Imprimir esta página
23
março

Vasco Cordeiro está a matar a autonomia açoriana

Escrito por  Paulo Estevão
Publicado em Paulo Estevão

Acredito nas virtudes do autogoverno do povo açoriano. Tenho a certeza que temos as condições necessárias, através de um bom governo, para transformar os Açores numa das sociedades mais prósperas da Europa. O nosso atraso económico e a profunda desigualdade na distribuição da riqueza gerada no nosso território têm, sobretudo, duas causas: a dependência quase colonial em relação ao exterior e a existência de um sistema político regional que impede a alternância política, fomenta a dependência dos cidadãos em relação ao poder político regional hegemónico e impede a distribuição justa da riqueza criada no âmbito da nossa sociedade.
Os Açores devem continuar a aprofundar os mecanismos estatutários e constitucionais de autogoverno. É crucial manter vivo o ímpeto político nesta matéria. Ora Vasco Cordeiro já provou, depois de 6 anos de governo incompetente, anémico e caótico, que não tem qualquer projeto político consistente na cabeça. Movimenta-se ao sabor do vento e das circunstâncias mesquinhas da pequena política.
Cheguei a acreditar numa “Primavera Cordeirista” nos Açores. Atualmente Vasco Cordeiro já não engana ninguém. O seu silêncio intelectual sobre o futuro do projeto autonómico não encerra nenhum mistério ou enigma. É mesmo o que parece: um deserto estéril de convicções e de pensamento conceptual. O homem que ascendeu ao poder através de uma escada íngreme, feita de silêncios, sombras e da inexistência, não tem mesmo o que nunca aparentou ter: uma ideia, por mais miserável que ela seja. Não era uma estratégia e não se tratava de uma camuflagem tática. Trata-se, apenas, de uma realidade da vida.
Nestas condições de liderança política do sistema autonómico, o projeto autonómico regrediu conceptualmente para a Idade da Pedra Lascada. Vasco Cordeiro não pensa ou executa nada. Politicamente é, apenas, uma espécie de caçador-recolector.
Tem, isso sim, um instinto nato para a emboscada política. O seu objetivo político não é avançar ou progredir seja no que for no âmbito do autogoverno dos Açores ou da reforma política do sistema. Não sabe e não quer. Mas sabe uma coisa essencial, algo que todos os chefes de tribo sabem instintivamente desde tempos imemoriais: as ideias são perigosas para o poder estabelecido.
Imbuído desta inspiração e temor ancestrais, criou uma coisa chamada CEVERA (Comissão Eventual para a Reforma da Autonomia). A ideia não é criar uma espécie de Arca de Noé de ideias para salvar e atualizar o projeto de autogoverno dos Açores. A ideia é menos elaborada, mas mais astuta. O que Vasco Cordeiro quer é, simplesmente, congelar o processo e impedir a construção de projetos políticos alternativos ao estado atual das coisas.
Sob a aparente capa da unanimidade e da convergência autonómica, encontra-se o desejo ardente e astuto de alguém que só quer abrir e fechar os diques necessários para direcionar o caudal para a direção que mais lhe convém. E o que mais lhe convém, neste momento, é que não se discuta nada e que não aconteça nada.
Imbuído deste espírito e desta orientação espiritual, a CEVERA ficou adormecida durante 7 meses. Repito, sete meses! Alegadamente por dificuldades de agenda. Pelo meio ainda houve tempo para o PS/Açores manifestar toda a sua indignação pelo facto dos outros partidos apresentarem propostas no Parlamento dos Açores que se enquadravam na matéria proibida da legislatura: a reforma autonómica.
Depois deste estrepitoso falhanço planeado, o partido liderado por Vasco Cordeiro já anunciou que pretende obter autorização para “prolongar os trabalhos da CEVERA”. Tudo isto é, desculpem-me a expressão, “gozar com o pagode”.
Vasco Cordeiro não tem nenhum projeto para os Açores, a não ser permanecer no poder todo o tempo que lhe for possível. O resto é fingimento, emboscada e engano.

Lido 490 vezes
Classifique este item
(0 votos)
Login para post comentários