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26
novembro

25. Governador Manuel da Câmara

Escrito por  Fernando Faria
Publicado em Fernando Faria

Retalhos da nossa história – XC

No Centenário da República Portuguesa (20)

Com a inesperada exoneração do Dr. Alberto Goulart de Medeiros, assumiu a chefia do distrito o micaelense Manuel Botelho da Câmara Velho de Melo Cabral que, desde 2 de Dezembro de 1913, exercia o cargo de tesoureiro da Fazenda Pública do concelho da Horta.

A imprensa, ao noticiar a tomada de posse, que decorreu no dia 22 de Maio de 1918 em resultado do alvará de nomeação assinado pelo Alto-Comissário da República nos Açores [general J.A. Simas Machado], tratava o novo governador como “distinto literato” e adiantava que “assistiram ao acto os excelentíssimos representantes daquela entidade, sr. Dr. João da Silva Correia Jr., chefes e empregados de repartições públicas, muitos amigos, patrícios e admiradores de sua excelência.” Discursaram os “governadores civis cessante e empossado, seguindo-se a leitura do auto e assinatura dos cavalheiros presentes”[1].

O mundo continuava a sofrer com a tragédia da I Guerra Mundial e a população destas ilhas não conseguia libertar-se das inúmeras dificuldades derivadas daquele terrível conflito e da instabilidade política, social e económica que foi a imagem de marca da República Portuguesa. Por isso, o mandato do governador Manuel da Câmara não diferiu dos seus antecessores, ficando assinalado pelas dificuldades de abastecimento de bens essenciais para o consumo público - em especial milho, trigo, leite, manteiga, ovos, açúcar – e os consequentes casos de açambarcamento e da prática de preços especulativos.  Apesar de assessorado pela Comissão Distrital de Subsistências, era ao governador que cabiam as últimas e decisivas diligências para a compra e importação dos produtos alimentares que impedissem os mais pobres de, literalmente, morrerem à fome. Por conseguinte, Manuel da Câmara seguiu o mesmo caminho dos que o haviam precedido à frente do Governo Civil da Horta. Assim, nos começos de Junho de 1918 -  poucos dias após haver assumido o cargo - noticiam os jornais locais que ele acabara “de obter do excelentíssimo governador civil de Angra a vinda de 100 moios de milho ao preço de 750 reis o alqueire” destinados especialmente à ilha do Pico. E foi de lá que imediatamente veio um público louvor em testemunho de muita gratidão pela pronta e benemérita acção do governador que, implicitamente, também era uma crítica a quem ocupara antes aquele cargo. Publicado na primeira página do diário “A Democracia”, em 20 de Junho de 1918, esse extenso texto da autoria de “Um Beneficiado” do Pico, regista que a população daquela ilha está “grata, muito grata ao ilustre chefe do distrito, exmo. sr. Manuel da Câmara pelo enorme benefício que acaba de conceder-lhe, não só abastecendo-a de milho até à próxima colheita como trazendo-lhe uma economia de dois contos e tanto nos cem moios agora importados, que a tanto monta a diferença de 760 reis para 1$100 reis, preço por que em média foram vendidos nesta ilha os duzentos e cinquenta moios anteriormente importados do mesmo distrito de Angra e de Ponta Delgada”. E para que a farpa não passasse desapercebida lastimava “que às autoridades transactas não fosse possível estabelecer igual preço de 760 reis por alqueire ao milho, por seu intermédio adquirido, do que resultaria uma economia de mais de cinco contos de reis” o que daria, de acordo com o autor do escrito, uma poupança de sete contos. Daí o seu reconhecimento ao governador que apesar de não ser “deste distrito” procede “como seu filho dedicado” pelo que é merecedor do “mais subido respeito e admiração” pela “nítida compreensão que tem dos deveres do espinhoso cargo que lhe foi confiado”.

Os dois diários faialenses deste período nem sempre estavam de acordo com as medidas tomadas pelas autoridades para minimizarem as tremendas carências que atormentavam as populações e, como ainda hoje acontece, faziam opções políticas que normalmente redundavam em polémicas públicas, terminando algumas delas na barra dos tribunais. Foi isso que aconteceu com O Telégrafo. Por causa da premente questão das subsistências foi processado pelo governador e julgado em Outubro de 1918. A partir daí, aquele diário, sempre que era forçado a referir-se ao chefe do distrito, deixou de mencionar o seu nome!

Constata-se este facto, mesmo no termo do mandato de Manuel da Câmara que é assim noticiado: “Por telegrama de ontem à noite dirigido pelo Governo ao sr. secretário geral interino foi demitido o sr. governador civil actual, sendo mandado entregar a chefia do distrito ao sr. Dr. Manuel Francisco Neves Júnior”[2]. Entretanto, findara a guerra mundial, assinara-se o armistício de 11 de Novembro, o Presidente Sidónio Pais fora assassinado em 15 de Dezembro sendo substituído pelo Almirante Canto e Castro, Paiva Couceiro voltara a invadir Portugal e proclamara a “Monarquia do Norte”, a guerra civil eclodira, a epidemia de gripe alastrava, o grave problema da subsistência pública era insolúvel e  a fome  não diminuía. Demitido o governo de Tamagnini Barbosa que Canto e Castro empossara após a sua eleição, o Presidente da República apelou ao patriotismo de José Relvas para formar um elenco governativo que pusesse termo à Monarquia do Norte, promovesse a desejada acalmia política e resolvesse ou, pelo menos atenuasse, alguns dos muitos problemas nacionais. Com representantes de vários partidos e facções, Relvas formou um Ministério de concentração republicana em que, além da presidência detinha a pasta do Interior, Foi, portanto, ele quem exonerou Manuel da Câmara de governador civil do distrito da Horta, nomeando para o seu lugar o Dr. Manuel Francisco Neves Júnior.

Regressando aquele à profissão de tesoureiro da Fazenda Pública, nela se manteve até aos começos da terceira década do século XX. É nesse cargo que o encontramos quando se deu o incêndio da madrugada de 13 de Agosto de 1930 que destruiu totalmente o edifício que albergava a Repartição de Finanças, a Tesouraria da Fazenda Pública, a Inspecção Escolar, a Intendência de Pecuária e a Inspecção de Saúde, dele passando ao prédio da sociedade Amor da Pátria que ficou quase completamente destruído pelas chamas. Os jornais locais inserem, a par das reportagens dessa noite trágica, vários artigos polémicos que envolvem, além da corporação dos Bombeiros Voluntários, alguns publicistas faialenses, salientando de entre eles o tesoureiro da Fazenda Pública, Manuel da Câmara Velho de Melo Cabral.

 Antes de ser governador civil da Horta, exerceu os cargos de administrador dos concelhos da Lagoa e de Ponta Delgada, e destacou-se ainda como jornalista e escritor. Deixou algumas obras publicadas, designadamente “Vinte Contos Insulanos – Narrativas Açóricas” (1917), “Uma Mística do Século XVII” (1924), “A Morgadinha de Valongo” (1927) e “Antero de Quental e a sua morte” (1930).

Natural da ilha de São Miguel, nasceu a 4 de Setembro de1869 na Fajã de Baixo e, curiosamente, faleceu em 1939, no dia em que fez 70 anos de idade. Era filho de João Luís da Câmara Melo Cabral, grande proprietário rural na Atalhada, e de sua mulher Maria Isabel Botelho. Casou três vezes: a primeira, com Margarida Botelho Vaz Pacheco de Castro; a segunda com Maria da Anunciação Vasconcelos e a terceira com Beatriz Vieira Meireles. Do primeiro casamento teve um filho, João Luís Pacheco da Câmara Melo Cabral; do segundo não houve descendência e do terceiro nasceram quatro filhos: Gonçalo, Margarida Manuela, Fernando Manuel e Rui Velho de Melo Cabral que nasceu na Horta em 5 de Março de 1915 e foi baptizado na igreja das Angústias, sendo seu padrinho o senador Dr. José Machado de Serpa.

 

[1] “O Telégrafo” 22 Maio 1918, p. 3

[2] “O Telégrafo”, 19 Fevereiro 1919, p.2

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