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18
agosto

O colapso da União Europeia

Escrito por  Paulo Estevão
Publicado em Paulo Estevão

O projeto europeu está em declínio. A verdade é que a União Europeia constitui uma experiência singular na História da Europa. Roma foi um império pluricontinental – que agregou vastas zonas da Europa Ocidental, do Norte de África, da Ásia Menor e do Médio Oriente –que, mesmo no período de máxima extensão territorial na Europa, nunca chegou a integrar uma parte significativa dos Estados que integram a atual União Europeia (como a própria Alemanha, grande parte dos Estados do Leste Europeu e a Península Escandinava).
O Sacro Império Romano-Germânico integrou, pelo menos de forma nominal, vastas regiões da Europa Ocidental e Central. Mas a verdade é que, mesmo na sua máxima extensão, o Império não chegou sequer a alcançar 50% da enorme área da atual União Europeia (cerca de 4 324 7824 km²). Mesmo os grandes impérios continentais de Carlos V e de Napoleão, para além das óbvias diferenças em relação ao sistema político adotado, não lograram alcançar a dimensão da União Europeia. A França e a Inglaterra, por exemplo, não fizeram parte do primeiro e a Grã-Bretanha e as vastas regiões balcânicas do Império Otomano também lograram fugir ao domínio formal ou informal da França imperial.
A Alemanha da I Guerra Mundial colapsou nas trincheiras da Flandres. A única construção política europeia comparável à União Europeia – do ponto de vista meramente territorial – foi o III Reich de Hitler (no auge da sua expansão, entre 1940 e 1942). A ordem alemã impôs-se em toda a Europa, com exceção da Grã-Bretanha e do leste da União Soviética. Mesmo os países teoricamente neutrais, como a Suécia, a Espanha, a Suíça e Portugal, usufruíram, ao longo desse período, de uma independência muito condicionada. A hegemonia alemã do início da década de quarenta foi de muito curta duração, mas permanece na memória de todos os europeus.
No início do projeto europeu, a Alemanha era um país dividido, ainda parcialmente destruído, militarmente ocupado e politicamente tutelado. A Alemanha de então não representava um perigo óbvio para as nações europeias que iniciaram um processo voluntário de partilha de soberania, algo absolutamente sem precedentes na sangrenta História da Europa. A verdade é que o projeto europeu parecia uma boa ideia no contexto do pós-guerra.
As grandes potências europeias tradicionais – a Grã-Bretanha, a França e a Alemanha – saíram da Segunda Guerra Mundial economicamente arruinadas e militarmente superadas pelas duas grandes potências de flanco. O colapso dos impérios coloniais confirmou o regresso da Europa às suas velhas fronteiras continentais. A “ideia europeia” era evitar novas guerras europeias, potenciar o crescimento económico dos vários estados europeus e alcançar alguma independência perante as duas superpotências da época: os Estados Unidos e a União Soviética.
Tudo funcionou relativamente bem até ao final da Guerra Fria. Para os povos português, espanhol e grego (durante muito tempo submetidos a regimes ditatoriais) e para o conjunto de nações submetidas aos soviéticos, a Comunidade Económica Europeia constituía uma farol de progresso e de liberdade.
O fim da União Soviética, a reunificação alemã, a integração da Europa de Leste na União Europeia e a criação de uma moeda comum alteraram, por completo, o quadro evolutivo do projeto europeu. Os órgãos de Governo da União foram, progressivamente, destituídos de poder real. As políticas europeias passaram a ser desenhadas, quase de forma exclusiva, pela nova Santa Aliança constituída pela Alemanha, a França, a Grã-Bretanha e a Itália.
Com o passar do tempo, a Grã-Bretanha autoexcluiu-se do diretório europeu e, mais recentemente, optou mesmo por sair da União. A Itália afundou-se numa gravíssima crise política e económica e a França entrou numa espiral de declínio que parece interminável. Neste contexto, a Alemanha afirmou-se como a potência dominante da Europa.

E agora? Os irresponsáveis do costume acham que isto só se resolve com o aprofundamento da União Europeia. Ou seja, a ideia é aprofundar o carácter federal do projeto europeu. Pobre país! Que triste fado é ser governado por gente que ignora o passado, negligencia o presente e abdica do futuro. 

 

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