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12
maio

Da monotonia dos domingos

Escrito por  Victor Rui Dores
Publicado em Victor Rui Dores

Naquele tempo os domingos em Lisboa eram enormes, parados e suspensos.
Nos finais dos anos 70 do século passado eu era estudante da Faculdade de Letras de Lisboa, sensibilizado e saudoso da sua ilha. Sobrevivia,na capital, com uma magríssima bolsa. Receava o domingo, pois era o dia em que as cantinas universitárias estavam fechadas e era precisofazer contas à vida…
Aos domingos o ar ficava mais limpo, o sol mais brilhante e o céu mais azul… Por isso eu deixava o meu quarto-prisão da Residência Universitária do Lumiar e, vagaroso, ia passear-me pela Baixa onde ninguém me olhava e eu olhava para todos…
Lá ia eu, endomingado e domingueiro, mirando as montras, palmilhando a Rua Augusta,a Rua do Ouro, a Rua da Prata, o Chiado…Entrava-me pelas narinas o cheiro da boa comidinha… Era então que a minha pituitária (sensível) dava cambalhotas… Contava os tostões e tinha que decidir entre comer um bitoque no “Magriço”, deliciar-me com umduchesse na Pastelaria Suiça, ou ir ao “Quarteto” ver um bom filme. Quase sempre optava pelo cinema – que tornava ilusoriamente plena a minha (arrastada) vida sem história, sem glória e sem mérito.
Recordo aqueles domingos monótonos e chatos… Tão chatos como a chatice antiga de ir ao domingo à missa… Apoderava-se então de mim um imenso tédio e uma estagnação bafienta de bocejo e aborrecimento… Lisboa ficava sonolenta em fachadas e ruas desertas. Deambulava junto ao Tejo, mas estar à beira-rio, não era o mesmo do que estar à beira-mar… A cidade abria-se-me como fruto maduro, mas faltava-me precisamente a energia do mar das ilhas e o cheiro a maresia… Faltavam-me as rochas, as escarpas, as falésias, os gritos das ganhoas, os salgueiros, as emanações vulcânicas…
Sentava-me, enfastiado e entorpecido, numa esplanada do Rossio a ver passar gente. Perdia a noção do tempo (o domingo não era dia de nada) e assaltavam-me molezas de espírito, desejos inadiáveis, arrebatamentos descontentes…
Sorumbático, eu acabava os domingosem doce letargia, trancado no meu quaro-prisão, amolecido, estudando, bocejando e escrevendo cartas para familiares e amigos para atenuar as agruras do meu “exílio”, nesse tempo em que ainda se escreviam cartas….
Ah, como eram infindáveis e insípidos os domingos em Lisboa!

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