Bastou que a Comissão Técnica Independente apresentasse o seu Relatório técnico às causas do incêndio de Pedrógão Grande e que, perante ele, a Ministra da Administração Interna Constança Urbano de Sousa voltasse a não assumir quaisquer responsabilidades, essencialmente políticas, para que o inferno voltasse a atacar muitas populações do nosso país.
Domingo, 15 de outubro, parecia um dia como muitos outros de Outono. Amanheceu calmo, mas as 520 ignições rapidamente registadas o transformaram no pior dia do ano em termos de incêndios florestais. De Leiria a Coimbra, passando por Aveiro, Viseu até Braga, o país assistiu incrédulo a um cenário dantesco.
Pessoas a conduzir em auto-estradas com fogo de ambos os lados, e a correrem risco de vida, linhas de comboio cortadas, aldeias evacuadas e devastadas pelas chamas, vilas invadidas pelo fogo e grandes cidades cercadas. A norte do Tejo praticamente nada escapou à ferocidade das chamas deste dia.
E nem os 6.000 homens e as 2.000 viaturas destacadas para todos estes incêndios os conseguiram controlar, uns ocasionados por mão criminosa, outros por descuido e negligência dos cidadãos, sobretudo nas zonas rurais, através da realização de queimadas. O dispositivo conseguiu responder, mas notou-se que continuam em falta as medidas estruturais de prevenção dos incêndios nas florestas.
Quando comecei a escrever estas linhas, o número de mortos já era assustador, cifrava-se em 10 pessoas; no momento em que as concluo, a conta é deveras muito mais trágica, são 41 mortos e 63 feridos, 15 dos quais em estado muito grave. O património e os bens que muitos acumularam com sacrifício ao longo de uma vida esfumou-se em segundos, a vida que muitos ainda tinham pela frente desapareceu num piscar de olhos. Novamente, a tragédia se abateu sobre Portugal.
Estamos todos de luto. Portugal está de luto.
A revolta e o choque não podem deixar de se instalar em todos e em cada um de nós por esta situação ter ocorrido duas vezes no mesmo ano. Pedrógão Grande aconteceu quando era ainda primavera e morreram 64 pessoas, ontem incêndios que fustigaram em pleno outono, e morreram 41 pessoas. Uma tragédia antes do verão começar, outra depois do verão acabar. A morte no período de um ano de 105 pessoas pelo fogo, a falha das telecomunicações, a ausência do SIRESP, a má coordenação dos meios da protecção civil no terreno, o facto de 60 por cento dos meios aéreos já não estarem disponíveis, mostram que nada foi apreendido e delineado depois dos incêndios de junho, que dali não se tiraram quaisquer ilações para o período crítico dos incêndios que iria acontecer – o verão, a denominada fase Charlie.
O Estado falhou mais uma vez. Aquele que nos costuma amparar na doença, no desemprego e na saúde falhou neste fatídico dia na defesa e proteção dos cidadãos que por ele aguardavam. Por isso, o país tinha o direito de reclamar, de exigir, em primeira linha, a demissão imediata da Ministra da Adminis-tração Interna, o rosto mais visível da inação e incompetência do Estado, a qual, aliás, já devia ter saído pelo seu próprio pé, poupando-nos a momentos de grande constrangimento e a sua substituição por alguém com autoridade e capacidade de repor a ordem.
Recusando-se a pedir desculpa ao país e às vítimas dos incêndios, António Costa, numa atitude incompreensível de um politico hábil e experiente como ele, continuou a segurar a Ministra no cargo, mostrando que “este não é tempo de demissões, é tempo de soluções”. Costa deixou esticar a corda até ao limite talvez para perceber o sentido politico de Marcelo, mas este, com quem tem coabitado de forma consensual, deu-lhe uma reprimenda e deixou-lhe o primeiro e último aviso da legislatura.
O Presidente da República exige que do ocorrido sejam retiradas já todas as consequências politicas, a começar por uma remodelação governamental no Ministério da Administração Interna (o que aconteceu), que sejam tomadas medidas no âmbito da floresta e dos fogos, e, sobretudo, que o Parlamento mostre se o governo tem ou não a sua base de apoio intacta.
Desta forma, força os partidos da geringonça, Bloco de Esquerda e Partido Comunista, a assumirem ou não o seu compromisso, inicial, de apoio ao governo e mostra a António Costa que, a partir de agora, só poderá contar com ele próprio e com os partidos que o apoiam.