de diversas espécies, com surgimento de uma maior abundância dessas diversas  espécies que utilizam a área. 

Estes resultados são importantes porque se trata de um trabalho pioneiro, diria até mesmo a nível mundia. Não são muitos os países que têm trabalhado nesta área, não me refiro a áreas marinhas protegidas, refiro-me a uma área profunda, um banco extenso, e um encerramento completo da atividade da pesca em toda esta área, e já lá vão quatro anos.

Merecem menção os trabalhos que têm sido feitos ao nível genético. Temos feitos trabalho também relevante com a utilização de novas ferramentas genéticas, no âmbito de um conjunto de espécies dos campos hidrotermais que nos permitiu detetar a presença de ácidos gordos numa esponja de profundidade, ácidos gordos esses que podem estar correlacionados com a atividade anticancerígena, aliás este potencial biotecnológico, digamos, já vem sendo identificado em diversas espécies que nós temos aqui nos Açores.

Quanto a alguns resultados mais recentes, no âmbito do estudo do impacto das alterações climáticas, uma assunto que tem despertado um interesse crescente na comunidade cientifica a nível mundial. Os corais de água fria nos Açores, espécie chave nos nossos ecossistemas. Temos vindo a descobrir um conjunto muito vasto de espécies que temos aqui nos Açores e que ao longo dos últimos anos, e experiências realizadas em cativeiro demonstraram pela primeira vez os mecanismos moleculares ao nível da expressão do gene envolvidos na resposta fisiológica dos corais de águas frias à diminuição do PH da água do mar como parte da acidificação dos oceanos. 

O trabalho publicado este ano permitiu demonstrar que o esforço de pesca realizado em águas profundas a nível mundial, é cinco vezes superior ao estimado, sugerindo que as espécies de águas profundas e os seus habitats estão sob uma ameaça mais grave do que até aqui era assumido.

Não posso deixar de fazer referência também ao projeto liderado pelo IMAR, relacionado com o estudo ao lixo no fundo do mar. Este estudo gerou tanto interesse, a nível nacional e internacional, que obteve mais de 35 mil visualizações numa semana.

Estes são resultados que expressam a dimensão mais global daquilo que aqui é desenvolvido, foquei apenas os trabalhos com elevado impacto e que proporcionam, por aquilo que  significam, uma nova dimensão do conhecimento atual das questões relacionadas com o mar apartir do trabalho que desenvolvemos aqui no DOP.

 Leia esta entrevista completa na Edição Impressa do Tribuna das Ilhas de 28 de novembro de 2014

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