Imprimir esta página
26
outubro

Crónicas de Bruxelas - A Caminhada da Vida

Escrito por  Frederico Cardigos
Publicado em Frederico Cardigos

Ao sair de casa, no carro, liguei o rádio e a estação Classic 21, talvez uma das emissoras mais conhecidas de Bruxelas, emitia o clássico dos Dire Straits, Walk of Live. No exterior, ao Sol que quase cegava misturava-se um frio penetrante. Ao som da música, trauteava a letra, “He got the action, he got the motion, Oh yeah, the boy can play...”, até que passou para os versos seguintes e isso desacelerou-me o cérebro. “Dedication, devotion, Turning all the night time into the day”. “Dedicação, devoção, transformando todo o tempo de noite no dia seguinte”. A tradução é minha e, como se pode perceber, é uma tradução livre, ou seja, poderia ser diferente. É uma tradução mais emocional do que literal. A tradução de poesia é uma arte e muito longe estou eu de pretender que esteja ao meu alcance.
Transformando as trevas escuras e turvas da noite na claridade e felicidade do dia… Passando da tristeza e sombras da noite para a verdade científica escorreita, precisa e alegre do dia seguinte. Foi aqui que o meu pensamento ficou às voltas. Desliguei-me desta música e fui transportado para uma outra, usada num anúncio de boa memória, “I can see clearly now the rain is gone, I can see all obstacles in my way, Gone are the dark clouds that had me blind, It's gonna be a bright, Bright sun-shining day”. Não é fácil cantarolar uma letra com outra música de fundo. Apaguei o rádio e deixei-me ir…
Aquilo que o meu cérebro me estava tentar dizer, acho eu, é que por muito grande que seja a dificuldade (“rain”) e por mais intransponível que pareça o problema (“dark clouds”) vai haver um momento em que voltaremos a saber lidar com os obstáculos no caminho (“I can see all obstacles in my way”) e ficaremos bem (“It's gonna be a bright (…) sun-shining day”). Eu e o meu cérebro, por vezes, temos dificuldades de comunicação, mas penso que era esta a mensagem que me foi inicialmente suscitada pela Caminhada da Vida dos Dire Straits.
A verdade é que, no meu caso, já me vi em encruzilhadas aparentemente sem solução (“Dire Straits”, curiosamente) e, com dedicação ou mesmo devoção (“Dedication, devotion”), elas dissiparam-se. Umas vezes transformando-se em novas dificuldades, diga-se, outras em dias felizes (“Here is that rainbow I've been praying for”).
É esta a caminhada da vida. Umas vezes incompreensivelmente apanhados pelas contingências maléficas de algo que não dominamos e, outras, surpreendidos pela felicidade com que somos bafejados. O único remédio, quando apanhados em tais contingências, pelo menos no meu caso, é trabalhar e lutar. O único remédio é sorrir e virar a cara para o vento deixando a água salgada bater-nos na cara e dizer que não temos medo, mesmo que estejamos apavorados. É enfrentar a impossibilidade de vitória com a certeza que o final de tudo ainda está muito longe e novas e gloriosas oportunidades estarão por surgir. É cantar cada derrota como se de uma epopeia se tratasse e olhar para cada vitória com uma saborosa humildade. Esta é a caminhada da minha vida e a mensagem é sempre It's gonna be a bright, Bright sun-shining day, mesmo que não faça qualquer ideia de como lá chegar.
Vai ser um dia com uma brilhante luz do Sol, vai mesmo!

 

 

Lido 201 vezes
Classifique este item
(0 votos)
Login para post comentários