Imprimir esta página
08
setembro

Crónicas de Bruxelas, 3 - Recolha de resíduos, o ponto fraco de Bruxelas

Escrito por  Frederico Cardigos
Publicado em Artigos de opinião
Há uns meses atrás, na ilha das Flores, ouvi o senhor vice-presidente da Câmara Municipal das Lajes discursar durante um evento sobre o 14º Objectivo do Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas organizado pelo INATEL. Entre os diversos pontos que enalteciam a virtude da gestão camarária, a certo ponto, passou-se para os números. Concentrei-me. Porque os números são indicadores objectivos permitem-nos fazer um balanço justo e claro da gestão. Disse ele então que o concelho de Portugal com melhor índice de reciclagem de resíduos per capita era precisamente o das Lajes das Flores e, complementou, estava muito bem acompanhados porque no segundo lugar estava o concelho de Santa Cruz das Flores. Espectacular!
Ao ouvir estas palavras reflecti sobre a gestão de resíduos nos Açores. De facto, a planificação estratégica feita há algum tempo e a sua implementação nos últimos anos mudou radicalmente a forma como os resíduos são tratados no arquipélago. O comportamento pessoal mudou, a recolha mudou, o encaminhamento mudou e o destino final mudou. Um completo contraste com o que se passa em Bruxelas, no que se refere à recolha. 
Em Bruxelas, a maioria dos resíduos domésticos e comerciais são deixados à porta de casa e das lojas em dias pré-definidos de acordo com a sua tipologia e recolhidos passadas poucas horas. Frequentemente, os sacos rompem-se e as ruas são invadidas por hordas daquilo que as pessoas não quereriam ver dentro das suas próprias casas. Nos dias com algum vento, os cartões esvoaçam rapidamente dando um aspeto caótico à cidade... De seguida, com um dispêndio que não deve ser nada baixo, aparecem umas brigadas de limpadores e varredores que tentam conter os danos. Em resumo, não há dia em que eu não apanhe qualquer coisa do chão e vá meter no caixote do lixo mais próximo. Não o faço por especial sentido cívico, mas sim porque é insuportável ver jardins tão fantásticos e ruas com extraordinárias obras de arte polvilhadas com garrafas de plástico ou guardanapos. "Chateia-me, pá..."
Será que há demasiado dinheiro para gerir esta cidade? Se houver necessidade de alguma contenção, então que se invistam em mais ecopontos e institua-se a sua utilização. A recolha porta a porta funciona em pequenas comunidades que sejam particularmente atentas e responsáveis.
Para além disso, aqui em Bruxelas há um conjunto de regras que excluem dos "amarelos", que aqui são "azuis", muitos dos plásticos. Apenas as embalagens podem ir para reciclagem. Recuso-me a cumprir, mas posso mesmo ser multado! Imagine-se isto na dita capital da Europa...
Há uns dias atrás, ao sair de casa na ilha do Faial, reparei que os vidros dos carros tinham presos nos limpa pára-brisas um panfleto de anúncio a um espectáculo de striptease. Achei curioso, até porque não era coisa que esperasse ver em plena cidade da Horta. Um jovem à minha frente, longe de achar curioso, ficou furioso pela sugestão que lhe tinham colocado no carro. Tirou o panfleto, amarrotou-o irritadamente e mandou-o para o chão. De imediato, peguei no panfleto, dobrei-o para não causar demasiado embaraço, e fui-lhe entregar dizendo "compreendo a revolta, mas não no chão." Ele, com enorme fair-play, concordou dizendo "tem toda a razão". Era o que mais faltava, voltar aos Açores e, nos poucos dias que cá estou, ver lixo pelo chão. Já basta Bruxelas.
Lido 525 vezes
Classifique este item
(0 votos)
Login para post comentários