Imprimir esta página
09
junho

Regenerar a Autonomia

Escrito por  Jorge Costa Pereira
Publicado em Costa Pereira

1. Foi na tarde do dia 4 de Setembro de 1976 que teve início formal e institucional a atual aventura da Autonomia Açoriana. Nesse dia, na Sociedade Amor da Pátria, nesta cidade da Horta, realizou-se a sessão solene de instalação da então designada Assembleia Regional dos Açores, o centro político da democracia açoriana.

Na presença dos mais altos responsáveis da nação portuguesa, os primeiros deputados açorianos, representando as nove ilhas, percorrendo um caminho nunca antes calcorreado, deram início, nesse dia, em conjunto com o Governo regional que resultou das eleições e da própria Assembleia, à aventura de podermos, em muitas e importantes áreas, decidir por nós próprios as medidas que queremos para o futuro da nossa terra e das nossas gentes, sem dependermos do tantas vezes pernicioso centralismo de Lisboa.
Em 2ªfeira do Espírito Santo, o dia que os Açorianos escolheram para ser o Dia dos Açores, pela segunda vez um Presidente da República associou-se à data e marcou presença na Sessão Solene realizada na Assembleia Legislativa dos Açores, num gesto de evidente alcance e significado político.
Nos discursos oficiais, exaltou-se a Autonomia e falou-se em aprofundá-la.
Mas se exaltar a nossa realização política máxima neste dia me parece bem, embora não a tenha visto ser acompanhada de uma necessária reflexão autocrítica desassombrada, pior é defender o aprofundamento de algo que ainda não está realizado plenamente e que, antes pelo contrário, vem conhecendo retrocessos indesmentíveis e preocupantes.
2. A Autonomia Regional, assumiu-se como um projecto inovador, pensando os Açores como uma Região única, composta de nove ilhas e assente no direito ao desenvolvimento integral e harmonioso de todas elas. Por isso, na sua génese a Autonomia Regional despertou nos Açorianos tão nobres expectativas e foi tão bem recebida. Simultaneamente, ela permitiu-nos dar um enorme salto no nosso desenvolvimento e marcar uma significativa ruptura com um passado de abandono, esquecimento e submissão ao centralismo de Lisboa.
Construir a unidade político-administrativa dos Açores à volta de uma solidariedade partilhada no crescimento e nas dificuldades é um desafio permanente. E a nossa Autonomia só terá sentido enquanto nela todas as ilhas se sentirem tratadas com justiça, equidade e equilíbrio. Por isso, governar os Açores deve ser olhar para todas as ilhas e definir estratégias de desenvolvimento para além de interesses eleitoralistas e de visões concentracionistas, respeitando essa realidade única de que a nossa riqueza reside também na nossa diversidade, que cada ilha é um mundo de igual dignidade e que a harmonia se faz de investimento repartido. Por isso, é preciso praticar a saudável experiência da solidariedade regional.
3. Quarenta anos depois, impõe-se reconhecer que crescemos muito nas nove e em cada uma das nossas ilhas. Mudámos a vida dos nossos conterrâneos e trouxemos inegáveis melhorias à nossa vida colectiva. Inversamente, persistem atrasos atávicos, quase estruturais, que continuamos sem conseguir reverter, quer na educação, quer na saúde, quer nalguns tipos de criminalidade, quer nos indicadores de pobreza que nos envergonham a nível nacional e internacional.
4. Mas sabemos todos que não é em quatro décadas que se superam os atrasos de séculos; sabemos todos que não é em quatro décadas que se impõe uma visão dos Açores como Região, depois de termos conhecido séculos de divisão administrativa que cultivava a concorrência e a separação entre ilhas. Mas, quando na passada semana, o atual Presidente da Assembleia Municipal da Horta, Fernando Menezes, disse, cheio de razão, que “Já vi os Açores mais unidos”, não estava a expressar um estado de alma, mas a constatar uma realidade objetiva e preocupante.
5. A verdade dos factos e dos números impõe que se reconheça que, nunca como nos últimos anos, a prática governativa aprofundou tanto as divergências de crescimento e de desenvolvimento entre as várias ilhas: os indicadores económicos são claros e sete ilhas dos Açores vivem em estagnação ou mesmo em recessão económica e demográfica claras!
A este facto indesmentível, junta-se a realidade do divisionismo, da falta de solidariedade, do pensar só em si, que alimenta não só o subconsciente como a prática atual de muitos líderes locais e regionais. E essa preocupante falta de dimensão solidária regional contagiou já muitos cidadãos comuns que se expressam, por exemplo, nas redes sociais, onde é possível divisar opiniões do mais abjeto bairrismo e divisionismo.
6. Há quase sete anos, escrevi, neste jornal: “Quando, a coberto de outros interesses e de muitas justificações, se aniquilar do modelo da Autonomia dos Açores o desenvolvimento integral e harmonioso de todas as ilhas, teremos regredido muitas décadas, iremos substituir um centralismo por outro e aos Açores voltarão, certamente, os fantasmas dos tempos antigos do divisionismo e das ilhas de costas voltadas umas para as outras.”. Nunca imaginei que pudéssemos estar hoje tão perigosamente perto desse dia!
Espero que quem nos representa, no Governo e no Parlamento, mais do que se gastar em minudências teóricas que nada adiantam à vida dos Açorianos, mais do querer aprofundar algo que ainda nem está perto de se esgotar, seja, antes disso, capaz de olhar de frente para a realidade atual das nove ilhas, para os sinais preocupantes de divisionismo e de falta de solidariedade, para as ameaças de centralismo e de hegemonia, para as ilhas concretas que perdem gente, emprego e cuja economia definha a cada dia.
Esta realidade obriga-nos a todos a deixar de lado a ideologia e a autossatisfação acrítica. Querer aprofundar a Autonomia, com discutíveis soluções de organização política, sabendo dos padecimentos que, sem estar esgotada, ela enfrenta hoje, é uma fuga.
Por isso, apostemos, primeiro, em regenerar a nossa atual Autonomia e em cumprir verdadeiramente os seus desígnios essenciais e primordiais. É disso que urgentemente precisamos.

05.06.2017

Lido 415 vezes
Classifique este item
(0 votos)
Login para post comentários