Imprimir esta página
22
maio

Prazo de Validade…

Escrito por  Maria Antonieta Avellar Nogueira

Com a evolução dos tempos, os produtos alimentares e não só, ganharam estatutos. Prazos de validade. Alguns mesmo dão-se ao luxo de ter, para além da indicação do dia da morte, a hora exata! Acho estranho e curioso! Então não é que os pobrezitos, para além de passar a vida encurralados num qualquer recipiente à toa, ainda têm que aguentar a chateação de saber que, chegada aquela hora, aquele dia, tem de falecer forçosamente. Ora, isto é incómodo! E tanto mais o é, se por acaso o infeliz se sente bem de saúde, confortável e nada disposto a vir cá para fora, qual prisioneiro a quem lhe é aberta a porta, se sente peixe fora de água. E é por isso que eles, prisioneiros, voltam, voltam e voltam! É isso o que se chama amor à casa mãe.

Bem, com os produtos não podemos ir tão longe, é certo. Mas eles vingam-se. Se o ser humano não for suficientemente cuidadoso, vai apanhar por tabela, com a retaliação do “coisinha” que viveu encurralado, caso, distraído, não tenha lido as instruções (adoro esta história de instruções) e não tenha passado cartão ao prazo de validade, digo, à data do funeral. Assim, consome o conteúdo e contribui para a duplicação do dito funeral.

Nos tempos que já lá vão, nada tinha prazo. Havia lá tempo, paciência e inteligência para esses pormenores! Ora vejamos, um chocolate. Durava enquanto durava. Acabava o prazo no dia em que o comprador perdia o amor a uns tostões. Podia estar melado, com bolor, mas comia-se sem pé atrás e não fazia mossa. Vinha à rede, Era bombom.

As compotas duravam anos e nem um bolorzinho. Levavam por cima do frasquinho um papelito com álcool antibiótico da época. E duravam, duravam, duravam… Duravam conforme o gosto e a necessidade. Aí, morriam mesmo de “morte matada”. Compota sempre foi das coisas menos conflituosas. Nunca reclamava. Aquilo era uma paz de espírito!

Agora o caso das conservas de peixe, apesar de não haver problemas na hora da laboração, sempre merecia um certo cuidado que consistia em apalpar a latinha. Se fazia tchoque-tchoque, era melhor ignorá-la. Também havia que reparar se o conteúdo tinha azeite suficiente. Azeite, diziam eles, porque se aquilo era azeite, vou ali e já venho!

Curioso, tanto produto enlatado, engarrafado, empacotado, enfim… O único que sempre me fez confusão foi mesmo a lata de sardinha. O atum e outros que tais, já em filetes ou postas não me criam problemas. Já entraram falecidos. Mas as sardinhas, meu Deus, como diria o poeta, porque sofrem tanta dor, porque padecem assim? Ali, encafuadas, sufocadas, espremidas, do corpo inteiro, encolhidas, chateadas umas com as outras, por certo proibidas de comunicar, sofrendo, até á hora marcada para a morte! 

Aquelas que conseguem sair antes do prazo, até parece que se ouve: “Uff”, ainda não sofrem tanto. Mas, as outras que lá permanecem até à hora da morte, não têm funeral condigno, não se sabe para onde vão. Recicladas, enterradas, só Deus sabe. 

E os iogurtes? A mesma coisa. Com aqueles milhões e milhões de el casei (não sei porquê pensei agora no Ricardo Salgado) em conflito lá dentro, deve ser mais turbulento que qualquer guerra, com a agravante que os que vão sobrevivendo têm de conviver com os mortos, até que o prazo termine. É muita promiscuidade dentro duma simples embalagem de plástico!

E o leite de vaca? É silencioso mas é dos mais vingativos. Quando se cansa vira um líquido viscoso, mau aspeto, que nos tira a alegria de viver, e porquê? Porque ele sofre horrores ali encarcerado, tendo consciência que um ser humano o vai utilizar, quando ele sabe de antemão que estava destinado aos filhos das vacas e não aos filhos dos homens. E daí a vingança. Então sabem por que é que as vacas quando dão o leite à força mandam logo um valente coice?

Até um pacotinho de chá tem prazo. E inteligência. O chá lá dentro começa a magicar. Fora da minha terra, viro cadáver. Que se lixem! Eu trouxe há tempo muitos pacotinhos de chá de Budapeste, chá esse que tinha um sabor que nem só! Eles vieram, mas ao fim de pouco tempo, o prazo alargado, suas excelências viraram uma mescla. Defuntos… De dias. Encinerei-os, não antes de os mandar para o inferno!

Artigos de perfumaria fingem que estão bem, mas são altamente perigosos. Atrevidos, refinados, viram-nos a vida num farrapo. Medicamentos fora do prazo, têm a ousadia de se apresentar decentemente, na maior. Dá para enganar. Mas lá dentro ficam esperando pelo primeiro que caia na ratoeira!

Tanto prazo, tanto controle, tanta data. Só nós, humanos, nascemos sem data marcada. Sem prazo de validade. À partida não há um controle do vai, fica, espera, já, logo, hoje, amanhã. É sempre um ponto de interrogação. Temos uma certa liberdade, mas não nos podemos vangloriar pensando na saúde, na idade, nada! O prazo de validade termina abruptamente. E não dá satisfações. Pode ser repentinamente. Pode ser nas estradas da vida. Pode ser à mão dum maluco qualquer. Pode ser pelas próprias maluquices. Ser velho é uma certeza. Sempre de pé atrás. Ser novo é sinónimo de esperança. No entanto é tudo muito contingente.

Olha-se para todos os lados e nada de prazo. Será de morte natural ou de morte matada? Está-se vivinho da costa, até que um maluco qualquer lhe apetece brincar aos tirinhos. E aí é um ver se te avias.

E assim vamos. Nascer é sinónimo de chegar. Chegar é ter oportunidade de ficar, parar, ser. É encontrar o nosso quilómetro zero. E aí procurar um lugar e ser feliz. Mas, atenção, há sempre um preço a pagar.

Cuidado, ao nosso lado passam                corpos, rostos, fatos, emoções, sem                    se deterem, sem acontecerem. Culpa nossa. Estamos preocupados em chegar aqui, ali, acolá. Temos que parar                  um pouco, dar atenção aos outros.               Até que chegue o fim do prazo. Acredito nas palavras do poeta John Keats que, rodeado de tragédias,                 morreu, clamando: As coisas são belas porque morrem. 

 

Maria Antonieta Avellar Nogueira

 
Lido 870 vezes
Classifique este item
(0 votos)
Login para post comentários