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29
abril

Reflexões Crónicas – Notas Franciscanas

Escrito por  Tiago Silva
Publicado em Tiago Silva

No Faial, segundo consta das crónicas, terão sido franciscanos os primeiros religiosos a aportar à ilha e a fazer o acompanhamento espiritual dos primeiros povoadores. Certo é que nas primeiras décadas de Quinhentos se fundava na vila de Orta o Convento de Nossa Senhora do Rosário, com uma igreja da mesma designação, que ficaria, até hoje, conhecida como Igreja de São Francisco. Renovaram-se os edifícios com o tempo, mas a essência manteve-se, e durante três séculos este convento foi a principal casa franciscana da ilha. Mas não foi a única: existiu também o Convento dos Capuchos, de que o actual Colégio de Santo António, no mesmo local, é um herdeiro indirecto; o Convento de São João, de clarissas (da Ordem Segunda Franciscana), onde hoje está o Jardim Florêncio Terra; e o Convento de Nossa Senhora da Glória, o outro convento de freiras de clausu-ra, pertencente à Ordem das Concepcionistas de Santa Beatriz da Silva, ordem que, não sendo franciscana, aí a sua matriz.
A espiritualidade franciscana estava desta forma muito presente na vivência das populações, que participavam nas celebrações nas suas igrejas e nas confrarias e irman-dades que nelas se foram erguendo. Na igreja “de São Francisco” a mais importante era a Ordem Terceira, ainda hoje activa. Ao longo dos séculos muitos faialenses fizeram-se sepultar acompanhados da “comunidade” conventual franciscana, pedindo também que o seu corpo fosse envolto num hábito da mesma ordem.
Sobre os frades e o seu quotidiano sabe-se hoje pouco. A maioria da documenta-ção conventual faialense perdeu-se mas, no caso do Convento de São Francisco, a pouca que nos chegou é rica e permite-nos vislumbrar um pouco sobre as suas vivências.
O convento era bastante extenso, não só na parte edificada como na cerca, que se estendia mais ao menos até à actual Rua Marcelino Lima, existindo uma vasta horta on-de eram extraídos muitos dos géneros da sua alimentação. Era provável que também tivessem galinhas, como acontecia no Convento da Glória. A comunidade, como então se dizia, tinha normalmente três ou quatro dezenas de membros, entre padres, frades e estudantes residentes (alguns deles a preparar a sua entrada na Ordem). Cada um tinha a sua cela, todas elas apenas com uma cama (“barra”) e uma cadeira, com excepção da do guardião, mais ampla, onde, entre outras coisas, se guardava o arquivo. Os frades anda-vam descalços, tendo direito a “calçadura” apenas quando iam em peditórios em redor da ilha ou ao Pico. Para além da assistência espiritual prestavam também serviço na edu-cação, em determinado período a par dos jesuítas, tendo para isso a sua “livraria”, o que hoje se designaria como biblioteca. Seria comum ver figuras de hábito castanho a passea-rem-se pelas ruas poeirentas da vila.
Na sua igreja, tal como nas outras nove que existiam na Horta de então, as famí-lias mais abastadas financiavam a construção de altares e capelas que depois tomavam como padroado familiar que ia passando de geração em geração e perpetuando a memó-ria da linhagem no espaço. Essa opulência de talha dourada, telas e azulejos, que ainda hoje podemos ver, contrastava com o estilo austero da vida dos frades e dos seus espa-ços. Não obstante, o convento estava bem apetrechado pois, como manda a Regra, não haver luxo não é sinónimo de privação. Por isso, apesar da simplicidade aparente, nada lhes faltaria, como verificamos pela alimentação, bastante rica, incluindo um leque de especiarias que iam comprar directamente às naus da Índia, quando passavam pela nossa baía. E na festa do padroeiro, a mais importante, não poupavam na ementa, que incluía arroz doce (pelo menos desde 1676) e uns “pastéis” cuja receita se perdeu.
De todo esse mundo franciscano sobreviveu apenas a igreja, que não é um mo-numento morto mas sim um documento vivo, testemunha de uma época, se o soubermos ler e interpretar. Será que saberemos?

Em defesa da Língua Portuguesa, o autor deste texto não adopta o "Acordo Ortográfico" de 1990, devido a este ser inconsistente, incoerente e inconstitucional (para além de com-provadamente promover a iliteracia em publicações oficiais e privadas, na imprensa e na população em geral).

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