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26
janeiro

Transformando problemas em oportunidades

Escrito por  Cláudia Ávila Gomes
Publicado em Cláudia Ávila Gomes

Tal como para a globalidade da paisagem do arquipélago açoriano, nas áreas protegidas as potencialidades de uma paisagem residem na sua gestão equilibrada, nomeadamente no que diz respeito aos usos do solo e à proteção dos valores presentes. O equilíbrio define-se principalmente em relação à componente ecológica e à dimensão natural da paisagem, mas necessita de integrar também a dimensão cultural, já que o Homem é o principal agente de modificação da paisagem, mesmo que essa modificação seja no sentido da sua conservação. 

Numa paisagem marcadamente cultural a diversidade de usos do solo é benéfica e até desejável, já que a esta diversidade se encontra associado um maior número de funções complementares. Este é, por exemplo, o caso da preservação de manchas de vegetação natural endémica em zonas agrícolas com vinha ou pastagens, que vão beneficiar o sistema ecológico no seu conjunto - o sistema hidrológico, a presença de insetos auxiliares das culturas, e a presença de entomofauna polinizadora - e consequentemente as culturas agrícolas. A presença de uma matriz de base de vegetação natural nas áreas protegidas - sejam elas marcadamente naturais ou culturais - é, segundo diversos investigadores, uma dos mais importantes componentes da sustentabilidade dos ecossistemas e paisagens, já que desempenha um papel fundamental nos processos ecológicos e na manutenção da complexa e intricada teia da vida.
Os núcleos relativamente extensos de ecossistemas naturais bem preservados, como os que ainda existem na Serra de Santa Bárbara na Terceira e na Caldeira do Faial podem ser considerados grandes mosaicos naturais de elevado valor ecológico, que se mantiveram relativamente intocados devido à presença de extensas caldeiras que colocam dificuldades ao acesso e à exploração agrícola. São, no entanto, situações bastante raras neste arquipélago. Para além destas grandes manchas com vegetação natural endémica as restantes áreas protegidas possuem uma maior interpenetração com usos do solo de origem antrópica.
A criação de corredores ecológicos entre manchas de vegetação natural, no interior de áreas protegidas ou entre áreas protegidas localizadas a diversas altitudes é uma proposta para a recuperação da paisagem em áreas protegidas amplamente referenciada por diversos autores. Estes corredores ecológicos podem ser constituídos por galerias ripícolas ou sebes com vegetação natural endémica, por exemplo. Neste sentido, a paisagem que atualmente se encontra nos Açores - com parcelas agrícolas de média a pequena dimensão – poderia ser convertida numa paisagem com uma estrutura ecológica integrada, se se transformassem algumas parcelas de terreno em parcelas com vegetação endémica, e se interligassem essas parcelas com sebes também elas constituídas por vegetação endémica. A implementação da vegetação natural endémica fora das áreas protegidas, especialmente em terrenos agrícolas abandonados, pode ser um modo de reverter o avanço de espécies de vegetação com caráter fortemente invasor presentes nas nossas ilhas, como sejam a Ipomaea indica e a Ailanthus altissima.
Corredores ecológicos com vegetação natural endémica podem interligar as diversas áreas com valor ecológico ampliando a rede de espaços naturais com valor para a conservação da natureza para a restante paisagem da ilha. Este modelo, constituído por manchas naturais de maior dimensão (como é o caso das áreas protegidas) complementadas por manchas naturais de menor dimensão e unidas por corredores ecológicos é um modelo clássico da ecologia da paisagem com benefícios para a sustentabilidade de toda a paisagem. 

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