A expressão low cost, em bom Português “baixo custo”, entrou na nossa cultura por várias vias e, tal como muitas outras, parece ter vindo para ficar. Entre nós, insulados pelo mar e (até há pouco tempo, mas só para alguns) dependentes dos monopólios de certa companhia aérea, pareceu sempre aliciante a perspectiva de poder voar em low cost (em baixo custo: digamos, não ter de pagar mais para ir à capital do que para ir de lá a Moscovo, por exemplo). Desde a abertura do espaço aéreo e da vinda das companhias de “baixo custo” para os Açores que nós por cá cramamos por não ter nenhuma dessas e por sermos mal servidos pela única que temos. Agora, com a possibilidade de passarmos a ter voos desses para o Faial, a discussão tem-se intensificado e os prós e contras voltam ao de cima, em paralelo com a discussão sobre a companhia regional e as condições do nosso aeroporto.
Devo começar por registar que sempre fui – e continuo a ser – contra a vinda de companhias de baixo custo para os Açores. Por muitas voltas que se lhes dê. Temos de começar a pensar nesta questão sobre duas perspectivas: 1. Do ponto de vista do residente / passageiro frequente; 2. Do ponto de vista do visitante / turista.
1. O que se fez com o novo modelo de passagens para residentes e estudantes devia ter-se feito há muito mais tempo (como já existia na Madeira). Não vou acrescentar nada à discussão que tem havido em torno do (mau) serviço aéreo prestado aos faialenses (até já aqui escrevi sobre o assunto), mas nunca é demais frisar o trabalho realizado pelos cidadãos do Grupo Aeroporto da Horta, assim como a atitude da CMH, que continua a negar as evidências e se recusa a tomar uma posição forte e reivindicativa.
2. O que me levou a escrever sobre esta questão foi mais o segundo tópico, o do Turismo. Tenho acompanhado também nos últimos dias algumas discussões sobre este tema, mais uma vez os prós e contras de ter companhias de baixo custo e, sobretudo, o perigo (ou a ausência dele) da massificação do turismo. É dado adquirido que não queremos nos Açores um turismo de massas e que o investimento está a ser feito no âmbito da qualidade e não da quantidade. O que se tem feito (e muito bem, na maior parte dos casos) no âmbito da Natureza é bom exemplo disso: estuda-se, preserva-se, valoriza-se e cria-se riqueza através da potenciação do nosso património natural. Mas, da mesma forma que temos gente a visitar-nos para fazer trilhos pedestres ou ver golfinhos, temos (e poderíamos ter muito mais) gente a visitar-nos para ver os nossos centros históricos e conhecer a nossa cultura. O problema é que só agora se estão a dar alguns primeiros passos no turismo cultural e, entretanto, o nosso património histórico continua a ser calmamente destruído ou descaracterizado. Posso parecer demasiado dramático, mas aquilo que está a acontecer um pouco por todo o lado (vemo-lo já no Faial) com produtos para o turista e com baixa qualidade a surgirem como cogumelos viu-se já noutros sítios e com consequências nefastas (sinto na pele em Lisboa o que é estar numa cidade transformada em montra turística). Por exemplo, hoje qualquer pessoa restaura uma casa e abre um alojamento ou cria actividades para visitantes, o problema é que a qualidade do local e o lucro que terá são proporcionais ao investimento, ou seja, na sua maioria, de baixo custo. Para compensar temos de encher e para encher temos de ter mais gente: aí entram as companhias de baixo custo e o resto é um ciclo vicioso. Estamos muito longe ainda disso (do Algarve, por exemplo), mas por alguma razão tanta pressão houve para virem mais voos para São Miguel, e por alguma razão Ponta Delgada está a atingir o ponto de não retorno em termos de pressão imobiliária e de destruição de património (nós, infelizmente, para lá caminhamos). Isto leva-me à outra questão que quero abordar: a qualidade do serviço. Enquanto se vende o destino Açores e as suas paisagens não se vê internamente uma discussão que acompanhe a qualidade que é vendida: continuamos a não ter estratégias para o turismo cultural (como o há para o de Natureza) e não se pensa o serviço prestado (partilho um episódio, entre muitos que conheço ou vivi na pele: um dia, num dos nossos restaurantes, esperando para ser atendido e não havendo mais ninguém a ser servido no momento, pedi que viessem à minha mesa, ao que recebi como resposta: “Não quer esperar vá-se embora!”). Se queremos ter Turismo de qualidade há que começar a pensar pelas bases e de criar uma estratégia concertada. A nível nacional, tendo em conta que em alguns locais o turismo é de tal maneira massivo que já é um problema, o desafio não é tentar trazer mais gente, mas sim fazer com que quem vem fique mais tempo e gaste o mais possível. Por cá podemos estar na linha da frente disso, antes que seja tarde demais, pois se não se apostar na qualidade restará apenas uma coisa: a quantidade.
Deixo um exemplo prático: a nacionalidade que mais nos visita é a alemã (quase 6000 pessoas anualmente); temos relações históricas com os Estados alemães que remon-tam ao Povoamento, incluindo a presença do cosmógrafo Martim Behaim (criador do primeiro globo terrestre, que casou e viveu no Faial) e da DAT (companhia telegráfica alemã, que nos deixou magníficos vitrais com a heráldica do Império Alemão). Apesar destes dois factos, de ambos terem património associado, de esse património estar preservado, visitável e até classificado, em que é que constitui uma mais-valia para o visitante alemão? Em que é que isto cria riqueza? Tenho-me já cruzado com muitos alemães que vêm ao Faial em busca de cultura e regressam sem saber que podiam ter visitado os vitrais com o brasão da sua cidade ou uma igreja com inscrições sobre a sua família (e tenho também conhecido os que os visitaram e testemunho o quão felizes ficam). E este é um dos melhores exemplos, imagine-se todo o potencial que temos e tudo o que podia ser valorizado (e o que já não vai a tempo de se salvar).
Fica a reflexão.
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Em defesa da Língua Portuguesa, o autor deste texto não adopta o "Acordo Ortográfico" de 1990, devido a este ser inconsistente, incoerente e inconstitucional (para além de comprovadamente promover a iliteracia em publicações oficiais e privadas, na imprensa e na população em geral).