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09
outubro

P’ra quê mas p’ra quê?

Escrito por  Maria Antonieta Avellar Nogueira

Época de campanha eleitoral. Escrevi com maior carinho uma crónica dedicada ao assunto. Eu, que até não tenho votado, ultimamente, senti um súbito desejo de fazê-lo. Confesso que até reli a crónica (contrariando os meus hábitos) e gostei. Gostei imenso. Ali estava eu, no meu estilo sério, bem-humorado, meio maluco. Reconheci-me nele. E dava dicas de recomendar.
E tudo aconteceu como um tsunami. No momento (sim, há momentos) de enviar a crónica para o jornal alguém jogou sobre a secretária uma revista. E nela a mulher de Passos Coelho, debilitada como sabemos, caminho da frutaria.
Foi assim que a minha crónica tão arrumadinha levou um abanão. Meu Deus, p’ra quê comprar fruta naquele dia? Como diria Herman José – Não havia nexexidade.
Será que a senhora, criatura, não poderia ter tido um pouco mais de paciência e esperar? Nós, os outros, levamos dias, meses, anos, vidas, esperando, esperando e esperando. E agora é o que se vê!
Resultado. A crónica, onde eu tinha realizado o meu sonho, escancarando o que me ia na alma, foi p’ró brejo. Foi um pedaço da minha vida perdido. P’ra quê comprar fruta naquele dia?
A crónica foi p’ró brejo, rasgada, um caco. Eu jurei não votar. E não voto mesmo. P’ra quê comprar fruta naquele dia?
Leitores, concordam comigo em que há qualquer coisa naquela ida à frutaria que nos escapa? P’ra quê comprar fruta naquele dia?
Por que será que a palavra factóide não me sai da cabeça? A crónica foi p’ró brejo. Eu não entalei a mão na urna. Não quero saber nem ouvir propagandas políticas. Perdi uma fatia do meu tempo. Tudo rumo à lixeira. Ganhei uma chateação que nem só! Uma perturbação metabólica. Um lixar de areia nos olhos. P´ra quê comprar fruta naquele dia?

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