À palavra biodiversidade associamos quase imediatamente a conservação da natureza, as áreas protegidas ou o ordenamento do território. No entanto a biodiversidade pode também estar associada à agricultura. Cada uma das espécies utilizadas para fins agrícolas acresce na contabilização de espécies inerente à biodiversidade. O problema começa quando poucas espécies agrícolas substituem as espécies naturais. No entanto, a agricultura pode ser um fator positivo, desde que não implique a saída das espécies naturais do ecossistema.
A biodiversidade agrícola está diretamente relacionada com os usos do solo dominantes. Basta ter em conta que em 2007, quando foi realizada a última carta de ocupação dos usos do solo dos Açores, mais de 42% dos solos dos Açores eram ocupados por pastagens, seguindo-se em termos de percentagem de ocupação os espaços florestais com cerca de 22% da área terrestre. No entanto, estas percentagens variam de ilha para ilha, no Faial, que é a ilha em que a percentagem de pastagens é maior, estas ocupam mais de 50% da superfície da ilha, em São Miguel ocupam cerca de 42% e no Corvo apenas 32%.
Quando não há uma espécie agrícola dominante, ou seja, quando são usadas espécies que não ocupam a maioria da superfície agrícola, classifica-se o uso do solo como “espaço agrícola diversificado”. Tínhamos então em 2007 e em média 14% da componente terrestre das ilhas dos Açores ocupada com espaços agrícolas diversificados. Se considerarmos que nesta classe está incluída a produção de milho para silagem, que uma vez mais está associada à atividade pecuária, verifica-se que a atividade pecuária (a soma da pastagem com a produção de forragens, como o milho) tinha, e tem ainda, uma grande expressão na paisagem e na economia do arquipélago. Isto torna-se delicado em termos socioeconómicos tendo em conta que as políticas europeias já não a promovem como antes.
Há que encontrar alternativas à hegemonia nas pastagens na paisagem dos Açores, e essas alternativas podem passar pela investigação de ponta, como a que pode ser realizada no Instituto de Investigação de Tecnologias Agrárias e do Ambiente da Universidade dos Açores ou pelos serviços de Desenvolvimento Rural do Governo dos Açores. No entanto, uma outra possibilidade é refletir sobre as culturas agrícolas que já existiram nestas ilhas. A leitura das “Saudades da Terra” do cronista Gaspar Frutuoso permite vislumbrar o que seria a paisagem dos Açores na década de 1580 no que diz respeito à vegetação natural e também à biodiversidade agrícola. Em São Miguel, por exemplo, eram cultivados para exportação o trigo e o pastel e existiam ainda tentativas de cultivo da cana-de-açúcar, mas esta última já se encontrava em decadência uma vez que estes primeiros açorianos já tinham verificado que as condições edafo-climáticas não eram as melhores para a cultura. Para além das culturas de exportação cultivava-se, com sucesso, a cevada, o centeio, a vinha e o linho. Gaspar Frutuoso referia o cultivo de cebolas, batatas, abóboras, favas, ervilhas, chícharos, lentilhas, tremoços e melões. Nos pomares produziam-se laranjas, cidras, limas, limões, pêssegos, damascos, marmelos, peras, maçãs, romãs e figos. Existiam ainda castanheiros, nogueiras, ginjeiras e cerejeiras.
No Faial já no século XVI se verificava uma certa dependência agrícola em relação ao Pico. Gaspar Frutuoso refere que na ilha do Faial existem poucos pomares e vinha porque não são plantados, destacando, quanto à fruta, as laranjas e os melões e quanto às restantes culturas a produção de centeio, cevada e abóboras. O trigo e o pastel eram também aqui as culturas de exportação. No Pico, Gaspar Frutuoso destaca a produção de vinho, considerado já nessa altura o melhor do arquipélago, e refere a pouca presença de trigo e pastel, uma vez que as condições de solo não eram as mais favoráveis para essas culturas. As gentes do Pico tinham grandes dificuldades na sua alimentação e o cronista refere que esta chegava a ser baseada em abóboras, nabos, funcho e raízes de plantas. Na ilha Terceira, Gaspar Frutuoso salienta já nesses idos tempos a presença de milho e refere, para além das culturas já apontadas para São Miguel, a plantação de amoreiras para a produção de seda.
A produção de mel era atribuída a quase todas as ilhas do arquipélago e a extração de urzela para a produção de pigmentos era importante em Santa Maria, Graciosa, Flores e Corvo. Refere-se ainda que as batatas do Corvo eram consideradas as melhores de todas as ilhas.
Esta pequena reflexão pretende abrir os horizontes para as diversas potencialidades da agricultura açoriana baseada na experiência dos nossos antepassados. É claro que a experiência atual e os mercados globais não permitem que os produtos de exportação sejam exatamente replicados. No entanto, há que aumentar a diversidade agrícola com o objetivo de abastecer os mercados locais de cada ilha. A biodiversidade é quase sempre bem-vinda na natureza uma vez que aumenta a resiliência dos sistemas ecológicos. Para bem da paisagem açoriana, biodiversidade agrícola, precisa-se!
Nota: a partir da leitura de “Saudades da Terra” (década de 1580) de Gaspar Frutuoso, Livros III, IV e VI (reedição de Instituto Cultural, Ponta Delgada, 1971, 1977-1981,1963, respetivamente).