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26
janeiro

Dos “senhores do Faial” e dos feitores do Pico

Escrito por  Victor Rui Dores
Publicado em Victor Rui Dores

Naquele tempo não se falava em Karl Marx e desconhecia-se de todo a utopia da sociedade sem classes. Era rico quem tinha dinheiro e pobre quem não devia revoltar-se – para isso havia as bem-aventuranças eternas que, dizia-se, davam o céu aos famintos e o castigo aos opulentos deste mundo.

Durante séculos imperou, nos Açores, nomeadamente nas ilhas do Faial e Pico, o patriarcalismo: criados e criadas no âmbito do serviço doméstico; rendeiros e capatazes no âmbito da propriedade rural. Autores como Nunes da Rosa, Florêncio Terra, Manuel Zerbone, Rodrigo Guerra, Manuel Greaves e Tomás da Rosa dão conta dessa relação/oposição entre “os senhores do Faial” e “os feitores do Pico”; “os morgados do Faial” e “os vinhateiros do Pico”; os “barões do Faial” e “os quinteiros do Pico”; “os fidalgos do Faial” e “os caseiros do Pico”.
Mas nos inícios do século XX houve uma mudança nas relações entre classes: a emancipação dos feitores do Pico em relação aos “senhores do Faial”. Vejamos como e porquê.
O feitor era quem cuidava das vinhas bem como da casa de Verão e da adega do proprietário faialense. Além disso, superintendia o recrutamento do pessoal para as vindimas e outras tarefas relacionadas com o tratamento das cepas: poda, enxofragem, sulfatagem. A decadência dos “senhores do Faial” levou à compra, por parte dos feitores do Pico, de lotes de terreno. Surgiu, assim, na fronteira da ilha montanha uma teia de minifúndios. Pequenas propriedades, solares, adegas, armazéns, casas conventuais, ermidas e outras estruturas passaram para mãos picarotas.
Faial e Pico são ilhas irmãs que não passam uma sem a outra. Ilhas próximas, com paisagens diferentes e realidades distintas. Povo irmão, é certo, mas sujeito a desavenças por bairrismos históricos e odiozinhos de estimação…
A viver há 37 anos na “ilha azul”, considero que continua latente uma certa sobranceria do Faial em relação ao Pico, por um lado, e, por outro, aquilo a que já chamei de um certo anti-faialismo difuso do Pico em relação ao Faial.
Chegada é a altura de assumirmos que somos “Comunidade do Canal”, na feliz expressão criada por Tomás Duarte. Ou seja, há que incorporar nas nossas vidas essa relação histórica de permutas e afectos, essa ligação por uma identidade de pertença a um mesmo lugar, a uma mesma cultura, a uma mesma História, a um mesmo imaginário.
Sobre tudo isto vou pensando após ter deambulado pela Paisagem da Cultura da Vinha do Pico, hoje Património Mundial da UNESCO. 

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