Já muito se falou e escreveu sobre a Semana do Mar 2017. Escusado será dizer que os alinhados aplaudiram, e os "desalinhados" apontaram às oportunidades de melhoria. De qualquer forma, e como não tive oportunidade de o fazer anteriormente, deixo aqui a perspetiva de 0,006% da população...
Embora baseado numa lógica eleitoralista, tivemos o cartaz mais forte das últimas edições. Aplaudo o facto de há dois anos a esta parte existir um rumo (noites com públicos alvo diferentes, do fado ao pop do momento e no fim-de-semana algo mais transversal) goste-se ou não, é um caminho. Houve uma consolidação do esforço ecológico, uma melhoria na oferta de instalações sanitárias, a abertura a propostas da autoria de organizações partidárias... Não se pode dizer que está tudo na mesma, mas também já se percebeu que não é para mexer muito.
A meu ver há, no entanto, muito que se pode fazer. A começar pela transparência. Ninguém, a não ser quem faz parte da máquina, pode quantificar o custo desta festa. Após uma aturada pesquisa nos orçamentos municipais, percebe-se que não existe uma rúbrica - Semana do Mar e apenas se conseguem identificar parcialmente alguns gastos. Ora, aqui reside para mim um dos principais problemas, uma vez que não se consegue aferir de ano para ano se a festa foi melhor porque se gastou mais ou se se conseguiu fazer melhor com o mesmo investimento. Neste particular subscrevo a lógica de comissão de festas, em que há um esforço por fazer mais com os mesmos recursos e se apresentam contas no fim.
Apreciei o facto de haver uma alternativa vegetariana. À conta disso permiti-me saborear umas belíssimas favas, inhames fritos em óleo vegetal e um queijo da serra que também não ficou atrás. Gostaria, no entanto, de saber se foram quantificados os pedidos desta opção, para, digamos, aferir o sucesso da inovação.
Depois, já assunto recorrente, a localização do palco. A minha principal preocupação, e felizmente pelo que li num artigo do diário local sei que somos pelo menos 0,012% da população, é com a (in)segurança, para a qual também contribui a área dos restaurantes. Não deixa de ser caricato, no particular do palco, que para uma utilidade de cerca de 2 horas por noite durante 10 dias, se obstrua durante 3 semanas a única via que, em caso de catástrofe, dificilmente ficaria impraticável.
Agora, o que podia ser diferente? Na minha óptica, a “feira gastronómica”, além de passar para outra localização, eventualmente onde nesta edição estiveram as tascas, privilegiaria a valorização de produtos locais. Através de convites a restaurantes que estivessem predispostos a isso e de parcerias com fornecedores/produtores locais, a própria Lotaçor, por forma a dar outras apresentações a produtos nossos. Também na disponibilização de opções vegetarianas, vegans, macrobióticas, etc, o caminho passa por trazer pessoas que enalteçam e trabalhem com convicção nesta diversificação alimentar que não é refém da proteína animal.
A zona de comidas de rua, para mim, passaria por uma relocalização que não se limitasse à duração da semana do mar. O jardim contíguo ao memorial dos combatentes seria por excelência uma zona que durante todo ano poderia albergar estas roulottes. Voltadas para o interior do parque e com a iluminação de arraial que já se utiliza durante a festa. Proporcionava um espaço iluminado, com uma vista soberba, estacionamento e WC’s nas imediações e usufruindo assim da cada vez mais cuidada oferta que está a surgir na nossa ilha.
Na vertente ecológica, e porque aquela solução de iluminação de arraial permite as mais variadas metamorfoses, apostaria numa reconversão gradual em lâmpadas LED, a começar pelas que ficariam a tempo inteiro no parque de comidas de rua.
Não menos importante seria a integração do festival náutico no arraial em terra. Julgo que neste particular há muito a fazer, desde a entrega de prémios durante a festa, a um cartaz à entrada da festa, ou no centro da festa, onde se vejam listados os vencedores das provas do dia e se indique o “menu” do dia seguinte. Esta entrada da festa, ou centro, deveria ser por excelência o local de venda de merchandising e ponto de informação de tudo o que este festival é, que é muito mais do que aquilo que se vê debaixo de tendas.As soluções aqui são inúmeras, a implementação deve ser feita de forma reflectida e se não for possível de forma imediata, que o seja gradualmente, mas com um rumo estabelecido. O desenvolvimento e implementação deve ser acompanhado ou entregue a quem propõe.
Há muita gente com ideias e boas ideias nesta ilha. Gente criativa e com capacidade. O caminho, esse, não é fazer concursos de ideias e depois, “eu”, faço corte e costura daquilo que me parece bem, desvirtuando o conceito e a filosofia que está subjacente a essas mesmas ideias.
Agora, é verdade que, como dizia o senhor vice-presidente da CMH num artigo de opinião neste semanário, 0,66% da população já se havia reunido e opinado acerca deste tema, separando-o por áreas e tendo produzido actas que fizeram chegar à edilidade. Pena é que não tenham servido de muito. De qualquer forma ele justificou dizendo que havia a CMH reunido inúmeras personalidades da nossa praça para, também por áreas, opinarem sobre o que fazer este ano. Suponho que uns representativos 0,33% da população, assim por alto... de qualquer forma o que esperar de alguém que tendo sido eleito por 27,7% da população acha que a opinião que vale é a dos 0,024% que forma o executivo, sobretudo sobre assuntos não sufragados...