Na edição anterior deste semanário, ao ler a crónica do colunista João Stattmiller, detive-me durante largos momentos com a foto que o acompanhava. Relembrei uma conversa, talvez reincidente, mas que havia tido há não muito tempo acerca dos espaços públicos da nossa cidade e nomeadamente do Largo do Infante.
O largo em causa já sofreu várias mutações, e prepara-se para mais uma, desta feita no âmbito da nova frente mar da cidade da Horta. O que nos questionamos sempre é: qual o valor acrescentado que daí advém? Se pensar na última intervenção que ele sofreu, não se acrescentou muito… aliás, poderia até dizer que se perdeu. Perderam-se os bancos vermelhos, característicos de vários espaços da cidade, e perdeu-se todo e qualquer vestígio floral. Ficou um empedrado, com pouca relevância, tendo em conta aquilo que são os motivos calcetados por essa cidade fora, e um relvado.
Não pretendo desvalorizar relvados, até porque preferia o relvado do largo da Torre do Relógio, do que o polipropileno de alto impacto que lá foi colocado. A reflexão que pretendo prende-se com o destino do mobiliário substituído e do património.
Já tinha ouvido falar na estátua do Infante que “habitava” o jardim. Perguntava-me se não seria um mito, e se não teria sido sempre aquele busto, mas num outro poiso… Agora que o vi, pergunto-me, qual o propósito destas substituições. Não estamos nos Estados Unidos, e nesta febre revisionista da história, em que se estão a retirar estátuas porque exaltam figuras, agora consideradas, incómodas por aquilo que representam… Mas de qualquer forma, o Infante também não é uma figura controversa, tanto mais que se colocou outra imagem, de tamanho mais modesto é certo, mas evocativa da sua pessoa.
Pergunto se não havia lugar para esta estátua, ou se ela não merecia estar preservada num qualquer espaço visitável. Mas percebo que não esteja, até porque se o detentor fosse o Museu da Horta, muito provavelmente estaria nas suas catacumbas, como o imenso património que por lá se está a degradar…
Faço, no entanto, um paralelismo com o destino dos bancos desse mesmo largo. Por onde descansam? Não pretendo confundir património artístico, como uma estátua, com mobiliário urbano, mas há algum deste mobiliário, que pela memória colectiva que carrega, faz também parte do legado estético da nossa cidade.
Podemos até pensar na Praça da República, em que o regresso dos bancos vermelhos foi bastante apreciado. Foram retirados os antigos, colocados os novos e depois compraram-se os “antigos” novamente, mesmo que todo o percurso tenha custado mais de 70 mil euros ao orçamento municipal.
Pergunto novamente, e o que aconteceu a estes bancos com uma década (cinzentos e menos bonitos é certo) entretanto substituídos? Já pedi, através do Grupo Municipal do CDS a que presido, ao Sr. Presidente da Câmara para os colocar nos parques infantis, para que pais e avós possam descansar enquanto vêm os seus, com bastante mais energia, a subir e descer os escorregas, mas até hoje, nada.
Na verdade, não estou a dizer que deveríamos construir nos arrabaldes um qualquer parque com estas peças desmobilizadas, mas gostaria que houvesse um pouco mais de cuidado na forma como se substituem características desta cidade, sempre ao sabor dos gostos de um qualquer arquitecto, gabinete de arquitectos, arquitectos paisagistas, o que seja, que muito provavelmente nunca se deteve uma tarde nestes espaços públicos simplesmente por fruição.
DR