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01
junho

Da Eutanásia e do Niilismo Ideológico

Escrito por  Jorge Costa Pereira
Publicado em Costa Pereira

1. Escrevo esta crónica antes da decisão da Assembleia da República sobre os diplomas de várias forças políticas no sentido de legalizar a eutanásia. Mas, independentemente do resultado da votação, em consciência não posso deixar de aqui registar algumas reflexões sobre o tema e a sua envolvência.

2. Já todos os minimamente atentos se aperceberam do preocupante vazio ideológico que impera na maior parte dos partidos políticos portugueses. Se perguntarem à maioria dos seus apoiantes (e, mesmo, dirigentes) arrisco garantir que a maioria não conhece nem o programa, nem os princípios ideológicos do partido da sua simpatia ou filiação.
Neste niilismo ideológico, não admira que qualquer coisa que mexa ou tenha potencialidade de vir a mexer com a opinião pública, serve para esses partidos fazerem alguma proclamação, muitas vezes mais de acordo com a onda da moda reinante do que propriamente com os princípios ideológicos em que se filiam.
Esta questão da eutanásia, despoletada agora para ser decidida já, é bem exemplo disso. Basta referir que o único partido que a inscreveu no seu Programa Eleitoral (e, portanto, mal ou bem, a sufragou perante os portugueses) foi o PAN. Os restantes partidos não incluíram tal assunto nas propostas que apresentaram há três anos aos eleitores.
Por isso, assumirem, como estão a assumir, a apresentação de propostas e o agendamento e decisão do assunto de forma tão acelerada, só mostra o pouco respeito e consideração que têm para com os portugueses.
Um programa eleitoral não é um saco de mentiras para se deitar fora no dia a seguir às eleições. É um compromisso de honra entre quem se propõe ao exercício do poder e quem tem de escolher os governantes. Não respeitar este compromisso – para mais, quando falta apenas um ano para um próximo ato eleitoral, ao qual esses partidos podem apresentar no seu programa eleitoral estas propostas para serem avaliadas pelos portugueses – é bem o sinal do pouco respeito e consideração que estes políticos têm pelo povo que os elegeu.
A maioria desta Assembleia da República – repito, independentemente do resultado da votação – desrespeitou o Povo Português pela simples e cristalina razão de que não estava mandatada para tomar decisões sobre um tema tão complexo e fraturante como este porque não o submeteu à decisão e ao conhecimento prévio dos eleitores.

3. Vários autores e analistas, com argúcia, vêm chamando a atenção para a preocupante e sub-reptícia inversão e confusão de valores que se está a instalar na sociedade portuguesa e não só.
Enquanto a Assembleia da República discute e vota a legalização da eutanásia (i.e., a morte feliz, sem sofrimento) para os seres humanos, leio a notícia do jornal Público do dia 24 de maio passado, onde se refere que “em setembro passa a ser proibida a eutanásia nos canis como medida de controlo de cães e gatos vadios.” Por outro lado, leio, numa entrevista ao Jornal i, Vasco Santos dizer que “Se passar na Rua Garrett e perguntar aos rapazes que estão ali a pedir moedas… Já o fiz. Uma vez a um que estava perto da Bertrand: ‘Epá, diga-me lá: porque é que tem aqui três cães?’ E ele - que era húngaro - disse-me: ‘Se não tiver cães não me dão esmola.’ É interessante, não é? Portanto, a quem damos a moeda é ao cão. Não damos a moeda ao sem-abrigo, ao mendigo, etc.” E remata aquele editor: “Esta biopolítica leva a uma naturalização seja do discurso, seja da vida em geral, e leva a uma animalização do humano e a uma humanização do animal.”
Não estamos longe, nada longe, de quando começámos esta crónica falando do niilismo…

4. E de que falamos, quando falamos de eutanásia? É simpático falar de uma morte “suave” por oposição ao sofrimento de algumas doenças terminais. É atraente falar de uma “morte digna”, mas é complexo explicar o que é isso. Como se interrogava José Manuel Fernandes, “Como pode a lei ajudar a pilotar situações tão diversas? Como pode respeitar a liberdade sem a limitar ao império do “eu”? Como pode ajudar à ponderação sem se submeter à urgência do “já”? Como pode distinguir o ajudar a morrer do matar? Como vai conciliar valores conflituantes cujo equilíbrio a sociedade não discutiu e muito menos interiorizou?”.
É que, no fundo, quando a medicina, reconhecidamente, hoje, já possui meios que eliminam o sofrimento sem tirar a vida, não consigo deixar de ver a eutanásia como a eliminação da vida de alguém sob um pretexto que é o abrir de uma caixa de pandora, onde rapidamente se passará do legislado para o informal. E, aí chegados, olhando para o que aconteceu noutros países, não estaremos longe da eutanásia “por sofrimento psicológico” ou apenas “porque é um fardo”…

27.05.2018

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