1. Portugal inteiro, no passado dia 1 de outubro, escolheu os seus governantes locais. Freguesias e concelhos votaram naqueles que, em cada caso, virão a ser os seus governantes nos próximos quatro anos.
Porque são eleições muito próprias e especiais, não devem ser, na minha opinião, objeto de leituras que extravasem o seu âmbito.
Não teve o mesmo entendimento o líder do PSD, Pedro Passos Coelho que, face aos resultados globais obtidos pelo seu partido, decidiu deixar o cargo partidário que ocupava, abrindo um processo de sucessão do qual se excluiu.
Não concordei com algumas das decisões do governo de Passos Coelho e, sobretudo, com a forma e o fundamento das mesmas. E não era adepto de alguma obstinação teimosa que revelava no exercício da governação.
Mas não posso deixar de lhe reconhecer a grande capacidade de resistência que só um notável estadista, convicto das suas opiniões e da linha de rumo que o orienta, pode ter. Tendo assumido o leme de Portugal quando o País, de mão estendida, pediu dinheiro ao FMI, à Comissão Europeia e ao Banco Central Europeu (vulgo troika) para que não caísse na banca rota a que a governação do PS de José Sócrates nos tinha conduzido, Passos Coelho, como muito apropriadamente escreveu Joana Petiz, no Diário de Notícias: “tirou Portugal do fundo do abismo para o qual tinha sido atirado. Foi ele o responsável por nos carregar pelo caminho de pedras que nos trouxe de novo à superfície. Foi ele quem tomou as decisões mais difíceis, quem fez as escolhas mais impopulares, quem não vacilou por saber que não havia outra solução.”
E soube fazer isso no meio de uma contestação orquestrada e sem precedentes de quem agora goza, na “geringonça”, os benefícios e os resultados da sua política. Apesar da contestação social alargada, da radicalização das posições sindicais, do empolamento de casos sem relevância, a verdade é que Pedro Passos Coelho sofreu como governante o que poucos políticos neste país terão sofrido, de tal forma que Ricardo Arroja, no Diário Económico, afirma que “Não me recordo de alguma vez o ter visto a ser grosseiro ou ostensivamente indelicado com os seus adversários (coisa que, infelizmente, não posso afirmar do atual primeiro ministro). É precisamente pelo facto de a política também se fazer da forma, e não apenas da substância, que não posso deixar de enaltecer a gentileza de trato e um certo cavalheirismo sempre que os vislumbro. Ora, a verdade é que os vislumbrei em Passos Coelho.”
Se havia dúvidas sobre a sua dimensão de político e estadista, a forma como anunciou a sua saída é a prova decisiva.
A história não deixará de fazer justiça a Pedro Passos Coelho.
2. A nível local, as eleições autárquicas determinaram a continuação do mesmo executivo camarário, enfraquecido com a perda de mais de 300 votos, a perda da maioria na Assembleia Municipal e a perda de juntas de freguesia emblemáticas como as Angústias e os Flamengos.
Apesar disso, a verdade é que a maioria do eleitorado faialense premiou a pessoa, distinguindo José Leonardo do PS e fazendo com que a Câmara Municipal tenha resistido à mudança que se verificou na maioria das outras instâncias autárquicas.
O capital político de José Leonardo no interior do PS, embora beliscado pelo significativo recuo na votação, acaba por, aparente contradição, sair reforçado como o único líder local que, apesar das quebras eleitorais, resiste vencendo.
Mas a sua verdadeira capacidade política – e a da sua equipa camarária – só agora será posta à prova, num cenário político de maior dificuldade, com a obrigação de procurar e encontrar os consensos necessários à viabilização dos documentos essenciais ao governo do Município e que carecem da aprovação da Assembleia Municipal onde o PS não detém a maioria.
O eleitorado não entenderá nem apreciará se a Câmara (que detém a capacidade exclusiva de iniciativa na maioria dos documentos que são apresentados à Assembleia Municipal) optar pelo confronto em vez da negociação e da procura prévia dos entendimentos imprescindíveis à viabilização de tais documentos.
3. Por outro lado, a coligação “Acreditar no Faial” conseguiu um conjunto de resultados notável. Cresceu quase 800 votos na votação para a Câmara Municipal; cresceu cerca de 430 votos para a Assembleia Municipal (que lhe deram a maioria dos mandatos); e cresceu quase 930 votos para as assembleias de freguesia, tendo sido a força mais votada para estes dois últimos órgãos.
Aos partidos e personalidades que integraram esta proposta autárquica abrangente coloca-se agora o desafio de manterem o projeto coeso e fiel ao que propuseram aos eleitores, mas, simultaneamente, fruto da vontade do eleitorado, saberem ler a nova conjuntura política e, caso a caso, aquilo que é o interesse do Município.
Os sinais de mudança de ciclo político no Faial avolumam-se depois de dois desaires eleitorais seguidos do PS nesta ilha (uma vez que considero esta vitória na Câmara Municipal mais pessoal que partidária), que penalizam sobretudo um governo regional que sistematicamente tem esvaziado e menorizado esta ilha e a tem abandonado no conjunto dos Açores.
A manter-se assim o PS dos Açores e o do Faial, a coligação “Acreditar no Faial” tem terreno fértil e espaço para crescer mais e ser o movimento redentor da esperança dos Faialenses.