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02
dezembro

Professores D. Maria Amélia Alves e José da Rosa Aica

Escrito por  Fernando Faria
Publicado em Fernando Faria

Colegas de curso na Escola Normal da Horta, estes professores muito fizeram pela promoção social, económica, cultural e religiosa da comunidade cedrense onde dedicadamente exerceram o seu magistério.
José Rodrigues Aica, nasceu a 14 de Janeiro de 1903, no lugar do Cascalho, freguesia dos Cedros, filho de José Furtado de Mendonça e de Emerenciana Laura de Escobar. Sua mãe faleceu quando ele tinha apenas três meses de idade, pelo que ficou ao cuidado das tias Aicas, vivendo com elas até ao dia do seu casamento.
No dia 29 de Julho de 1921 foi um dos 21 alunos que concluiu o curso do magistério na Escola Primária Superior da Horta (ex-Escola Normal) com a elevada classificação de 19 valores. Foi, sucessivamente e por curtos períodos, professor em São Roque do Pico e no Capelo, tendo sido nomeado em finais de 1926 para a escola do Cascalho, na sua freguesia natal. Nela se manteria durante 30 anos, até à aposentação em 1967. A par do exercício da sua profissão, o professor José Aica revelou-se “um líder exemplar, quer na presidência da Junta de Freguesia ou como Juiz de Paz”, distinguindo-se na dinamização de importantes actividades que muito beneficiaram o povo cedrense.
Uma delas, foi o abastecimento de água à freguesia, tendo a inauguração – ocorrida no domingo, 18 de Outubro de 1936 - contado com a presença do governador Dr. José Rodrigues de Matos (que havia tomado posse do cargo dois dias antes), demais autoridades, convidados, jornais e o “povo beneficiado”, cuja “presença diz bem do seu esforço, do seu trabalho e do seu desejo de progresso”. Na opinião do jornal O Telégrafo – que era então ferrenho opositor do Dr. Neves, médico, político e cedrense ilustre – “a gente dos Cedros que é dum incontestável bairrismo, soube elevar-se e engrandecer-se conseguindo, quase sem incitamentos, um útil melhoramento para a sua freguesia”. A Comissão Promotora desta obra, “constituída pelos srs. José da Rosa Aica, Manuel Silveira Meirinho e [José Garcia de] Lacerda também é digna de salientar-se pela forma como soube pugnar pelo conseguimento do melhoramento agora concluído” . Por sua vez, o Correio da Horta dá ainda maior realce àquele importante acontecimento, que considera uma grande festa, relevando as presenças das autoridades e de muito povo, da filarmónica Lira Campesina sob a regência do maestro Symaria, que abrilhantou o corte da fita do “marco fontenário da Canada do Abreu, no Cascalho”, inserindo, na edição seguinte os discursos do presidente da Câmara Municipal, (Dr. António Terra), do Dr. Manuel Francisco Neves, dos Professores José da Rosa Aica e João Pereira Dutra, Dr. Raposo de Oliveira e, por fim, do governador civil.
Na sua breve alocução, o professor Rosa Aica, diria que, “estando à frente da Junta de Freguesia, ficaria mal com a sua consciência se não viesse ali, em nome do povo, agradecer a introdução de tão notável melhoramento”. E, acentuou, que embora fosse “certo que os habitantes da localidade muito auxiliaram na efectivação desse melhoramento”, a verdade é que “ se não fosse o concurso da Câmara Municipal nada se teria conseguido”. Esta nova canalização de água no Cascalho custou 61 mil escudos, tendo o povo da freguesia comparticipado com mais de metade das despesas (15 mil escudos em numerário, igual quantia em trabalho voluntário e na cedência pela Junta de Freguesia das suas faxinas). Esta obra “constituiu não só a melhoria da instalação existente mas também no prolongamento a diferentes pontos da localidade com a instalação de mais cinco chafarizes”, cuja água iria “alimentar as suas casas, os seus gados e as suas fábricas” .
Mais ainda do que os esforços desenvolvidos pelo professor Rosa Aica na presidência da Junta de Freguesia para a instalação da rede de abastecimento de águas, o povo dos Cedros recorda-o sobretudo pelo papel desempenhado na constituição da Cooperativa Agrícola de Lacticínios. Ele, foi, na verdade, “o cérebro de todo o processo de renovação daquela indústria” na freguesia e, por extensão, em toda a ilha do Faial. A escritura da constituição desta Cooperativa tem a data de 22 de Maio de 1942 classificava-a – assinale-se que teve como antecessoras a União dos Lavradores (27- 7-1920) e a Fábrica de Lacticínios Faial Lda. (21-2-1935) – como sociedade anónima de responsabilidade limitada, com sede em Cascalho, Cedros e, de entre as várias finalidades nela consignadas, destacam-se: “aproveitamento e transformação económica do leite produzido pelas vacas pertencentes a associados (…) e, especialmente, a venda colectiva de manteiga e queijo”, podendo também “vender o leite em natureza”, além de outras intervenções relativas à exploração leiteira com material e conhecimentos que facilitem o trabalho, reduzam o preço do custo e aumentem a produção” , visando, em suma, que os seus membros, sendo donos e usuários, pudessem ter controlo sobre a comercialização e industrialização dos seus produtos, conseguindo melhores preços no mercado e libertando-se do poder dos intermediários.
Pelos Estatutos da Cooperativa, que estão anexos à escritura constitutiva, constatamos que foram nomeados para a gerência até 31 de Dezembro de 1943 os membros da Direcção, do Conselho Fiscal e da Assembleia Geral, cujos presidentes eram, respectivamente, João Silveira Pires, Flamínio Pereira de Faria e José da Rosa Aica. Este assumiria, no ano seguinte a presidência da Direcção continuando a ser, posteriormente, o verdadeiro líder daquela instituição que é, ainda hoje, essencial à economia faialense. Em tributo dessa meritória acção, existe na sua nova e moderna fábrica esta placa em “Homenagem aos fundadores da CALF personificada no seu impulsionador Prof. José da Rosa Aica/ 1943-2008”.
Além da sua profissão, que exerceu durante várias décadas na Escola do Cascalho – mais tarde denominada, em sua memória, “Escola Básica e Jardim de Infância Professor José da Rosa Aica” – e dos serviços prestados em organismos da freguesia, ele, que era “um ávido amador de línguas” dominando com “certa facilidade inglês, francês, alemão e italiano”, deu lições de inglês e, em conjunto com sua esposa a professora D. Maria Alves, prepararam, nos anos 50 e 60, muitos adultos para obterem o diploma da 4.ª classe a fim de emigrarem para o Canadá e Estados Unidos .
A professora D. Maria Amélia Alves nasceu na freguesia da Feteira a 17 de Fevereiro de 1903, filha de Joaquim Alves da Silva e de D. Rosa Amélia de Oliveira. Concluiu em 1 de Agosto de 1921 o curso na Escola Primária Superior da Horta com a classificação de 17 valores, tendo iniciado o magistério em escolas da ilha das Flores até ser colocada nos Cedros, freguesia onde, após o seu casamento católico em 16 de Outubro de 1937 na paroquial da Praia do Norte com o seu colega de curso e de profissão José da Rosa Aica, adoptou como sua, ali exercendo, “saliente intervenção através da Acção Católica e da Conferência Vicentina” . Professora abnegada e competente, assim a considerou o Chefe de Estado que a distinguiu em 1966 com as Insígnias da Ordem de Instrução Pública.
Quando, em 1967, os professores D. Maria Alves e José da Rosa Aica findaram o seu magistério, a freguesia dos Cedros prestou-lhes expressiva manifestação de colectiva simpatia e admiração. Nessa homenagem de gratidão, que decorreu a 20 de Agosto no Centro Paroquial, “numerosa multidão de toda a freguesia” testemunhou “em público e em comunidade o seu muito obrigado pelo esforço de promoção social, económica e cultural que os homenageados prestaram durante três décadas” , à população cedrense.
Tiveram dois filhos: a médica Drª Maria Alves da Rosa Aica Figueiredo de Bairos, nascida em 1939 e o Dr. José Alves da Rosa Aica, formado em Germânicas e Conselheiro de Orientação Pedagógica e Profissional nos Estados Unidos.
O professor José da Rosa Aica – que tem o seu nome também perpetuado numa rua da freguesia dos Cedros – faleceu em Coimbra a 14 de Junho de 1991, tal como sua esposa, cujo óbito ocorreu em 8 de Março de 1994.

1 O Telégrafo, 20 Outubro 1936
2 Correio da Horta, 19 e 21 Outubro 1936
3 Livros 21 (fls. 90-b a 100) e 22 (fls.1 a 10-v) do notário J.S. Ribeiro Peixinho
4 Vd. Eduardo Lacerda, Crónicas Cedrenses, p.133
5 Correio da Horta 30 Setembro 1967
6 O Telégrafo, 5 Outubro 1967

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