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01
junho

Retalhos da nossa história - 285 - Irmãs Franciscanas há 89 anos no Faial

Escrito por  Fernando Faria
Publicado em Fernando Faria

Dando vida ao carisma de praticar a hospitalidade segundo o espírito das bem-aventuranças e servir os irmãos especialmente os mais necessitados, as Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição estão na Horta desde 15 de Julho de 1929. Esta congregação entrou nos Açores pelo Faial e daqui irradiou depois para as ilhas Terceira, S. Jorge, S. Miguel, Graciosa e Pico. Além do testemunho de uma exemplar vida cristã, têm realizado uma obra notável que se deve ter sempre presente.
Vieram para o hospital da Horta, a instâncias da Santa Casa da Misericórdia, e chegaram à capital do distrito mais ocidental dos Açores em 15 de Julho de 1929. Em acta da sessão ordinária de 21 daquele mês, a comissão administrativa daquela instituição, de que era presidente o coronel José Inácio da Silva, ao congratular-se com a chegada das religiosas, felicitou o governador civil Fernando da Costa “a cujo esforço e tenacidade se deve a vinda para o Hospital, pois que desde 7 de Outubro de 1926 [quando Fernando da Costa era provedor da Santa Casa] demonstrou as vantagens da admissão de tais religiosas para o serviço de enfermagem no Hospital”.
Circunstâncias várias, nomeadamente as sequelas decorrentes da revolução de 28 de Maio e do terramoto de 31 de Agosto de 1926, terão adiado a chegada daquelas irmãs de caridade, só realizada três anos depois com a entrada ao serviço do hospital destas seis religiosas: Madre superiora Maria Luísa Garcia, Irmã Santo Lenho, Irmã Crucifixo, Irmã Carlota das Dores, Irmã Secundina de Maria Santíssima e Irmã Aurora (auxiliar). Além da superiora, que dirigia os vários serviços, elas trabalhavam em enfermagem, na cozinha, na lavagem e tratamento das roupas e, sobretudo, cuidavam dos doentes com zelo, delicadeza e abnegação.
No decurso de todos estes anos as Irmãs Franciscanas – e foram muitas as que generosamente serviram no Hospital, no Asilo-Colégio de Santo António e no Asilo da Mendicidade-Lar de São Francisco da Horta - deram testemunho diário, simples e generoso da sua fé e dedicação aos outros, tornando a Igreja presente nas periferias da sociedade faialense e das ilhas do então distrito da Horta.
O caso da Irmã Maria do Crucifixo (Ana Letra Canelas) é paradigmático. Nasceu a 23.2.1900, entrou na congregação a 6 de Agosto de 1919, tendo professado a 24 de Agosto de 1921. Com o curso de enfermagem, foi, como atrás se disse, uma das seis religiosas que em 1929 veio trabalhar para o Hospital da Santa Casa da Misericórdia. Ali esteve, sempre disponível, durante 18 anos, até ao seu prematuro falecimento a 27 de Julho de 1947. As suas excelsas virtudes ficaram registadas nos anais faialenses e ainda hoje se podem ler nos jornais daquele ano testemunhos que exaltam “o seu alto espírito de sacrifício, aliado a um coração generoso e compassivo”, pois sendo “dotada de nobres sentimentos caritativos, atendia a todos os doentes com o maior desvelo e amor (...)”1.
As Irmãs Franciscanas tomaram a seu cuidado, em 1 de Agosto de 1929, o serviço interno daquela unidade hospitalar que, assim, iria conhecer uma nova fase. Escrevia-se então que esse dia “não podia passar desapercebido ao comovido carinho com que a boa alma faialense se vem consagrando ao amparo e desenvolvimento do antigo estabelecimento hospitalar da Santa Casa que há bem pouco tempo esteve ameaçado de encerrar as suas portas por falta de meios para exercer a sua alta função social, caritativa e humanitária”. Era uma data que devia “ser gravada a letras de ouro nos anais da beneficência pública da nossa linda terra” já que se presumia que a “gestão interna daquela instituição pelas Irmãs de Caridade da benemérita família religiosa do Poverello de Assis era a garantia de que ali se iniciaria “uma nova era de prosperidade e de conforto acolhedor”2. Esses “verdadeiros anjos da Caridade que, compreendendo o Amor em toda sua perfeição, não hesitam em privar-se do conforto dos seus lares, dos carinhos da família, para se entregarem completamente ao amor dos seus semelhantes, tratando-lhes as chagas, secando-lhes as lágrimas, minorando-lhes as dores, dando-lhes o conforto que eles tanto necessitam” marcariam, pela sua acção sublime, aquele dia porque era “hoje que, pela primeira vez, naquela casa de sofrimento se começa por caridade a exercer a verdadeira caridade”3.
O reconhecimento e apreço do valor moral e material do seu serviço foram imediatos. Ainda em 1929 a “Reverenda Madre Superiora das Irmãs de Caridade” visitaria “a casa destinada às ‘Florinhas de São Francisco’ para estudar a possibilidade e o modo de se fundar ali um colégio para crianças, sob a direcção das beneméritas religiosas daquela ordem”4. A ideia de fundar, na Horta, uma instituição destinada a recolher, sustentar e educar as crianças órfãs e pobres da ilha do Faial – várias delas vítimas do terramoto de 1926 – fora concebida nesse ano pelo grande bispo de Angra D. António de Castro Meireles que, após detectar os problemas sociais causados por aquela tragédia, comprara um prédio (com casa, quintal e jardins) excelentemente apropriado ao funcionamento de tal instituição. Transferido D. António para bispo do Porto em Agosto de 1928 alguns dos seus projectos não foram prosseguidos pelo seu sucessor e um deles foi o das Florinhas, cujo imóvel – a antiga casa onde nasceu o primeiro presidente da República Portuguesa – ficou ao serviço da Acção Católica e posteriormente foi Lar Académico de estudantes, sendo recentemente entregue ao Governo Regional que parcialmente o recuperou nele instituindo a “Casa Manuel de Arriaga”.
A eficiente gestão imprimida no hospital da Santa Casa pelas Irmãs de Caridade levou a que a Mesa Administrativa do Asilo-Colégio de Santo António solicitasse, em 1931 e através da madre Maria Luísa Garcia, que as mesmas assumissem também a administração interna daquela instituição, o que veio a concretizar-se em Junho de 1932 com a vinda de Tuy das Irmãs Cândida da Cruz Minhoto, Maria da Conceição Imaculada Valares e Adília de Maria Silva Santos.
Desde então e durante largos anos do século XX o testemunho de vida cristã das muitas Irmãs Franciscanas Hospitaleiras que serviram no Faial foi deveras notável, tendo realizado obra digna e merecedora do maior elogio e apreço.
Trataram dos doentes no Hospital da Santa Casa; acolheram e educaram crianças e adolescentes de fracos recursos e hospedaram e ensinaram muitas jovens do sexo feminino a concluírem o curso liceal dando-lhes um educação integral no Colégio de Santo António e ampararam e minoraram as dores e a solidão dos velhinhos no Asilo da Mendicidade-Lar de São Francisco.
Com a acentuada secularização destas três instituições de solidariedade social e com a redução das vocações religiosas, a acção benemérita das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras tinha necessariamente de se fazer sentir nos sectores da saúde e da educação, tendo culminado com a sua insuprível saída do Colégio em Julho de 2007. Pelo muito que têm feito e pelo modo simples, abnegado e culto com que pautam a sua generosa missão bem merecem este registo, que é aplauso, elogio e acto de gratidão.

 

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

 

1Correio da Horta, 28 Julho 1947
2O Telégrafo, 31 Julho 1929
3A Democracia, 1 de Agosto de 1929
4Idem, 15 Julho 1929

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