1. O RECORDE
O porto de Ponta Delgada recebeu num único dia, na passada segunda-feira, 5 navios de turistas em simultâneo, que totalizaram 13.300 visitantes, um novo recorde em São Miguel e na região.
Ao longo desta semana, o referido porto recebe 17 navios de turistas, 9 dos quais em apenas dois dias, segunda e terça-feira.
Perante um quadro desta natureza, o que pensar?
Pessoalmente, fico simultaneamente orgulhoso pela procura crescente dos Açores, e extremamente preocupado com a visão – ou falta dela – que os nossos governantes têm do modelo de desenvolvimento da região.
A concentração massiva do turismo numa só ilha é benéfica? Não. A partir de determinados níveis, é penalizadora para o ambiente, é prejudicial à qualidade do serviço que se pretende oferecer e é também contrária à qualidade de vida pretendida pelos habitantes locais.
Não seria muito mais correto, a todos os níveis, um modelo de organização turística que distribuísse os visitantes pelo maior número possível de ilhas?
2. A PRESSÃO DA MASSIFICAÇÃO E IMAGEM DO DESTINO AÇORES
A estratégia do Governo Regional está errada. As opções governativas ao nível da construção de infraestruturas e da promoção do destino estão a ter os resultados esperados: a massificação do turismo numa única ilha.
Esta concentração do turismo numa das nove ilhas dos Açores e o esvaziamento das outras oito ilhas - contrariando o princípio de desenvolvimento harmónico da região – poderá servir alguns interesses no imediato, mas dará maus resultados a breve prazo.
Os visitantes vêm aos Açores à procura de tranquilidade, natureza em estado puro e segurança, e com estas opções não é isso que estamos a oferecer. Podemos estar a caminhar para oferecer um destino sobrelotado, em que dificilmente a qualidade dos serviços poderá ser elevada, a que acresce o pesado impacto que esta massa turística tem nos pontos de visita e que, progressivamente, conduzirá à degradação desses mesmos locais.
A solução tem que ser diferente. A estratégia tem que passar pela criação de condições para a distribuição dos visitantes pelo maior número de ilhas, de modo a que levem dos Açores a imagem real do arquipélago e para que o setor do turismo constitua um vetor de desenvolvimento e de criação de emprego em todas as ilhas.
3. O PORTO DA HORTA
E o porto da Horta? Qual é a situação numa das “mais belas baías do mundo”?
No domingo, um navio de turistas construído em 1995 – os mais recentes são tendencialmente maiores - teve que ficar fora do porto, por este não ter condições para a acostagem.
Na segunda-feira, o dia em que 5 navios estiveram em simultâneo no porto de Ponta Delgada com 13.300 turistas a bordo, o Faial recebeu um pequeno barco de turistas, aparentemente apenas com a tripulação e sem qualquer passageiro.
É certo que não pretendíamos ter 13 mil turistas em simultâneo na nossa ilha. Aliás, conforme explicámos no ponto anterior, não será desejável que nenhuma ilha dos Açores tenha tão elevada quantidade de visitantes num mesmo momento. Mas seria benéfico, sem dúvida, ter o maior número de dias possível, um desses navios atracado no porto da Horta, com os seus passageiros a encher o Faial de movimento, a potenciar o desenvolvimento da ilha e a contribuir para a criação de emprego.
Não é assim porque a promoção do Faial, por parte das entidades oficiais, é quase inexistente, mas também porque as condições privilegiadas da baía da Horta, ao invés de serem potenciadas, foram seriamente prejudicadas com a forma como foi construído o molhe norte do porto. A diminuição do cais de 400 para 280 metros e a redução da profundidade, inviabilizaram a atracagem de navios de maior porte, com as consequências a que estamos já a assistir.
E a questão que se coloca, cada vez com maior pertinência, é a seguinte: era esta a intenção quando foi alterado o projeto do cais norte do porto da Horta?
A pensar no futuro, temos que perceber como corrigir os erros que foram cometidos e ultrapassar as limitações daí resultantes.
Até que tal se concretize, a Horta, uma das mais belas baías do mundo, fica literalmente “a ver navios” …