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27
maio

“A COROA DOS PESCADORES”

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Publicado em Artigos de opinião

A máxima devoção das gentes da Feteira, assim como a generalidade dos habitantes das freguesias rurais da ilha é para o Sagrado Paráclito, traduzida nas graciosas festas efetuadas nos sete domingos que se seguem à Páscoa quase sempre em cumprimento de promessas, não raro dos filhos desta ilha que regressam de estranhos países sobretudo da América e Brasil ou então que tem andado embarcados, visitando longínquas paragens na pesca da baleia.
Acresce porém a isto os festejos próprios do domingo, segunda-feira e terça-feira do Espirito Santo, bem como do domingo da Trindade, celebrados desde o povoamento da ilha, no ano de 1460.
No dia do Império dos Pescadores na Feteira, isto é festa muito solene, no decurso da qual é coroado um irmão daquela associação que a sorte designa antecedentemente, ou que levantou o pelouro seguindo-se depois, a luzidia procissão da Coroa para um tabernáculo armado ou edificado no caminho, aonde é grande a profusão de lumes, flores fitas e bandeiras e junto do qual assim como no trajeto até ali, os foliões, munidos duma bandeira vermelha, de pandeiros e tambor, cantam diversas toadas, próprias e usadas nessas ocasiões.
Depois a coroa na qual vistoso altar, há o lauto jantar à irmandade, em casa do Imperador, que embora seja pobre não se popa nem olha a despesas e em sendo três para as quatro horas da tarde em frente do altar e pelo caminho além estão armadas extensíssimas mesas, cobertas com alvas toalhas, sobre as quais vem os irmãos com açafates enfeitados de rosas e verduras, depositar o pão, com que vai ser esmolada a pobreza, depois de abençoado pelo respetivo pároco.
Uma banda de música, a cantoria dos foliões, e o entusiasmo por estas festas de centenas ou milhares de indivíduos que ali concorrem, anima tudo.
A despesa deste serviço, que é avultada não afronta assim duma maneira penosa os irmãos do Império, porquanto durante todo o ano, do monte, ou do produto da pesca de cada lancha, é aplicado uma soldada para este fim a qual o mestre vai lançando num mealheiro, para a qual concorrem as possantes lanchas empregadas na carga e descarga dos navios, na Baia da Horta, e tripuladas por marinheiros daquela freguesia.
Há ainda iguarias oferecidas por particulares e dádivas enviadas por filhos residentes na América e Brasil que nunca esqueceram a sua terra.
Depois de distribuídas as esmolas a Coroa é conduzida para a ¬moradia do Imperador do ano seguinte.
Ali no cascalho, bem escoradas estão varadas as embarcações, com ramagens, flores e bandeiras dando lhes uma pintura nova.
No leito da popa de cada una dessas embarcações está armado um pequeno mas vistoso altar cercado de círios, enfeitado com rendas e vistosas toalhas de seda ou de cassa esmeradamente bordada. Ali é solenemente colocada, por alguns momentos a Coroa, em cada uma, cercando a embarcação toda a campanha, descoberta, de pé, com o máximo respeito, enquanto o pároco abençoa aquele frágil esquife que tantas tormentas tem arrastado. Em redor estão ajoelhadas as mulheres, as crianças, toda a família do pescador. Inúmeros foguetes sobem ao ar.
Esta fé é a reprodução da parábola do Evangelho, o abençoado óbolo da pobreza, o mais dileto aos olhos de Deus.

In revista “Civilização Cristã” ano 1 nº11
16 de Novembro de 1890

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