Em Ano Europeu do Património Cultural venho falar-vos de um edifício que não se encontra classificado como elemento de interesse patrimonial. Refiro-me ao Observatório Príncipe Alberto do Mónaco, localizado na cidade da Horta. Inicialmente designado como Observatório Meteorológico da Horta este edifício foi construído sob a iniciativa do Rei D. Carlos I, que no verão de 1901 lançou a sua primeira pedra, e inaugurado no dia 1 de Julho de 1915.
Tanto o Rei D. Carlos I como o Príncipe Alberto do Mónaco eram entusiastas da investigação oceanográfica sendo que o Príncipe defendia calorosamente o estabelecimento de um serviço de meteorologia nos Açores, fundamentando esta posição na localização estratégica central do arquipélago no oceano Atlântico. Pelos seus esforços no sentido da implementação deste serviço o governo nacional entendeu homenageá-lo dando o seu nome ao observatório em 1923.
O Observatório Meteorológico da Horta foi o primeiro observatório açoriano que teve um edifício expressamente construído para esse fim. É uma estação com dados climatológicos desde 1892 que integra também o espólio do Observatório Meteorológico das Flores, desmantelado quando da construção do aeroporto.
Nele se colocou - e ainda se encontra - um pilar de cimento que indica um ponto de Laplace, onde esteve instalada uma luneta meridiana da hora que permitia observações astronómicas para a determinação rigorosa da hora através de observação dos trânsitos de estrelas. Existiam à época três pilares fundamentais para este fim, o pilar que se localizava na Horta e outros dois que se encontravam em Borkum (Alemanha) e em Rockway (Estados Unidos da América).
Para além de observações meteorológicas este observatório desde cedo começou a registar medições relacionadas com as ciências da terra. Com a invenção na última década do século XIX do sismógrafo Milne, o primeiro verdadeiramente eficiente e de fácil transporte, o director do Serviço Meteorológico dos Açores, Afonso Chaves, adquiriu, pouco tempo depois, dois destes sismógrafos, os primeiros em todo o território português, que foram instalados na Horta e em Ponta Delgada. Foi nesta primeira cidade, nas antigas instalações do Governo Civil, que se deu início aos primeiros registos sismológicos e cerca de um mês depois em Ponta Delgada. Ainda existe no Observatório a estrutura principal deste histórico sismógrafo mecânico, que pela sua simplicidade é facilmente recuperável.
O Observatório Príncipe Alberto do Mónaco foi também um dos locais-chave no acompanhamento que a evolução do vulcão dos Capelinhos e ainda hoje mantém o seu interesse operacional e científico uma vez que é um dos pontos fulcrais da observação sismológica regional, nacional e europeia encontrando-se sob a alçada do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) e fazendo parte do Centro Sismológico Europeu e Mediterrânico (CSEM). Pode considerar-se, portanto, que este edifício apresenta relevância - tanto histórica como atual - para a evolução das ciências meteorológicas e da terra no panorama regional, nacional e mesmo internacional.
Se aliarmos estes factos históricos e científicos aos testemunhos que no edifício existem destes factos, à qualidade arquitetónica da sua construção e sucessivas reconstruções, à particularidade da sua torre octogonal e à sua localização proeminente na cidade da Horta temos um edifício com potencial para se inscrever nas listas de património classificado. Este poderia ser um passo para o cumprimento dos objetivos do Ano Europeu do Património Cultural, nomeadamente a preservação de um elemento do património local que tem um interesse mais abrangente que o sítio onde se insere.
O potencial do Observatório Príncipe Alberto do Mónaco é muito vasto e se dermos asas à imaginação podemos ver-nos a usufruir das vistas panorâmicas que é possível obter a partir da sua torre octogonal, ou então antever a sua inscrição em roteiros inter-ilhas que permitam a interpretação da vulcanologia e a sismicidade açorianas. Pode explorar-se a articulação deste edifício e do seu espólio com a história do vulcão dos Capelinhos, uma vez que aqui se encontram os registos das crises sísmicas mais importantes da época. Pode também imaginar-se o aproveitamento da sua torre octogonal ou dos relvados envolventes para espetáculos, de música ou teatrais. O que é necessário para que estes sonhos se concretizem é que haja articulação entre as diversas entidades, regionais e nacionais.
Nota: Agradeço ao Sr. Manuel Rodrigues e à Dra. Sandra Sequeira o fornecimento de informações que permitiram a elaboração deste artigo.