Apesar das críticas e das denúncias que periodicamente vieram a público durante todos estes longos anos da vigência do consulado socialista nos Açores, sempre o Governo defendeu a transparência e a justiça nos métodos e critérios de seleção dos concursos para os cargos na Administração Pública açoriana.
Ao fim de 22 anos, a verdade, porém, é que este sistema permitiu enxamear a administração pública e as empresas públicas regionais de apaniguados do regime.
Simultaneamente, esse fenómeno produziu um efeito sociológico que devia ser um caso de estudo nos Açores: a sua implicação na liberdade de opinião e na participação cívica da população dos Açores. Quem anda com as pessoas e quem com elas fala dia-a-dia, depressa se apercebe da autocensura e da abstinência quase total da participação política e cívica de muitos delas, para não incomodarem o poder pois, como elas próprias reconhecem, têm filhos ou parentes que estão a bater à porta do maior empregador dos Açores, e sabem que, em meios pequenos, o selo partidário, conforme a cor, ou a opinião crítica podem ser um obstáculo.
Neste até aqui “justo e transparente” sistema de concursos que vigorou na Administração Pública dos Açores houve naturalmente de tudo: concursos justos e verdadeiramente isentos; concursos feitos à medida para os “boys” a quem se quis dar guarida; concursos quase desconhecidos para se facilitar a entrada de alguém; concursos em que os protegidos treinavam as perguntas com alguém do Júri (denúncia feita pela RDP a alguns meses); concursos que foram anulados, face a variados atropelos; concursos até que acabaram, depois de muitos recursos, com o provimento de quem não se queria. E até houve concursos com perguntas na entrevista que não lembram ao mais imaginativo autor. Repetimos uma, publicamente denunciada pelo Diário Insular, sob o mais que significativo título: “Alguém acredita nisto?”. Então, conta o jornal, que um candidato a um emprego na administração pública regional, na área da Saúde, foi na entrevista confrontado com a seguinte pergunta: “Atendendo à polémica nos órgãos de comunicação social sobre a contaminação, o que diria se o questionassem sobre este assunto?”.
Justamente interrogava-se aquele jornal, em Editorial: “Que relevância tem esta pergunta para o emprego em causa que, aliás, nada tem a ver com contaminação? Já agora, qual a resposta adequada para que o candidato não seja mandado para casa sem emprego?”
E acrescentava: “A pergunta em causa é apenas um exemplo do ponto a que chegou a famosa entrevista enquanto instrumento utilizado para selecionar funcionários para um serviço público qualquer. A pontuação da resposta é aquela que Deus ou o diabo quiserem, o que significa que a resposta pode ser considerada brilhante ou um desastre, consoante critérios que nunca podem ser objetivos.”
Quantos e quantos concursos se decidiram nestes 22 anos com perguntas e entrevistas destas, feitas à medida?
Quem permitiu este sistema, quem o defendeu de unhas e dentes perante as regulares denúncias feitas durante todo esse tempo, quem sempre recusou as acusações mais ou menos fundamentadas de favorecimento de famílias amigas a quem foi dada completa guarida na administração regional, pois é esse mesmo que vem agora dizer, ao fim de 22 anos, que é preciso “mais transparência” e que as entrevistas vão acabar nos concursos públicos para a administração regional!!!
Mas alguém de boa fé acredita que será agora, ao fim de 22 anos de prática continuada, que serão os mesmos atores que vão deixar as “cunhas”, o “amiguismo” e o “favorecimento” só porque se alterou uma lei no Parlamento dos Açores?
Socorro-me novamente de Don Fabrizio, príncipe de Salina, no romance “O Leopardo”, de Giuseppe de Lampedusa - “É preciso que alguma coisa mude, para que tudo fique na mesma.”
É assim que se está na governação dos Açores!
25.11.2018