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04
agosto

O Ecomuseu do Corvo

Escrito por  Cláudia Ávila Gomes
Publicado em Cláudia Ávila Gomes
A paisagem é constituída por uma componente natural e outra cultural. Da sua definição - da maneira mais simples pode ser definida como o suporte ecológico das funções humanas - decorre a presença do homem e das suas atividades, sejam elas a urbanização e a sociabilidade, a agricultura, o turismo ou a conservação da natureza. 
Quando se intervém na paisagem pretende-se habitualmente uma perspetiva equilibrada entre a ecologia e a sustentabilidade, entre a tradição e a contemporaneidade. O objetivo de uma intervenção na paisagem não é retornar a um estado primordial romântico, em termos ecológicos ou culturais, mas sim vivenciar a relação com a paisagem no tempo presente, aprendendo com a instrução da natureza e da sociedade o modo mais acertado de intervir. No entanto, o próprio conceito de equilíbrio tem-se modificado bastante num mundo global e de crescente complexidade, abandonando-se uma postura estática para se procurar uma postura aberta e um equilíbrio dinâmico.
A preservação da paisagem mas também das sociedades humanas numa época em que grandes desafios se fazem sentir depende da observação atenta dos padrões naturais e culturais eficazes, e da adaptação de cada intervenção a cada lugar, a cada paisagem. O paradigma científico pós-modernista admite a existência de limites para o conhecimento científico, dá crédito à sabedoria humana e ao senso comum, reconhece a importância de uma visão contextual da realidade e assume a necessidade de saber lidar com as incertezas.
É esta postura de equilíbrio dinâmico que tem em conta a sabedoria tradicional e o senso comum, ainda que alicerçada no conhecimento científico de base, que se procura quando se pretende intervir em sistemas altamente complexos, porque muito específicos, como é o caso do centro histórico da Vila do Corvo. O Ecomuseu do Corvo pretende contribuir para a preservação do património arquitetónico e cultural deste centro histórico e simultaneamente preservar as memórias e os lugares simbólicos do núcleo urbano. A sua mais valia reside na proximidade dos técnicos com a população, que acorrem simultaneamente à proteção do património cultural material e imaterial. 
Assim, ao longo do tempo têm-se recuperado habitações, currais, fornos, eiras, cisternas e bebedouros. As canadas e canadinhas tornaram-se transitáveis e as vias estão em processo de repavimentação e iluminação. Tudo isto parte de um esforço conjunto das diversas entidades envolvidas, tendo sempre em conta a voz da população em questão. O património imaterial, a história da ilha e as histórias dos principais lugares da Vila são comunicados nas visitas guiadas que são realizadas diariamente para a interpretação do núcleo urbano. Este Ecomuseu é um bom esforço de preservação do património cultural porque adota a seriedade e o rigor necessários ao estudo do património e permite-se ser vivido diariamente pelas pessoas. 
É assim que uma Vila alcantilada numa arriba sobre o mar, crescendo ao longo de uma encosta exposta a Sul, em meandros labirínticos que permitiam a defesa em altura de ataques dos piratas, se vai adaptando aos tempos modernos e perspetivando o seu futuro, que deverá passar por um turismo de maior qualidade, com pessoas que fiquem na ilha e que possam aproveitar tudo aquilo que ela tem de melhor, seja em termos de visitas ao Caldeirão, trilhos pedestres, observação de aves, conhecimento do património cultural e banhos de mar na praia ou portos. Porque um Ecomu-seu só faz sentido se for vivido.
 
                                                    Arquiteta Paisagista
 
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