Sucedendo na Ouvidoria da Horta ao Dr. Francisco Garcia da Rosa o inesquecível padre José Pereira da Silva foi, durante cerca de 30 anos, pároco da Matriz e Ouvidor Eclesiástico do Faial.
Era, como o seu antecessor, natural da ilha do Pico. Ali nasceu na freguesia de São João, à Companhia de Cima, a 8 de Abril de 1892, filho de Manuel Pereira da Silva e de Maria Bernarda da Silva.
Concluída a escola primária na sua terra natal, fez os estudos preparatórios e teológicos no seminário diocesano, recebendo a ordenação sacerdotal na Sé de Angra no dia 29 de Junho de 1915, celebrando a Missa Nova, na sua paróquia a 22 de Setembro do mesmo ano.
Foi capelão da Sé de Angra, redactor do jornal “A Verdade” e professor de música nesse mesmo ano de 1915. Em 1916 foi colocado como vigário substituto da Maia, ilha de S. Miguel, aí permanecendo durante três anos. Em 1919 o bispo diocesano nomeou-o pároco da Praia da Vitória, ilha Terceira, onde se manteve até 1927, altura em que foi transferido para pároco da Matriz da Horta e Ouvidor do Faial. No exercício dessas funções, a que se acrescentam as de professor de Educação Moral e Religiosa no Liceu e na Escola do Magistério, aqui esteve 30 anos incompletos.
Tendo sido nomeado Vigário Geral da Diocese, pároco da Sé de Angra e reitor do Post-Seminário (destinado ao estágio dos novos sacerdotes) teve de se fixar na capital terceirense em Novembro de 1956. Neste ano havia sido distinguido como Prelado Doméstico de Sua Santidade com o título de Monsenhor. Cónego da Sé de Angra, de que foi também pároco, decorridos alguns anos e já atormentado por doença pertinaz, viu-se forçado a deixar de prestar os seus serviços à Diocese, resignando aos cargos que desempenhava e vindo residir para a sua casa em São João do Pico. A Horta e toda a ilha do Faial “beneficiaram durante trinta anos da notabilíssima acção pastoral do Padre culto, prudente, exemplar, santo, que foi o sempre lembrado e saudoso Padre Ouvidor, como os faialenses sempre lhe chamaram e ainda chamam todos aqueles que o recordam”1.
Por isso, a Ouvidoria da Horta, de que era primeiro responsável Monsenhor José de Freitas Fortuna, celebrou, com elevação e dignidade, a sua memória no ano de 1992, assinalando o primeiro centenário do seu nascimento. O programa dessas comemorações, que decorreram nos dias 18 e 19 de Junho, compreendeu a concelebração eucarística e a procissão do Corpo de Deus, presidida pelo Bispo de Angra D. Aurélio Granada Escudeiro, a que se juntou o descerramento de uma lápide na casa n.º 42 da Rua Conselheiro Medeiros, que ainda hoje recorda a quem lá passa que: “Aqui viveu o Padre Ouvidor, José Pereira da Silva, sacerdote exemplar e figura insigne; no 1.º centenário do seu nascimento, 8/04/92”. Na sexta-feira, dia 19 de Junho, na Sociedade Amor da Pátria, onde esteve patente uma exposição foto-bibliográfica sobre o homenageado, decorreu uma sessão solene presidida pelo Prelado diocesano. Durante essa cerimónia, que contou com a participação de numeroso público, o Ouvidor da Horta Monsenhor José Fortuna proferiu uma alocução introdutória, a que se seguiram vários trechos musicais executados pelos professores do Conservatório da Horta, Lucian Luc (piano), Fabrizio Petorelli (clarinete) e Rui Gonçalves (violino), tendo Cesaltina Cardoso declamado alguns sonetos da autoria do homenageado e Fátima Machado e professor Fernando Melo apresentado os seus testemunhos sobre a personalidade de Monsenhor Pereira da Silva. O discurso de homenagem sobre a sua vida e obra, da autoria do cónego Dr. Isaías da Rosa Pereira, foi lido pelo seu sobrinho, cónego José Garcia, pároco da Conceição, tendo D. Aurélio Granada encerrado a sessão, com palavras de grande apreço pelas virtudes sacerdotais e humanas de Monsenhor Pereira da Silva.
Em 15 de Novembro desse ano, por ocasião da Festa de Santa Cecília, padroeira dos músicos, foi descerrada na sacristia da Matriz da Horta esta lápide: “A Monsenhor José Pereira da Silva, Vigário Geral da Diocese de Angra, Ouvidor Eclesiástico da Horta e Pároco desta Igreja Matriz: homenagem da comunidade eclesial faialense, no 1.º centenário do seu nascimento, 08-04-92”. Ainda nesse centenário do nascimento de Monsenhor José Pereira da Silva uma representação de católicos faialenses deslocou-se a São João do Pico, tendo participado numa celebração eucarística presidida por Monsenhor José Fortuna e deposto uma linda coroa de flores no seu sepulcro. Uns anos mais tarde, precisamente em Novembro de 1999, coube à comunidade de São João Baptista da ilha do Pico lembrar o seu filho maior, tendo-lhe prestado condigna e pública homenagem de gratidão e reconhecimento. Ermelindo Ávila, estudioso do passado e picoense ilustre que conheceu e privou com Monsenhor Pereira da Silva, assevera-nos que ele “não deixou obra material – os santos são isso mesmo. Apenas alguns poemas, belos e singelos que um amigo quis reunir e publicou em livro, para além de escassa colaboração em ‘Sinos d’Aldeia’ (quando se encontrava na Maia), “Eco Cedrense”, “Correio da Horta”, “O Telégrafo”, “A Verdade” e “O Dever”. Foi esse “Homem notável, gigante do espírito como o era do arcaboiço, que há [mais de] um século nasceu na laboriosa freguesia de São João, pátria de tantas celebridades”2 e que deixou o mundo dos vivos em 30 de Novembro de 1974, aos 82 anos de idade.
(O autor escreve segundo a antiga ortografia)
1 Correio da Horta, 22/23 Abril 1994
2 Idem, 3 Dezembro 1999.