EFEMÉRIDE HISTÓRICA
Com a presença do Comandante do Porto de Santa Cruz das Flores, em representação do Comandante Naval dos Açores e de outras individualidade florentinas, no passado dia 8 do corrente mês, o Farol das Lajes das Flores comemorou o seu primeiro centenário. Neste momento o Farol é chefiado por João Orlando Soares, descendente de famílias de faroleiros, que há largos anos mantém a chefia dos seus serviços.
A construção do Farol de Lajes das Flores, que estava prevista para a Ponta do Capitão, na então localidade da Fazenda, teve lugar na Ponta das Lajes, em meados da década de 1890, quase em simultâneo com a do Farol dos Capelinhos, do Faial, que, por ser de 1.ª Ordem, dispunha de dois pisos. O das Lajes das Flores era de 2.ª Ordem.
Foi edificado na sequência de um estudo feito pelo capitão-de-fragata, Xavier de Brito, nomeado para o efeito em 4 de Agosto de 1893, que, depois de ter percorrido localmente os terrenos da Fazenda e das Lajes, considerou que o melhor local para o seu bom funcionamento era na Ponta das Lajes onde ele viria a ser efectivamente edificado. Acho que escolheu o melhor local, até porque na ocasião já se previa a edificação de outro na ponta Norte da ilha, como veio a acontecer, na Ponta do Alvarnaz. Havia que servir, essencialmente, a importante linha da navegação que atravessa o Atlântico Norte, entre os continentes europeu e americano, que passa nas proximidades das Flores.
O citado capitão-de-fragata, em 1894, depois de ter “percorrido todos os pontos ao sul da ilha das Flores, desde a Ponta do Capitão até à rocha Alta” fundamentou a sua escolha referindo que “as razões que nos levaram a escolher este ponto de preferência a qualquer outro foram a situação avançada para o Sul-E. que lhe faz abranger um sector de 208º, a sua pouca altura acima do nível do mar e a proximidade em que se acha da Villa das Lages que fica apenas a 1 ½ kilómetro do sítio escolhido para a collocação do pharol e as boas condições geológicas do terreno que devem simplificar a construção”. Refere ainda que “O pharol da Ponta S: E. illumina não só o Sul da Ilha, o que é de grande vantagem para a grande navegação que vinda da America procura esta luz, mas tambem o canal entre a Ilha das Flores e a do Fayal”. E termina mencionando que “O ponto escolhido está situado na extremidade do Sul, no caminho de serventia de terras que parte da estrada n.º 21, atravessa a Ribeira Seca e acaba na Ponta das Lajes no campo pertencente a António Francisco Castello, separando para a esquerda os terrenos dos herdeiros de Francisco António Carolo e para a direita os herdeiros de Francisco Boa Ventura (...)”.
Em
E concluía que “O pharol foi orçado em 40:000$000 reis, e fica sendo o segundo em importância dos Açores, sendo o primeiro o da Ponta do Arnel,
Depois de ter visitado as obras em curso, o citado jornal escrevia ainda que “Tudo ali nos pareceu magnifico, mas a torre excitou-nos a admiração pelo bem lavrado da cantaria e pela sua bella escada de degraus, boleados a primor”. Concluía o mesmo jornal que “Merece os maiores encomios o director d’aquellas obras, nosso amigo exmo. Sr. Jeronymo Lino de Freitas, que mais uma vez evidencia o seu talento n’aquella construção de tanta utilidade para a navegação dos nossos mares e de reconhecida importancia e prosperidade para a ilha das Flores”.
Em 18 de Agosto de 1909 o jornal “O Telégrafo” noticiava que “Estão completos os trabalhos do pharol das Lages das Flores, aguardando-se desde Julho a respectiva lanterna”.
A inauguração do Farol das Lajes, apenas se pôde realizar em 10 de Outubro de 1910, quase sete anos depois da do Farol dos Capelinhos (1). Julga-se que terá havido dificuldades na aquisição da respectiva lanterna, tal como acontecera com o dos Capelinhos (inaugurado em 1903), para cuja aquisição foi essencial a intervenção de El Rei D. Carlos, depois de visitar a Horta em 1901, e que, como se sabe, viria a ser assassinado com o filho D. Luís em 1908.
A sua lanterna circular era constituída por aparelho iluminante dióptrico de 2.ª ordem, de rotação, mostrando grupos de três clarões brancos e rápidos de 20 em 20 segundos, compondo-se de dois grupos de lentes de 0m,70 de distância focal. Montada numa torre de alvenaria, de secção quadrada, de
O encarregado da referida construção foi Jerónimo Lino de Freitas, que já construíra outras obras importantes na ilha, nomeadamente pontes e estradas nas vilas florentinas, e que também se distinguiu como músico e dirigente de orquestra. Era filho ou neto do benemérito florentino, António de Freitas (1792-1864), que fundou em
A construção daquele e de outros faróis nos Açores havia sido proposta ao Gorverno do Reino pelo deputado florentino Theophilo Ferreira (falecido em 1894), pelo distrito da Horta, ao apresentar, em 1892 o projecto da “Iluminação das Costas Marítimas dos Açores”. A partir de
No Farol das Lajes, desde 1 de Junho 1938 e até ao início da década de 1950, funcionou a Rádio Farol que constituiu o primeiro embrião da Radionaval das Flores, inaugurada em 25 de Agosto de 1951, em edifícios próprios construídos nas proximidades.
A este propósito refira-se que, em 8 de Agosto de 1937 – quando Adolfo Hitler se preparava para invadir a Europa e se apoderar do Mundo, antes de ter iniciado a II Guerra Mundial – o referido Farol foi visitado por dois alemães. Instalaram-se a seguir, com meios de comunicação, nas suas proximidades onde se mantiveram durante alguns meses. Consta que seriam técnicos especializados em espionagem, que Salazar deixava andarem livremente pelo País e que se retiraram da ilha um pouco antes da chegada da mencionada Rádio Farol, em 1938 (2).
O Farol das Lajes das Flores, durante o século XX passou por várias obras de conservação, nomeadamente em 1938 e em 1956, melhorando então a sua fonte luminosa para um alcance de
Mais recentemente, depois de significativas obras de remodelação inauguradas em 9 de Outubro de 2001, o referido Farol é uma das estruturas do género mais modernas do País. Hoje é o segundo dos Açores em potência – só superado numa milha pelo da Ferraria,
Bibl: Aguiar, J. Teixeira de, José Carlos Nascimento e Roberto Santandreu, “Onde a Terra Acaba – História dos Faróis Portugueses”, (2005), p. 298 e