Imprimir esta página
17
agosto

Entre nós e as palavras...

Escrito por  João Stattmiller
Publicado em João Stattmiller

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsinore

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

"You are welcome to Elsinore" de Mário Cesariny em Pena Capital.

 

Agora são as palavras que eu queria tivessem mãos. Mãos precisas e suspensas sobre todas as cores, uma ilha dentro do seu silencio. Vejo-as, então, contemplando-a como se fossem um ângulo e dentro dele houvesse mar e um homem procurando-o. Acho no mapa dos seus cabelos o menino que fui agora dentro deles. Visto a bailarina, tão antiga e formosa, as suas músicas. Põe um chapéu dentro da mão para que a toque e a acaricie e a ame. Vem para dentro das palavras que tenho com os olhos para ti, e senta-te. Quero falar-te ao lado mais humano, abrir as aspas da minha angústia, estender as asas das alegrias. Vem, serei discreto se tornares lícita esta irrealizável vontade.
Descubro, depois, que tenho medo em dizer-te tudo isso, que há uma espada afiada e ocasional a vigiar-me. Amargo-me, queria que fosse hoje e nem sei e, por demais ignoro, se pode ser um amanhã. Não interessa, respeito a sua seda e é por ela que o meu coração é uma véspera. Está tão longe e demora tanto a sua voz. Eu sei que se inadequa em mim alguma garantia para que mereça as tão finas constelações que são as palavras nas nossas mãos, esse feixe de luz que torna puro o acto que é sozinha a própria vida, e a coragem e o respeito que é exercê-la em matéria, mas que é também respirá-la assim, em nome do amor, da esperança que não míngua e é traduzível e sofrível, que é esse emparedado castigo onde se cresce com palavras diurnas e sangue e mazelas na própria fronte.
Decifro-as agora e procuro-as incansávelmente quando o meu corpo endurece e a realidade me entra pelos olhos como garfos, e me queimam os ruidosos fogos da injustiça. Está quente essa ilha onde o gelo aspira a ser um incêndio. A imersa coisa simples que é e o pútrido tanque que remexe em seus silêncios. Um poeta cresce, é um gesto mínimo esta coisa de nos percebermos de repente azuis, coisa afogada em seus arrependimentos. A voz que canta aparições e paisagens quiméricas. O grito rebenta e converte-se em palavras. O bronze é toda esta angústia, uma realidade branca e fria como o gelo. Rezo. Riem-se e eu sobressalto-me. Um riso pode ter tantos sentidos, tão dogmáticas realidades, é como se fosse um interminável deserto. Longo e árduo, não de atravessá-lo, mas de senti-lo tão sómente.
No luto brilham as palavras, mãos, substâncias carnais tão sensíveis ao sangue, que puxam mágoas pelos homens e ateiam incendios com sofreguidão. Nem se chegam os bichos em sua ignorancia animal. Estranho odor terás para que os afuguentes. As palavras voltam-se ríspidas para a luz mal o pressentem e cegam partidas com rigores que não se descreve. Estranho que te alegre tanto esse facto e que te entregues a elas com devotados empenhos. Estranho, também, o magma, a dureza onde se clareia a matriz mineral das tuas entregas. Dentro as palavras erguem-se-me de vez em quando. Parecem querer acordar. Luto, debato-me em delírio para que não o façam. É bom permanecer aqui pelas suas escuras luzes. Insossegado, mas adormecido. Espumando, mas encantado. E de repente há um indefinido azul neste espectro que agora se quer revelar. Grito-lhe: Quero estar lúcido! Não quero o iludido imaginário a que me vão acorrentar!
Risco sobre a mesa um papel, procuro as palavras onde se afogue toda a solidão. Carrego-as e tento dar-lhes um chão. Uma onda é uma insónia que não se comove, um luto que se torna vida inesperadamente perante a morte. Dói-me essa consciência, estes tumultos, esta obsessão. Mas poderemos crescer se não for de tal modo?

 

DR

Monumento ao Infante D. Henrique na cidade da Horta, ilha do Faial. Com a devida vénia ao Francisco Gonçalves.

Lido 223 vezes
Classifique este item
(0 votos)
Login para post comentários