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30
novembro

Vasco Cordeiro está a destruir o PS/Açores

Escrito por  Paulo Estevão
Publicado em Paulo Estevão

Os leitores que conhecem os meus escritos devem estar a estranhar esta minha súbita preocupação com o PS/Açores, o partido que monopoliza o poder regional desde 1996. Critico as políticas desenvolvidas e os abusos cometidos no âmbito do exercício do poder, mas não demonizo o PS/Açores enquanto instituição partidária.

Nos Açores, o PS começou por ser um partido aliado do poder central e hostil a uma ideia de autonomia avançada. O episódio mais emblemático da predisposição negativa do PS/Açores em relação ao processo autonómico é o histórico abandono do Plenário do Parlamento dos Açores pelo Grupo Parlamentar do PS/Açores no momento em que se votava a adoção da atual bandeira dos Açores.
Seja como for, o PS/Açores transformou-se numa força mais envolvida no processo autonómico quando, em 1996, chegou ao poder regional. Estou absolutamente convencido que uma grande parte da conversão do PS/Açores à ideia autonómica esteve relacionada com a dinâmica imparável das inevitáveis disputas com o poder central de Lisboa, um dos mais despóticos e estupidamente burocráticos da Europa.
Para um líder com natureza e feitio cesarista, como foi Carlos César, as arengas e o pacóvio paternalismo de Lisboa devem ter-lhe esgotado a paciência. Carlos César transformou-se, paulatinamente, num autonomista mais empenhado. Foi mais uma questão de ego e de feitio que outra coisa qualquer.
Carlos César é um “viciado” em poder. Tendo acumulado todo o poder no partido e na sociedade açoriana, apenas lhe restava conquistar poder a quem detinha o que ainda lhe faltava: Lisboa. As suas disputas com Cavaco Silva inserem-se, claramente, na perspetiva personalista, instrumental e utilitária que Carlos César tinha da autonomia: mais poder autonómico significava, sobretudo, mais poder para si próprio.
Na Região, Carlos César teve sempre a preocupação de não se deixar cercar ou isolar no sistema político regional. A sua experiência de vinte anos de oposição ao PSD/Açores ensinou-lhe a importância de não ficar sozinho numa luta de todos contra o Governo Regional, um erro que o PSD/Açores pagou bem caro em 1996. Conseguiu fazer acordos à direita (com o CDS/PP) e à esquerda (com o PCP). Até inventou uma lei eleitoral para resgatar o PCP para o Parlamento e ampliar o CDS/PP (que aproximou a representatividade parlamentar desse partido ao seu volume de votos). Tudo para recentrar o PS/Açores no sistema político açoriano, assegurando a existência parlamentar de uma esquerda programática e de um competidor de maior dimensão ao PSD/Açores no espectro político mais à direita.
Carlos César deixou, do ponto de vista político, uma intrincada teia de equilíbrios. Foi, pela complexidade da teia de relações de poder que deixou urdida, uma espécie de pequeno Bismarck açoriano. Comparado com ele, Vasco Cordeiro é notavelmente provinciano. Em apenas seis anos incompatibilizou-se com grande parte dos líderes políticos da oposição, do patronato, dos sindicatos e de outras forças institucionais relevantes da sociedade açoriana.
Do ponto de vista parlamentar, a sua altivez, arrogância e falta de palavra no plano institucional deixou o PS/Açores isolado no Parlamento dos Açores. Algo que jamais sucedeu com Carlos César. Assemelha-se muito – e a imagem é apenas política – a um elefante numa loja de porcelana. Destruiu todos os equilíbrios e avançou temerariamente numa luta contra todos, contra tudo e, em definitivo, a favor de nada.
É uma estratégia suicida. Em primeiro lugar porque a sua governação não tem logros e não entusiasma. Ninguém consegue lembrar-se de um único grande êxito governativo atribuível a Vasco Cordeiro, mas todos se lembram de “grandes barracadas” como o facto de, em oito anos, não ter conseguido colocar a navegar um único navio da sua frota imaginária, a destruição da SATA ou a contínua degradação dos serviços públicos, em especial nos sectores da educação e da saúde.
Em segundo lugar, a efetiva tutela política que Sérgio Ávila exerce sobre ele diminui a sua autoridade e prestígio. Nenhum líder se consegue afirmar se as pessoas sentirem que é levado pela mão e manietado por uma vontade superior. Napoleão ou Alexandre Magno tinham as duas mãos livres para os arreios do cavalo, para a espada e, no caso de Churchill, para os charutos. Ninguém lhes conduzia ou manietava qualquer parte dos seus membros superiores.
Finalmente, Vasco Cordeiro colocou em seu redor um exército de mercenários órfãos de qualquer ideologia, muito menos de algo que se possa assemelhar ao socialismo democrático. Deitou para o caixote do lixo da História os socialistas que fizeram a “Grande Marcha” de 1976/1996. Esquece-se ou nunca soube que, desde a Revolução Francesa, são os exércitos de cidadãos que ganham todas as batalhas. É por isso que Vasco Cordeiro terá o seu Alcácer-Quibir em 2020. 

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