As infecções adquiridas em meio hospitalar têm uma especial importância, não só porque habitualmente ocorrem em indivíduos clinicamente mais vulneráveis e/ou aos procedimentos de que são alvo, mas também porque o tipo de gérmenes implicados são, por natureza, mais agressivos e mais resistentes aos antibióticos.
Na verdade, alguns dias após o internamento a flora habitual de um indivíduo, principalmente na pele e orofaringe, engloba já as bactérias do meio hospitalar, variando as espécies de instituição para instituição. Quer através da via respiratória, em indivíduos com baixo nível de consciência ou com dificuldade em proteger a via aérea, quer fruto de actos invasivos, como a colocação de cateteres vasculares, algaliação e feridas cirúrgicas, onde há uma quebra nas barreiras naturais de defesa, a invasão por um organismo patogénico pode causar infecção local, no sangue ou, através deste, numa outra parte do organismo. No entanto, muitas vezes, a infecção surge espontaneamente pela invasão de bactérias do próprio indivíduo, como sucede por exemplo nas de ponto de partida intestinal, o seu habitat natural.
Em qualquer dos casos, por definição, considera-se que existe uma infecção hospitalar, seja por vírus, bactérias ou fungos, quando surge alguns dias após o internamento ou mesmo após a alta hospitalar. A sua incidência, variável com o tipo de doentes e da instituição, ocorre entre 6-10% dos casos por melhor que sejam as práticas clínicas adoptadas, quer nos níveis de assepsia, quer na política de antibióticos, sendo impossível a sua total evicção. A mortalidade depende do estado físico do doente, do microorganismo implicado e da adequação do tratamento, podendo alcançar os 25%. No entanto, mesmo quando reconhecidas atempadamente e devidamente tratadas, a morte pode advir por uma resposta inflamatória desadequada, que não se observa em todos os indivíduos afectados, capaz de produzir uma falência irreversível em diversos órgãos e sistemas, situação conhecida por choque séptico.
Há e haverá sempre infecções desta natureza, mas o grande desafio está em mantê-las em níveis aceitáveis e, sobretudo, quando surge uma espécie resistente a múltiplos antibióticos, evitar a sua propagação a outros doentes, quer através dos profissionais de saúde, quer através de uma cadeia de transmissão que pode ter origem nos próprios familiares ou amigos que contactam fisicamente com o próprio doente. Daí a enorme importância na lavagem e desinfecção das mãos.
Ora a incidência das infecções em geral, ao contrário do que se tem insinuado, não depende da elevada temperatura do ar ambiente ou da humidade. Nada se demonstrou até hoje nesse sentido e, se assim fosse, haveria recomendações científicas para a manutenção destes parâmetros nos hospitais, os países mais frios e secos não teriam este problema e num determinado centro tal incidência teria uma variação sazonal, o que não se verifica.
Porém, ainda assim, no bloco operatório os níveis de temperatura e humidade estão recomendados, devendo ser inferiores a 23ºC e 70% respectivamente, mas fundamentalmente porque estas condições adversas, aliadas ao tipo de vestuário utilizado, criam um grande desconforto físico nos profissionais e a sudoração originada pode recair sobre o próprio doente, para além da condensação do vapor nas superfícies, aumentando o risco de infecção. Isto é sobretudo mais relevante quando se colocam dispositivos médicos, como próteses, por exemplo. Na realidade, a incidência de infecções cirúrgicas depende muito mais do cumprimento das habituais normas de assepsia e da antibioterapia profiláctica, dada adequadamente e no tempo certo.
Note-se que não existe nem nunca existiu até hoje um desproporcionado número de infecções hospitalares no HH, que tem uma Comissão de Infecção e monitoriza estas situações, as compara com as de outros hospitais nacionais e com a literatura médica, nem um surto de infecções causadas por um qualquer tipo de bactéria multirresistente, não podendo ser assegurado por ninguém, intelectualmente honesto, que tal não possa vir um dia a ocorrer.
Por fim, quanto ao problema do sistema de arrefecimento do bloco é de salientar que tem características próprias e é diferente dos sistemas convencionais, por motivos de assepsia. No HH desde há muitos anos que a questão da temperatura e humidade tem sido levantada nos dias mais quentes e húmidos, porque o sistema existente não era suficientemente potente e, sobretudo, com os anos foi perdendo eficácia. Para resolver esta situação foi adquirido há dois anos um sistema de backup para reforçar aquele arrefecimento e, desde então, o problema foi temporariamente ultrapassado, estando então previsto que, quando das obras de ampliação da urgência e ambulatório, um novo sistema fosse imediatamente instalado. Ciente deste futuro problema, tal requisito não foi esquecido nessa empreitada. Porém, como é sabido, as obras tiveram um atraso superior a um ano no Tribunal de Contas, que terá de visar este contrato de empreitada, e, entretanto, infelizmente, neste intervalo de tempo o sistema principal acabou por avariar definitivamente, ficando apenas a funcionar o sistema de reforço, que, sem ele, teria sido impossível sequer ter o bloco em funcionamento. Porém, dadas as actuais condições anómalas de temperatura e humidade, o sistema é manifestamente deficitário, condicionando a prática cirúrgica mais complexa e em determinados dias extremos.
Os primeiros constrangimentos surgiram em Junho e agudizaram-se a partir de meados de Julho, tendo o HH envidado todos os esforços repor a normalidade. Porém, não só sem o contrato visado a empresa que virá a ser responsável pela empreitada se mostrou indisponível para instalar tal sistema antecipadamente, como não foi possível encontrar em Portugal um sistema já elaborado capaz de suprir as necessidades, quer fosse novo, quer mesmo usado. Acresce a esta particularidade o facto de nos encontrarmos em Agosto, altura em que a maioria das empresas se encontram encerradas para férias. Na verdade, viemos a saber que tal sistema é sempre feito por encomenda na altura da compra, porque tem que ter em conta o tipo de clima e potência requerida, os diâmetros das tubagens para os caudais, a área abrangida, etc. Daí a dificuldade na resolução de tal situação, uma vicissitude com a qual termos que lidar, a não ser que possa encontrar-se uma qualquer alternativa de recurso, e para o que se espera de todos a máxima compreensão, ainda mais porque aquele sistema deveria arrefecer outras áreas que não apena a do bloco operatório.
A Tutela tem sido informada desta situação, tendo no início deste problema sido colocada a possibilidade de uma solução alternativa, através do arrefecimento nocturno das salas com aparelhos portáteis que, obviamente, teriam que ser desligados quando do início das intervenções, motivo que levaria o Secretário Regional da Saúde a afirmar que a solução seria resolvida a curto prazo, mas que, posteriormente, se mostrou infrutífera.
Resta dizer que entre no primeiro semestre de 2018, 2017 e 2016 foram efectuadas 1.297, 1.263 e 1.214 cirurgias e que de 1 Junho a 28 de Agosto do corrente ano foram feitas 440 intervenções, quando em 2017 entre 1 de Junho e 31 de Agosto de 2017 e de 2016 tinham sido operados, respectivamente, 495 e 427 casos, onde estão incluídas as intervenções urgentes que são variáveis, havendo um compromisso para que o HH possa chegar até final do ano com os atrasos em causa solucionados, que estimamos em 30 doentes. Note-se que desde há dois anos que o bloco operatório funciona apenas com uma sala em Agosto, por acordo entre o CA do Hospital da Horta e os seus profissionais, pelo que a sua actividade é sempre mais reduzida, sendo este impacto por isso menor.
Rui Suzano
Director Clínico do Hospital da Horta