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30
junho

DIZ-ME TU: Papaguear ou Compreender?

Escrito por  Maria do Céu Brito
Publicado em Maria do Céu Brito

“Quando estudas pelos esquemas do teu professor, só aprendes as suas limitações”.

Esta afirmação foi proferida por Francisco Ávila, no âmbito da ação de formação “Diz-me Tu”, que decorreu no âmbito dos XXIV Encontros Filosóficos. Registei-a, na altura, porque me confrontou com crenças, opções e metodologias de ensino – nem sempre eficazes- e o esforço permanente de sistematização das matérias, com o objetivo de facilitar as aprendizagens aos meus alunos.
A atitude dos mais jovens face ao conhecimento, o imediatismo no acesso à informação decorrente da revolução tecnológica, mais especificamente da internet, e o acesso universal ao conhecimento; a dificuldade da escola em se adaptar à mudança; as sucessivas alterações ao nível dos currícula, o aumento da carga letiva, o desencanto pelo saber, as desigualdades sociais que excluem os mais frágeis, são alguns dos problemas com que nos defrontamos. Mas o problema maior é a incapacidade da escola em formar sujeitos autónomos, com um pensamento crítico e capazes de pensar. Esta afirmação é justificada por observações empíricas, diariamente. Há jovens que terminam o 12º ano de escolaridade, com classificações médias, que não sabem interpretar um texto e não sabem pensar. Mais: não sabem inferir o óbvio. Mas sabem reproduzir na íntegra um emaranhado complexo de teorias e fórmulas que memorizam sem compreender. Mas há uma questão que urge colocar: um papagaio sabe? Um papagaio sabe que sabe? A resposta é óbvia: um papagaio – por muito extraordinária que seja a memória do bicho- não sabe nem sabe que sabe. Porque o que se papagueia não constitui conhecimento, pois não permite estabelecer relações com outros saberes, criar nexos causais, inferir consequências, projetar possibilidades. Compreender, tem origem latina, no verbo prehendere, “agarrar, prender”, “unir”. Ora, os conhecimentos fragmentados e dispersos que os jovens apanham nas diversas disciplinas como pedaços soltos de um todo, se não forem unidos através de relações e da experiência da significação e do sentido, não produzem compreensão e, consequentemente, não se traduzem em conhecimento.
Há que colocar outra questão, aparentemente retórica: afinal o que é que queremos? Uma escola de alunos amorfos ou alunos que amam o conhecimento? Uma escola de “papagaios”, reprodutores acríticos dos esquemas do professor ou alunos que sabem verdadeiramente o que querem, que sabem que sabem, e que estão disponíveis para aventura do pensar e do conhecimento? Jovens com um pensamento autónomo têm consciência de si e dos problemas do mundo, aprendem a inferir com clareza e a encontrar soluções criativas para os seus próprios problemas. Afinal, compreender é um processo que todos os seres racionais, com consciência de si, desenvolvem e a partir do qual interpretam a realidade, agem e dão sentido às escolhas e à sua própria vida.

"Pede-se a ão e da uniformização, é pouco provável que a criança possa desenhar livremente as linhas de uma flor, do futuro e da sua própria vida.

 

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