As alterações climáticas estão aí e é já muito difícil negar a sua existência. Prevê-se que, a nível global, para além de um aumento da temperatura média ocorram secas mais frequentes e severas na bacia mediterrânica e uma maior frequência de fenómenos climáticos extremos. Quanto aos Açores, prevê-se uma redistribuição da precipitação com um aumento da precipitação no Inverno compensado pela redução nas outras estações, dando origem a uma estação chuvosa mais curta e concentrada. É, no entanto, de esperar que quando ocorram eventos de precipitação extremos no Inverno possam ser mais frequentes casos de movimentos de massa em encostas instáveis, aumentando um perigo que é já uma realidade nesta Região. O clima pode tornar-se mais quente cerca de 1-2ºC, este Verão encontrou-se dentro desta tendência.
O impacto deste cenário nos ciclos da vegetação e hidrológico poderá ser bastante elevado uma vez que uma menor precipitação durante a Primavera, Verão e Outono poderá influenciar negativamente o crescimento da vegetação e por isso contribuir para o aumento da erosão quando das primeiras chuvadas de Outono e Inverno sobre um solo nu ou com pouca vegetação. As alterações climáticas poderão ser diretamente responsáveis pela perda de biodiversidade no que diz respeito às espécies de vegetação endémica se se verificarem alterações na humidade relativa do ar e no regime de formação de nuvens e de nevoeiros.
No entanto, a boa notícia é que a própria vegetação endémica pode fazer parte da solução. Isto porque as características fisiológicas da laurissilva conduzem a que este tipo de vegetação seja apropriado para captar a água presente nas nuvens e lentamente a fazer condensar e infiltrar nos aquíferos. Esta eficácia da vegetação endémica laurissilva, com folhas mais largas e coriáceas, de que são exemplo as espécies de louro (Laurus azorica), azevinho (Ilex azorica) e folhado (Viburnum treleasei), distingue-a favoravelmente de outros tipos de cobertura do solo, como as pastagens ou as matas de criptoméria (Cryptomeria japonica). Também as turfeiras de esfagno (Sphagnum sp.) que se encontram nas zonas de altitude das ilhas cumprem um importante papel na lenta infiltração da água e abastecimento dos aquíferos subterrâneos. A vegetação endémica é, portanto, uma cobertura de solo importante em zonas em que se pretenda promover a infiltração de água no subsolo. Estes factos conduziram inclusivamente a que, quando da criação da Rede Regional de Áreas Protegidas, se tenha estabelecido na Terceira uma Área Protegida de Gestão de Recursos na Caldeira de Guilherme Moniz que se encontra originalmente vocacionada para a proteção dos recursos hídricos, por meio da manutenção das áreas de turfeira e de matos macaronésicos endémicos.
O facto de a precipitação se concentrar mais no Inverno poderá predispor as ilhas a uma maior frequência de episódios de seca. As soluções poderão passar pelo armazenamento eficaz da precipitação, tanto em lagoas e reservatórios como em cisternas, e principalmente por um adequado ordenamento do território que proteja as zonas com maior capacidade de infiltração de água e as nascentes dos cursos de água. Em ilhas como a Graciosa, em que historicamente já existem episódios frequentes de falta de água, a recuperação dos elementos da arquitetura tradicional ligados à água poderá ter uma dupla função de armazenamento deste recurso precioso e de recuperação do património cultural.
Para os residentes e visitantes das nossas ilhas outra consequência das alterações climáticas poderá ser a diminuição do conforto bioclimático, a qual já se pôde fazer sentir este ano. No Verão, o aumento da temperatura poderá conduzir a situações de desconforto devido à simultaneidade com elevadas percentagens de humidade relativa do ar. Em 1944 José Agostinho referia que “os Açores serão sempre um ponto de importância primacial nos estudos meteorológicos e geofísicos mundiais”. Atualmente, com a necessidade de validação e calibração dos modelos climáticos que permitem a previsão de cenários face às alterações climáticas que estão já a ocorrer, estas ilhas voltam a poder ser um valioso ponto de referência no panorama meteorológico do planeta.
José Agostinho citado por António Frias Martins - “Os pioneiros da meteorologia dos Açores”. “Açoreana: revista de estudos açoreanos”. Ponta Delgada: Sociedade Afonso Chaves. Vol. IX. Fasc. III. (Dezembro 2001). pp. 231-242.