(Continuação)
Como o tio Juan do Nascimento faleceu em 3 de Fevereiro de 1917, sem ascendentes nem descendentes, os diversos sobrinhos ou seus representantes foram seus herdeiros. Resolvida a contenda então existente, entre ele Manuel Carlos e os herdeiros ausentes, que também queriam herdar, ele acabou por adquire a parte da livraria dos restantes herdeiros. Assim, o casal Nascimento passou então a residir em Santiago, onde conseguiu renovar e rentabilizar a Livraria Nascimento então recebida. Nesse ano de 1917, funda a Editorial Nascimento, nessa mesma cidade. Procura então assessorar-se dos mais distintos especialistas na matéria, tendo acabado por fazer sociedade com dois dos seus melhores amigos, mantendo o domínio das empresas.
Na Editorial Nascimento editam-se, assim, livros dos mais distintos escritores do Chile, entre os quais se salienta Pablo Neruda, com diversas obras ali editadas, Gabriela Mistral, Andrés Sabélia, Francisco Encina, Pedro António González e muitos outros. Não é fácil imaginar o prestígio editorial que, em relativamente poucos anos, a Editorial Nascimento conseguiu obter. Por outro lado, na Livraria Nascimento vendiam-se livros escolares, de direito, de medicina, de história, de divulgação científica diversa, de poesia, romances, e de literatura vária, nacional e estrangeira.
Todavia, Nascimento, que dizia ter as portas abertas da sua editorial a todos os escritores, declarava não ser um homem de dinheiro. Em 21 de Maio de 1923 mudou a sua empresa para a Rua Arturo Prat, 1432, em Santiago, onde os seus negócios continuaram a florescer.
Mas na vida real da família Nascimento nem tudo são rosas. No ano de 1944 sua mulher, Rosa Elena Marquez, com quem trocava sempre impressões sobre as suas grandes decisões e gostos de leitura e de cultura, viria a falecer nesse ano.
Já meio recomposto daquele abalo, em 1948 decide visitar a ilha do Corvo onde parece que nem terá reconhecido, de início, as próprias irmãs e demais famíliares e amigos ali deixados quando partiu em 1905. Todavia, na estrutura da ilha pouco havia mudado nesses 43 anos de ausência.
Regressado ao Cilhe, a vida continuou, com o filho Carlos a assumir, desde os 21 anos de idade, a gerência da Editorial Nascimento.
Manuel Carlos George Nascimento acabaria por falecer em Santiago em 12 de Janeiro de 1966, longe da ilha que o viu nascer, mas junto dos familiares que ainda possuia nesse país, onde soube
Convém esclarecer, quem não conheça o livro do Prof. Doutor Vásquez de Acuña Marquês Garcia del Postigo, intitulado “O Corvino Carlos G. Nascimento, co-arquitecto das Letras Chilenas” que essa obra tem, efectivamente, grande profundidade histórica. Aborda caminhos, em certos casos previsíveis, de vários elementos da família de Manuel Carlos George do Nascimento, quer dos seus ascendentes, quer dos seus descendentes. Dá especial relevo à vida deste prestigiado corvino, figura ímpar da cultura e das letras chilenas, essencialmente pela forma com venceu as precárias condições de emigrante com que chegou ao Chile.
Nele o autor refere que Manuel Carlos foi o mais fervoroso dos editores chilenos, em livros limpos, preciosos na sua elegância, honrando desse modo a tipografia nacional. Refere que ele recordaria muitos anos mais tarde que, “Em princípio, a sua maneira lenta de falar, dava a impressão que era um jovem carente de vontade”. Evidencia a portugalidade de Nascimento, considerando-a como a “mais genuína porque mais marítima… e muito ferida pelas despedidas dos emigrantes e das lágrimas caídas…” (2)
Mais adiante acrescenta que, segundo o filho, “Júlio George Nascimento, o pai lia até altas horas da madrugada e depois passava os textos para a mãe, Rosa Elena, para conhecer a sua opinião. A selecção baseava-se nos seus gostos literários. Como ambos gostavam de poesia, a editorial foi exclusivamente dos poetas durante longo tempo” (3).
Escreve também que Manuel Carlos “Era um homem alto, mais para o magro, de rosto comprido e com calvície incipiente, fontes grisalhas, de sobrancelhas espessas, lábios grossos, como a armação dos seus óculos, de falar rouco e pausado, com sotaque especial que fazia sobressair a sua natural simpatia e bondade. Vestia escuro com correcção e simplicidade” (4).
Salienta que “O seu labor pela literatura transcendeu os cenáculos e o público selecto. Para isso, criou a Colecção Popular Nascimento, onde incluiu obras de grande qualidade a baixo preço com grandes tiragens para que muitas pessoas pudessem ter acesso a elas” (5).
Refere também que “o senhor Nascimento raramente se zangava com os autores” e que “era dono dos direitos de edição de centenas de títulos” (6).
Todavia, depois do seu falecimento, terminaram em 1986 as suas actividades, quer a Livraria, quer a Editorial Nascimento.
Estas são algumas das muitas referências elogiosas com que aquele autor se refere este ilustre corvino.
Em 24 de Maio de 2010, Manuel Carlos George Nascimento foi agraciado, a título póstumo, com uma medalha da Região Autónoma dos Açores, numa sessão solene, no dia da Autonomia, que teve lugar na sua terra natal, a ilha do Corvo. Essa medalha visa homenagear essencialmente todos os açorianos que se distinguiram, dentro ou fora da Região, e que pelos seus feitos sejam merecedores de tal distinção.
__________
Bibl: Del Postigo, Prof. Doutor Vásquez de Acuña Marquês Garcia, “O Corvino Carlos G. Nascimento – co-arquitecto das letras chilenas” (2004), edição da Direcção Regional da Cultura, por especial deferência do autor e da mencionada Direcção Regional da Cultura, do Governo Regional dos Açores; Jorge, Padre Lourenço “Notas do Corvo”, Organização de João Saramago, Fotografia de Jorge de Barros e Design de João Machado (2001), edição da Câmara Municipal do Corvo; fotocópia do registo de nascimento do próprio existente na Biblioteca Pública e Arquivo da Horta.
(3). Del Postigo, Prof. Doutor Vásquez de Acuña Marquês Garcia, “O Corvino Carlos G. Nascimento – co-arquitecto das letras chilenas” (2004), p. 105, edição da Direcção Regional da Cultura;
(4). Del Postigo, Prof. Doutor Vásquez de Acuña Marquês Garcia, “O Corvino Carlos G. Nascimento – co-arquitecto das letras chilenas” (2004), p. 131, edição da Direcção Regional da Cultura;
(5). Del Postigo, Prof. Doutor Vásquez de Acuña Marquês Garcia, “O Corvino Carlos G. Nascimento – co-arquitecto das letras chilenas” (2004), p. 137, edição da Direcção Regional da Cultura;
(6). Del Postigo, Prof. Doutor Vásquez de Acuña Marquês Garcia, “O Corvino Carlos G. Nascimento – co-arquitecto das letras chilenas” (2004), pp. 144 e 145, edição da Direcção Regional da Cultura.