Imprimir esta página
18
agosto

A paisagem cultural da vinha do Pico

Escrito por  Cláudia Ávila Gomes
Publicado em Cláudia Ávila Gomes

No Pico há tesouros escondidos ao virar de cada rocha: canadas e currais, rilheiras e descansadouros, rola-pipas, ancoradouros e poços de maré testemunham, como elementos da arquitetura de produção tradicional que são, a construção de uma paisagem de vinha de proporções monumentais e com um labor inimaginável para a época. Já no século XVI o vinho do Pico era considerado o melhor do arquipélago, mas foi durante o seculo XVIII e XIX que a sua fama chegou aos mais recônditos lugares da Europa. Para isso contribuiu uma produção de grande qualidade e a capacidade de exportação dos proprietários das vinhas, que nessa altura se fazia por mar. O declínio da vinha em meados do século XIX devido a graves problemas fitossanitários conduziu ao abandono das mesmas sendo que só no século XXI esta produção foi retomada numa escala maior.
Então, e o que são estes elementos da arquitetura de produção tradicional? As canadas e currais são formadas por muros de pedra seca de basalto e conformam o intrincado reticulado que dá abrigo às vinhas. As rilheiras são marcas no lajido de basalto formadas à custa da passagem dos carros de bois, e os descansadouros são pequenos pilares em basalto que serviam, como o próprio nome indica, para descansar as costas quando se transportava os pesados cestos com uva. Os rola-pipas são rampas escavadas na rocha que serviam para rolar as pipas para o mar, de onde eram recolhidas por barcos para as levar para a Horta, e depois para as mais diversas paragens. Os ancoradouros são pequenos portos geralmente associados a uma casa solarenga, e os poços de maré serviam para o abastecimento das populações, junto ao mar e às vinhas. Todos estes elementos existem ainda hoje nas Áreas de Paisagem Protegida da Cultura da Vinha - Zonas Norte e Oeste, as quais fazem parte integrante da área classificada como Património Mundial pela Unesco.

É facilmente possível passar um dia de verão no Lajido de Santa Luzia e envolvente, percorrendo os trilhos pedestres que permitem encontrar os elementos atrás descritos, aproveitando as potencialidades balneares do local e visitando os importantes núcleos museológicos. Esta potencialidade turística ocorre também nos outros pequenos aglomerados urbanos da zona de vinha. E atualmente o visitante ficará também espantado com as vastas áreas de vinha recuperadas no âmbito dos mais recentes programas de incentivo a esta atividade promovidos pela administração regional. A recuperação da vinha e a qualidade do vinho do Pico têm crescido a olhos vistos nos últimos anos, o que é um fator claramente positivo para o desenvolvimento da ilha. No entanto, este atual boom de desenvolvimento agrícola não deve fazer esquecer as lições da história. A biodiversidade é importante e as zonas de monocultura agrícola devem ser intercaladas com outros tipos de vegetação. A diversidade acaba por ter vantagens para a própria vinha porque impede a propagação de pragas e doenças entre vinhas.
Assim, o ideal seria que as zonas de vinha fossem intercaladas com faixas de vegetação natural endémica, que poderiam servir também para delimitar as zonas de vinha de diferentes proprietários ou alvo de operações agrícolas diferenciadas. De facto, nas zonas costeiras também se encontram manchas de charneca macaronésica endémica e de matos costeiros com pau-branco (Picconia azorica) e cedro (Juniperus brevifolia),espécies prioritárias para a conservação da natureza que importa preservar, conciliando-as com a vinha.

Ao preservar a paisagem de um modo global – vinha e vegetação natural endémica – estão-se a criar condições para que esta evolua de modo sustentável e para que as gerações futuras possam, também elas, fazer as suas escolhas em termos do modelo de desenvolvimento que pretendem. Para além de tudo isto, não esqueçamos que as manchas de vegetação endémica acrescentam diversidade e interesse à paisagem, que pode e deve ser utilizada como um dos elementos que alicerça a atividade turística. 

Lido 322 vezes
Classifique este item
(0 votos)
Login para post comentários