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22
junho

Reflexões Crónicas - Afirma Pereira

Escrito por  Tiago Simões Silva
Publicado em Tiago Silva

Antonio Tabucchi é conhecido entre nós pela viagem que fez pelas ilhas nos anos oitenta, quando embarcou num dos últimos botes baleeiros e procurou o rasto de Antero, do que resultou um registo de viagem publicado sob o título Mulher de Porto Pim (Donna di Porto Pim no original italiano, hoje disponível em oito línguas).
Italiano de origem, Tabucchi viveu grande parte da vida em Lisboa, onde veio em busca de Fernando Pessoa e acabou por casar com uma portuguesa (chegado a Portugal apaixonou-se por um homem e por uma mulher, segundo dizia). Apesar de continuar a escrever as suas obras maioritariamente em italiano, os cenários retratados remetem para o seu universo mais próximo, sobretudo para Lisboa. Um bom exemplo disso é o livro que dá título a este texto – Afirma Pereira.
Escrito em 1993, o relato é registado por um narrador anónimo a quem Pereira “afirma” os eventos do “mês crucial da sua vida, um fatídico Agosto de 1938”.
Está em curso a Guerra Civil Espanhola e em Portugal o Estado Novo impõe um patriotismo exacerbado e controla a circulação da informação. Pereira – o “doutor Pereira”, como se apresenta – é um jornalista, responsável por uma página cultural, que pouco ou nada consegue saber sobre o que se vai passando no mundo. Viúvo há vários anos, vive entre casa e a redacção e sente “a ideia bizarra de que talvez não vivesse, e era como se já tivesse morrido.” (p. 17).
A sua vida muda drasticamente quando conhece dois jovens, um dos quais con-trata para seu assistente, apercebendo-se depois que ele está atento ao que se passa no mundo e colabora com a resistência contra o regime. Não querendo entrar em detalhes sobre o enredo, que ficam ao critério do leitor descobrir ou não, há duas ideias-chave transversais que entendo serem dignas de realce.
A primeira é o ambiente que se sentia, a falta de conhecimento, obviamente imposta, e o medo. Medo de questionar e medo de afirmar. Em 1938 a ditadura era ainda recente, a própria República tinha ainda menos de três décadas, e, apesar, das restrições da censura, talvez fosse natural questionar, mesmo que clandestinamente, pois a luta pelo sistema republicano e participado era algo ainda recente. A certa altura, num diálogo, Pereira põe em causa o regime afirmando que “é um Estado autoritário, as pessoas não contam para nada, a opinião pública não conta para nada”, recebendo como resposta que não temos opinião pública e nos limitamos a obedecer “a quem grita mais, a quem manda.” (p. 66) E o próprio Pereira só consegue tentar formar opinião depois de ser informado do que se passa no mundo por um amigo padre, a quem pede “Mas então explique-me tudo, implorou Pereira, porque gostaria de tomar posição, mas não estou informado.” (p. 147)
A segunda é o facto de ter vivido num estado quase letárgico durante anos, apegado à memória da mulher morta e encerrado sobre si próprio, até que dois jovens lhe abrem os olhos e o fazem questionar tudo. É óbvio que para isso teve de lhes dar crédito, mas facto é que, “afirma ter dito Pereira, o facto é que me surgiu uma dúvida: e se aqueles jovens tivessem razão? Nesse caso seriam eles a ter razão, disse tranquilamente o doutor Cardoso, mas é a História que o dirá e não o senhor, doutor Pereira. Sim, disse Pereira, mas se eles tivessem razão a minha vida não teria sentido (...).” (p. 124) E não tinha. Foi preciso encontrar dois jovens com ideias irreverentes (e até perigosas) para conseguir questionar tudo e... (e o que daí resultou, que fica ao critério do leitor descobrir).

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Leia-se: Antonio Tabucchi, Afirma Pereira, Alfragide, Leya, 2015 (1ª edição: Milão, 1994).

Em defesa da Língua Portuguesa, o autor deste texto não adopta o "Acordo Ortográfico" de 1990, devido a este ser inconsistente, incoerente e inconstitucional (para além de comprovadamente promover a iliteracia em publicações oficiais e privadas, na imprensa e na população em geral).

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