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06
janeiro

VEM O FUTURO AÍ!

Escrito por  Jorge Costa Pereira
Publicado em Costa Pereira

Todos temos consciência, mais ou menos acesa, de que vivemos tempos de grandes mudanças. Mudanças na forma do viver quotidiano das pessoas. Mudanças nas mentalidades. Mudanças no modo como se encara a vida e o que queremos dela. Mudanças sobre a religiosidade e as suas práticas. Mudanças nos hábitos culturais e comunitários. Mudanças na forma de comunicação entre as pessoas.
Basta um pequeno exercício de recuo no tempo e facilmente detetamos tantas coisas que, entretanto, nas nossas vidas e hábitos individuais e coletivos se alteraram, alguns mesmo profundamente.
Essas mudanças, rápidas, aceleradas como acelerado se tornou o nosso tempo presente, tornaram a nossa vida melhor? Ou pior?
Seguramente diferente. Mas só o tempo permitirá o juízo completo.
Atravessamos também tempos de excessos. A frugalidade de vivermos com o mínimo que nos dava conforto e felicidade deu lugar ao prazer assumido que, conscientemente ou não, assumimos em consumir para além do que necessitamos, condicionados por uma sociedade que endeusou o consumo. Compramos motivados por tantos estímulos (as promoções, as modas, a publicidade) e deitamos cada vez mais fora e com uma rapidez inusitada!
E o excesso não é só no consumo. É também na comunicação. Na comunicação entre as pessoas, prisioneiras da facilidade do toque móvel e sempre disponível. Mas também na comunicação profissional, veiculada pelos órgãos de comunicação social.
Nesta época da nossa vida coletiva multiplicam-se as mensagens de Natal e Ano Novo. Todos os que detêm algum cargo, mais ou menos público, se acham no direito e ou no dever de se dirigir aos seus concidadãos para transmitir a sua mensagem. E entregam cada vez mais essa tarefa a profissionais da comunicação que introduzem nesses momentos um artificialismo fabricado que retira a espontaneidade e a sinceridade que poderiam ter.
Para já não falar da, às vezes, confrangedora falta de conteúdo e de princípios naquilo que nos transmitem, misturando as dimensões religiosa e profana num sincretismo oco e vazio, preocupado apenas com o “soundbite” e com o chamado “politicamente correto”.
Este tempo ideologicamente vazio, que também é o nosso, bem procura palavras para envolver uma realidade que o ultrapassa e o engrandece, mas que, no seu orgulho racionalista e materialista, recusa assumir na sua plenitude radical.
A simplicidade complexa deste tempo que acabamos de viver foi assim brilhantemente traduzida, em 1950, por Miguel Torga, no seu Cântico do Homem:

Junquem de flores o chão do velho mundo:
Vem o futuro aí!
Desejado por todos os poetas
E profetas
Da vida,
Deixou a sua ermida
E meteu-se a caminho.
Ninguém o viu ainda, mas é belo.
É o futuro.

Ponham pois rosmaninho
Em cada rua,
E em cada porta,
Em cada muro
E tenham confiança nos milagres
Desse Messias que renova o tempo.
O passado passou.
O presente agoniza.
Cubram de flores a única verdade
Que se eterniza!

Feliz 2017!


02.01.2017

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